BH precisa começar a discutir o futuro

Cidades não ficam para trás apenas por falta de recursos. Ficam para trás porque insistem em discutir o passado
Foto: Luiz Santana/ALMG
Foto: Luiz Santana/ALMG

Belo Horizonte é uma cidade de enorme potencial. Tem localização estratégica, capital humano qualificado, universidades de excelência, tradição empreendedora e uma das melhores qualidades urbanas do Brasil. Ainda assim, existe uma sensação cada vez mais evidente de que a capital mineira parou no tempo enquanto o mundo acelerou.

O problema não está apenas na infraestrutura, na política ou na economia. O problema central talvez seja outro: Belo Horizonte ainda discute pautas pequenas enquanto cidades globais discutem o futuro.

As cidades mais desenvolvidas do mundo compreenderam há muito tempo que competitividade urbana não se resume a obras públicas ou expansão imobiliária. Competitividade urbana hoje significa mobilidade inteligente, sustentabilidade, transição energética, inovação tecnológica e, acima de tudo, qualidade de vida.

Em Singapura, o planejamento urbano é tratado como estratégia nacional. A cidade não discute apenas trânsito. Discute tempo, produtividade, eficiência e bem-estar. O transporte público é integrado, a tecnologia é utilizada para organizar serviços urbanos e a sustentabilidade deixou de ser discurso para se tornar modelo econômico.

Na Europa, Copenhagen se transformou em referência mundial ao colocar as pessoas no centro do planejamento urbano. A cidade priorizou mobilidade limpa, ocupação inteligente, espaços públicos de qualidade e neutralidade de carbono. O resultado não é apenas ambiental. É econômico. Empresas e talentos querem estar em cidades que oferecem qualidade de vida.

Nos Estados Unidos, Austin deixou de ser apenas uma cidade universitária para se tornar um dos principais polos de tecnologia e inovação do mundo. O crescimento ocorreu porque houve visão estratégica para conectar universidades, infraestrutura, energia, tecnologia e atração de investimentos.

Enquanto isso, Belo Horizonte ainda dedica boa parte do seu debate público a temas imediatistas e de curto prazo. Fala-se pouco sobre inteligência urbana, cidades resilientes, economia verde, infraestrutura tecnológica, eletromobilidade, data centers, integração logística ou transformação digital.

A pergunta que precisa ser feita é simples: que cidade Belo Horizonte quer ser nos próximos 30 anos?

O mundo vive uma profunda transformação econômica e urbana. A transição energética está redefinindo investimentos globais. A inteligência artificial mudará a dinâmica das cidades. A disputa por talentos será cada vez mais baseada em qualidade de vida. E cidades que não compreenderem essa mudança perderão relevância econômica.

Belo Horizonte possui todas as condições para ocupar posição de destaque nesse novo cenário. Tem capacidade intelectual, setor empresarial forte, ambiente universitário consolidado e uma localização privilegiada no Brasil. Mas precisa elevar o nível da discussão pública.

Precisamos discutir transporte como qualidade de vida. Sustentabilidade como vetor econômico. Tecnologia como infraestrutura urbana. E inovação como política permanente de desenvolvimento.

Cidades não ficam para trás apenas por falta de recursos. Ficam para trás porque insistem em discutir o passado enquanto o mundo planeja o futuro.

Belo Horizonte não precisa copiar Singapura, Copenhague ou Austin. Mas precisa compreender, com urgência, que cidades globais são construídas por visão, planejamento e coragem de pensar adiante.

E talvez esse seja exatamente o debate que ainda falta à capital mineira.

Lincoln Farias é sócio-presidente da Hyannis Consulting Group, com mais de 17 anos de experiência em finanças corporativas, governança, compliance e gestão de riscos. É CFO certificado pelo Insper, conselheiro de administração certificado pela FDC, mestre em Estudos Anticorrupção pela IACA e especialista em PPP e Compliance Corporativo, com formações pela Fordham University e FIPE.

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