Quatro ex-governadores de Minas enviam carta a Zema contra aluguel do Palácio da Liberdade; portaria já foi revogada

Texto, assinado por Aécio, Anastasia, Azeredo e Pimentel, critica possibilidade de cessão do espaço para eventos particulares
Palácio da Liberdade
Palácio da Liberdade compõe um dos circuitos culturais de BH. Foto: Marco Evangelista/Imprensa MG

Quatro ex-governadores de Minas Gerais enviaram uma carta ao governador Romeu Zema (Novo) com críticas à decisão da Fundação Clóvis Salgado de permitir a locação do Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, para sediar eventos privados. O texto é assinado por Aécio Neves (PSDB), Antonio Anastasia (sem partido), Eduardo Azeredo (PSDB) e Fernando Pimentel (PT). 

A portaria que liberou o aluguel do edifício, inclusive, foi revogada nessa terça-feira (23). O recuo aconteceu cinco dias após a edição do decreto inicial. A anulação da possibilidade de locação era a reivindicação central da carta dos ex-chefes do Executivo.

“Ao permitir a locação particular, destinada a pessoas abastadas, que possam arcar com os seus custos, seremos testemunhas da banalização do edifício sede da identidade de Minas Gerais como Estado federado, repleto das mais reconhecidas tradições e memórias de nossa gente. Em outras palavras, na prática, assistiremos à privatização do uso do Palácio, na contramão do simbolismo adquirido pela edificação ao longo da história, qual seja, o de representar, com altivez, a defesa dos valores de Minas”, lê-se em trecho da missiva dos ex-governadores.

No decreto anulado, a Fundação Clóvis Salgado abria a possibilidade de aluguel de espaços como o hall de entrada e o alpendre do Palácio, a escadaria principal, os jardins e algumas das salas do casarão. O texto autorizava a realização, mediante o pagamento de valores presentes em uma tabela de preços, de atividades como fotos para casamentos e festas de debutantes, recepções, eventos corporativos, gravações audiovisuais de teor cultural, apresentações musicais e lançamentos de produtos.

Na crítica ao texto revogado, Aécio, Anastasia, Azeredo e Pimentel dizem que a preocupação não tem relação com posicionamentos políticos, partidários e ideológicos. 

“Tal deliberação, a nosso ver, macula as mais legítimas tradições de nossa história política, pois o símbolo máximo do Poder Público do Estado deixa a sua função essencial e se transforma em cenário de exibição de interesses privados. É fato que o Palácio da Liberdade já serviu de palco para diversas manifestações culturais, sociais e gastronômicas, mas todas elas de iniciativa oficial e com reconhecido caráter de interesse público”, escrevem.

Segundo os quatro ex-governadores, o uso do Palácio da Liberdade para eventos particulares traria prejuízos ao “sentimento maior de mineiridade”. Embora atualmente a sede do governo seja a Cidade Administrativa, o icônico edifício é usado para eventos oficiais. Na segunda (22), por exemplo, o local sediou um almoço do vice-governador Mateus Simões (Novo) com deputados estaduais, enquanto nesta quinta (25) será palco de uma recepção de Zema a 20 embaixadores de países da Europa.

“O Palácio da Liberdade é o mais icônico edifício de Minas Gerais. Certamente, no Brasil, entre tantas sedes de governos estaduais, nenhuma delas representa valores tão arraigados de tradição, cultura e identidade cívica quanto o nosso Palácio da Liberdade Não somente é um bem tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado, mas, em nível muito mais elevado, é a representação física da história política da Minas republicana. Certamente, sua singularidade o difere de todos os demais bens do Estado”, argumentam.

O Fator abriu espaço ao governo de Minas para comentar a carta dos ex-chefes do Poder. Em caso de resposta, este texto será atualizado.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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