De verdade, estou de saco cheio dessa tentação acadêmica de transformar qualquer prazer humano em tese de pedagogia. Há muito tempo que comer deixou de ser apenas um ato de sobrevivência ou prazer gustativo e se transformou em manifesto político; viajar de férias virou reposicionamento ético e amar alguém, ou algo, se transmutou em uma forma de resistir à dominação patriarcal.
Claro. Como era de se esperar. O futebol também entrou na lista dos colonizadores do gozo alheio. Agora, para apreciar um futebol precisamos apresentar a bibliografia do curso de inverno com ênfase em esportes decoloniais.
A Copa do Mundo fez surgir um tipo que enche a paciência de qualquer torcedor: o fiscal geopolítico da arquibancada. Ostentando o moralismo típico dos ressentidos, esse pessoal que milita sem saber o preço da passagem do coletivo, vocifera: torça pelos colonizados, pelos subalternizados, pelos historicamente explorados! Após a escolha, se possível, preencha um formulário justificando cada comemoração.
É como se o apreciador da peleja, que só quer abrir uma latinha de cerveja diante de um pouco de alegria, tivesse que, antes de torcer, assinar algum tratado internacional.
Precisamos falar o óbvio para a Patrulha Ideológica do Escanteio: torcer para o Marrocos não é apoiar um programa anticolonial. Assim como gostar da Inglaterra não é restaurar o Império Britânico. Às vezes o sujeito só gosta da cor da camisa, do centroavante ou porque achou a bandeira bonita. É preciso acordar os acadêmicos da Comissão Geopolítica da Pureza. Isso não é alienação: isso se chama vida.
Há uma arrogância nesses sovietes do prazer, nessa necessidade de pedagogizar o futebol. A ideia de que o jogo, sozinho, não basta. Que noventa minutos correndo atrás da bola precisam ser sequestrados por uma grande aula sobre estruturas históricas. Mas o futebol é lindo justamente porque sustenta algo de indecente: ele escapa da utilidade.
O torcedor é um ser irracional por excelência. Ele abraça superstição, cria ódio hereditário por clubes que nunca lhe fizeram nada, acredita em camisa pesada, fala “hoje tem que respeitar a tradição” como se fosse uma citação de Aristóteles.
No limite, esse futebol moralizado produz uma cena muito estranha: o sujeito sentado no sofá, de braços cruzados, incapaz de comemorar um gol porque ainda não terminou de mapear as relações centro-periferia entre os dois laterais. Afinal, é preciso ficar atento aos amigos da Inquisição Recreativa.
Poucas coisas são tão libertadoras do que torcer sem justificativa nenhuma. Mas talvez a Guarda Republicana do Contexto Social tenha medo justamente disso: do prazer em liberdade.