O que cabe onde não devia?

Pés descalços em água
Talvez a pergunta não seja se a bondade é leve ou pesada, mas se ela continua quando ninguém está vendo, quando não rende história, quando não vira exemplo. Foto: Pixabay

A menina parou diante da poça. A mãe já havia dobrado a esquina, certa de que a filha vinha atrás, como costumava vir. Não era descuido; era hábito. Naquele dia, porém, a menina não vinha. Estava parada, olhando a água escura que se acumulava entre pedras quebradas do calçamento. Havia um resto de óleo, uma folha meio podre, um canudo de plástico. A mãe, se olhasse, veria sujeira. A menina viu o céu. Não porque a água fosse limpa, mas porque o ângulo permitia: uma nesga de azul, uma nuvem pequena, quase um borrão. Ela ficou ali sem se mexer. Criança não mede tempo; adulto mede. Adulto já calcula quantos segundos perdeu.

A mãe voltou, pegou-lhe a mão e puxou. “Vai pisar, menina, vai molhar o pé, vai ficar doente.” A menina foi. Mas virou a cabeça. A poça continuava lá. O céu também.

Essa cena costuma ser contada como exemplo de pureza infantil. A criança que vê o céu onde o adulto vê sujeira. Não me parece tão simples. A menina não estava fazendo uma descoberta filosófica; estava parada, distraída, talvez cansada, talvez apenas curiosa. O que nos comove é menos a criança e mais o contraste que nós, adultos, projetamos nela. Precisamos que alguém veja o céu na poça para acreditar que ainda existe alguma coisa intacta no mundo. É uma necessidade nossa, não dela.

Também não sei o que aconteceu depois. A poça secou, provavelmente. O asfalto ficou manchado. Ninguém notou. A menina cresceu, como todo mundo. Talvez tenha esquecido. Talvez nem se lembre mais daquela poça. Não vale inventar para ela um destino simbólico, nem dizer que guardou aquela imagem para sempre. A maioria das imagens se perde. A maioria das infâncias não vira literatura. Vira memória solta, foto sem legenda, assunto de família.

O que ficou comigo foi a mão da mãe. Não a poça. A mão que puxa a criança para longe do perigo também interrompe uma descoberta. A mesma mão que protege fecha uma porta. Isso não faz da mãe uma pessoa ruim. Faz dela uma adulta com pressa, com medo, com responsabilidade. Quem já cuidou de criança sabe que a proteção é feita também de interrupções. Não há tempo para cada poça. Às vezes há, mas a gente não sabe. A gente só vê o pé que pode molhar, a roupa que pode sujar, o horário que se acumula.

Já puxei mão de criança. Já interrompi descoberta sem perceber. Não por maldade, mas porque estava atrasado, porque tinha outra coisa para resolver, porque o mundo adulto cobra uma atenção que a gente nem sempre tem. Às vezes era só cansaço; às vezes era medo de que algo acontecesse. Depois, no silêncio do carro ou na fila do banco, vem a pergunta: o que aquela criança estava vendo? Nunca soube. A pressa não deixa rastro, mas deixa uma espécie de dívida. Não uma dívida que se pague; uma dívida que se reconhece. Quem cuida aprende a conviver com essas pequenas interrupções. Não há pureza nisso, nem culpa absoluta. Há apenas gente tentando acertar com o tempo que tem.

Pensei nisso ao lembrar de pessoas que cuidam. Não falo de bondade em abstrato, dessas que aparecem em campanha com sorriso e mãos dadas. Falo do que vejo de perto: quem leva alguém ao médico, quem repete a mesma explicação pela quinta vez, quem empresta dinheiro sabendo que não vai receber, quem acorda de madrugada para acalmar outra pessoa. Essas coisas pesam. Não pesam sempre do mesmo jeito, nem para todo mundo. Há quem encontre alegria em ajudar; há quem se desgaste e continue; há quem ajude uma vez e não consiga repetir. Nenhuma dessas experiências deveria ser transformada em regra.

Talvez seja por isso que desconfio das imagens muito nítidas de bondade. Elas costumam excluir o cansaço, a impaciência, o desejo de estar em outro lugar. A pessoa que cuida também quer descansar. A pessoa que ajuda também calcula, às vezes, quanto ainda consegue dar. Isso não diminui o gesto; apenas mostra que ele é feito por alguém inteiro, com limites e vontades contrárias. A bondade real não é uma fotografia sem sombra. É uma decisão tomada no meio de outras urgências, com o tempo que sobra e a atenção que resta. Não é que o cansaço desminta o gesto; ele apenas mostra o preço.

Ao mesmo tempo, seria errado dizer que toda bondade é pesada. Já vi gente que ajuda com uma naturalidade que não parece sacrifício. Não sei se essa leveza é dom, treino ou sorte. Talvez sejam as três coisas. Talvez algumas pessoas tenham aprendido a cuidar sem se perder tanto. Não quero transformar minha experiência em sentença sobre a experiência dos outros. O que posso dizer é que desconfio de qualquer definição única. A bondade que conheço é mista: às vezes leve, às vezes pesada, quase sempre imperfeita.

Talvez a pergunta não seja se a bondade é leve ou pesada, mas se ela continua quando ninguém está vendo, quando não rende história, quando não vira exemplo. A bondade que não aparece em campanha costuma ser a que sustenta o dia. Não sei se ela cabe numa definição. Cabe numa mão que puxa, numa mão que segura, numa mão que às vezes erra.

A menina parou. A mãe voltou. Depois foram embora. Eu também sigo, com a pergunta que fica: quanto de cuidado cabe numa mão que puxa, e quanto de descoberta se perde quando ela puxa?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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