O policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado pela investigação como um dos líderes de “A Turma”, núcleo de intimidação e monitoramento ligado a Daniel Vorcaro, do Banco Master, costumava se referir ao banqueiro pelo codinome “São Paulo”.
O apelido consta nos autos dos inquéritos relacionados ao ex-banqueiro, que tiveram os sigilos quebrados por determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, na noite de quinta-feira (10).
Uma das menções à alcunha de Vorcaro ocorreu em uma conversa de Marilson com a esposa, Júlia Cristina Alves Ribeiro. Em uma mensagem de texto enviada em 2 de março deste ano, o policial disse que iria se encontrar com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão.
Conhecido como “Felipe Mourão” ou “Sicário”, ele foi apontado pela Polícia Federal como operador central e responsável pela coordenação de “A Turma”. Preso em 4 de março, Mourão morreu dois dias depois.
Conforme os autos, ao explicar à esposa a necessidade do encontro presencial com Mourão, Marilson disse que um interlocutor identificado como “São Paulo”, codinome usado para se referir a Vorcaro, queria falar com ele.
“Utilizando-se da mesma dinâmica, tem-se o diálogo com a esposa Júlia, em que o escrivão aposentado afirma que quando estava saindo, recebeu uma ligação de Felipe – Luiz Phillipi Mourão, falando que “o São Paulo” – alcunha de Daniel Vorcaro, queria falar com o ele, então o comparsa se dirigiu até a residência de Marilson, para que este último pudesse conversar com o chefe, o que efetivamente foi realizado”, narra o documento.
A conversa entre Vorcaro, Marilson e Sicário aconteceu, segundo a PF, de forma remota. No momento do diálogo, os integrantes da “Turma” estavam em um carro estacionado na Avenida Assis Chateaubriand, na Região Leste de Belo Horizonte.
Em outro trecho do relatório que relata o encontro entre Marilson e Sicário no carro, uma Range Rover de cor preta, a PF não crava que a reunião foi com o ex-banqueiro e afirma que o outro interlocutor, “muito provavelmente”, era o dono do Master.
Nesse trecho, também há menção ao fato de a ligação não ter sido atendida. Segundo o material, o veículo “ficou estacionado no local em questão por cerca de uma hora e vinte minutos, até que o policial aposentado saiu do veículo e entrou na portaria do prédio onde reside”.
“Naquela oportunidade, aliado aos demais elementos de prova, foi possível constatar que ambos os investigados permaneceram no veículo durante todo o tempo mencionado para a realização de uma reunião, muito provavelmente com o chefe da ORCRIM, Daniel Vorcaro, todavia a ligação não foi atendida ou retornada”, lê-se no conteúdo.
‘Meninos de São Paulo’
Marilson também faz alusão ao apelido “São Paulo” em conversa com o policial federal Anderson Wander, outro suspeito de fazer parte de “A Turma”. Segundo a investigação, desde 2023, Wander consultava sistemas internos e repassava informações ao escrivão aposentado, que as encaminhava a “Sicário”.
Em janeiro de 2024, Marilson procurou Wander para saber se ele estava trabalhando. Na data, o policial federal da ativa, então lotado na Superintendência da PF no Rio de Janeiro, se colocou à disposição para uma nova demanda.
Segundo a PF, Marilson respondeu que verificaria se “os meninos” de “São Paulo” fariam a abordagem. Os investigadores, porém, afirmam não ter identificado se a ação seria realizada por policiais, embora o termo seja normalmente associado ao contexto policial.
“Em áudio seguinte, MARILSON avisa que conseguiria dominar “por aqui mesmo”, muito provavelmente se referindo à cidade em que reside, Belo Horizonte/MG. Afirma também que seria uma demanda parecida com a anterior, uma vez que o indivíduo consultado, ao que tudo indica, estaria retornando para o Brasil”.
Após esse retorno, o policial federal insistiu em receber uma nova demanda porque estava com muitos gastos em função de atrações contratadas para a festa de aniversário e pediu a Marilson uma “prenda” para ele e “Curica” – não foi identificado quem seria.
“Deixa eu te perguntar uma coisa: tu vai conseguir vir no meu aniversário sábado, cara? Porra, tá na maior correria aqui, meu irmão. Uma porrada de pica aqui pra resolver. Tá grupo de pagode, banda de rock, porra. Uma porrada de coisa pra pagar, pra resolver. Som, aí bateria de escola de samba, aquelas porra que eu gosto”.
“Porra, teu irmão tá um pouco embolado, cara. Eu tive que botar um negócio de brinquedo aqui pra criança, por causa de pula-pula, piscina de bola, essas porra. Vê se consegue me dar alguma moralzinha aí, cara. Uma prenda. Presente, porra. Pra mim e pro Curica. Vê aí com carinho e me fala”, finalizou o policial.