COP30: o espetáculo verde e o desafio da coerência ambiental

"Quando a política se converte em encenação, o risco é que a aparência de avanço suplante o avanço em si" Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Nesta sexta-feira a COP30 chega ao fim em Belém do Pará após duas semanas de debates, negociações e anúncios que projetaram o Brasil para o centro da agenda climática global. O país, que já reúne credenciais únicas — um dos maiores produtores de alimentos do mundo e, ao mesmo tempo, um dos maiores preservadores de vegetação nativa — buscou reafirmar sua posição de liderança no cenário ambiental internacional.

Mas, passado o turbilhão diplomático e midiático, permanece evidente uma contradição estrutural: a distância entre a retórica ambiental e a efetividade das ações práticas. A conferência foi marcada por cifras bilionárias, contratações diretas e uma engrenagem administrativa acelerada. O governo federal firmou, sem licitação, um contrato de R$ 478,3 milhões com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a logística do evento — parte de um conjunto que se aproxima de R$ 600 milhões. Somados aos investimentos em obras e estruturas urbanas, os gastos totais ultrapassaram R$ 4 bilhões.

Mais do que o montante, o que inquieta é a lógica que permeou esse processo: a espetacularização da agenda ambiental. Em vez de ser tratada como política pública de Estado — contínua, técnica e de longo prazo —, a pauta se transforma, com frequência crescente, em vitrine política. A COP, que deveria simbolizar responsabilidade compartilhada, tem assumido contornos de ritual performático no qual discursos emocionados e compromissos grandiosos nem sempre encontram correspondência na prática.

O filósofo francês Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, afirmou que “o espetáculo é o sonho mau da sociedade moderna aprisionada, que expressa apenas o seu desejo de dormir”. A frase permanece pertinente: quando a política se converte em encenação, o risco é que a aparência de avanço suplante o avanço em si.

Essa distorção fica ainda mais evidente quando a pauta ambiental é instrumentalizada como ferramenta de disputa partidária. Há apenas quatro anos, queimadas na Amazônia foram atribuídas, de forma personalista, a um ex-presidente, reduzindo um fenômeno complexo a um cálculo político. Hoje, muitos dos atores que exigiam responsabilização direta evitam associar desastres ambientais recentes à gestão atual. A oscilação revela que a coerência institucional ainda não foi incorporada à política ambiental brasileira.

E discutir o clima exige justamente o oposto: maturidade, continuidade e compromisso técnico. O Brasil tem legitimidade para liderar esse debate e poderia, com ainda mais potência, ser o país que resgata a seriedade da agenda climática global — desde que os esforços não se restrinjam ao território simbólico.

Agora que as luzes da COP se apagam, o que fica em Belém revelará o verdadeiro legado do evento. Se o país reafirmar seu papel como referência mundial em sustentabilidade, com políticas consistentes, integração regional e fortalecimento das comunidades amazônicas, a conferência terá marcado um ponto de virada. Se, ao contrário, restar apenas o brilho passageiro do espetáculo verde, teremos assistido a mais um capítulo da longa peça da ilusão climática.

A escolha entre aparência e substância, entre marketing ambiental e responsabilidade intergeracional, começa agora — no dia seguinte ao discurso final.

Alê Portela é advogada, professora, mestre em Direito, deputada estadual e Secretária de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais.

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