O impacto da desaceleração chinesa na economia brasileira

Xi Jinping e Lula
Desaceleração da China não é um fato isolado, mas o resultado de fatores estruturais e conjunturais combinados. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A China ocupa, há anos, a posição de segunda maior economia do mundo e, para o Brasil, vai além de um simples parceiro comercial: é o destino de quase um terço das nossas exportações. Além disso, o país asiático tem papel de destaque no comércio internacional e influencia diretamente setores estratégicos para a economia brasileira, como o agronegócio, a mineração e o setor de óleo e gás.

Nos últimos anos, porém, o ritmo de crescimento chinês vem perdendo força. Em 2024, a economia do país avançou cerca de 5%, cumprindo a meta do governo, mas ficando abaixo das expectativas do mercado. Embora a diferença pareça pequena, os reflexos são significativos — especialmente para economias como a nossa, que têm forte ligação com a demanda chinesa por commodities. Esse desempenho revela desafios importantes, como mudanças estruturais, tensões geopolíticas e questões internas, a exemplo da crise no setor imobiliário e das alterações no perfil demográfico.

Para o Brasil, isso reforça a importância de acompanhar de perto essas transformações e revisar estratégias diante de um cenário global em constante movimento. A desaceleração da China não é um fato isolado, mas o resultado de fatores estruturais e conjunturais combinados. De um lado, a crise imobiliária afetou grandes empresas e abalou a confiança de investidores. De outro, o país tenta fazer uma transição para um modelo mais focado no consumo interno e nos serviços — um processo que avança de forma mais lenta que o esperado. Além disso, o rápido envelhecimento da população pressiona a produtividade e limita o crescimento do mercado consumidor.

No cenário externo, as tensões comerciais e tecnológicas com os Estados Unidos se intensificaram, transformando-se na principal disputa geopolítica da atualidade. As restrições americanas ao acesso chinês a tecnologias estratégicas — como semicondutores e inteligência artificial —, além de tarifas e barreiras comerciais, impactam não apenas o comércio bilateral, mas também as cadeias produtivas globais.

Para o Brasil, esse ambiente traz riscos, mas também oportunidades. Por um lado, a menor fluidez comercial entre as duas maiores potências amplia a volatilidade dos mercados e torna mais difícil prever o comportamento de preços e a demanda por commodities. Por outro, abre espaço para que países emergentes, como o Brasil, se posicionem como fornecedores estratégicos de alimentos, energia e minerais para a China, além de buscarem maior inserção no mercado norte-americano.

Isso exige, no entanto, uma política externa flexível e pragmática, capaz de equilibrar interesses e evitar alinhamentos automáticos que possam comprometer relações estratégicas no longo prazo.

Outro fator de incerteza é a situação em torno de Taiwan, que, em caso de agravamento, poderia provocar sanções, restrições comerciais e interrupções em cadeias produtivas essenciais.

Para o Brasil, a desaceleração chinesa e a intensificação das tensões internacionais produzem efeitos imediatos sobre o comércio exterior e, principalmente, sobre o agronegócio. A China continua como o principal destino das exportações brasileiras, respondendo por aproximadamente 30% das vendas externas. Quando há retração na demanda chinesa ou obstáculos políticos e comerciais, setores como soja, minério de ferro e petróleo — que lideram nossa pauta exportadora — são os primeiros a sentir o impacto.

Os preços das commodities costumam reagir rapidamente às expectativas econômicas da China e às incertezas geopolíticas. Qualquer sinal de desaceleração ou agravamento das tensões provoca oscilações nas cotações internacionais, afetando desde a rentabilidade dos produtores até a arrecadação de estados e municípios dependentes dessas exportações. Em 2024, por exemplo, o preço do minério de ferro enfrentou sucessivas quedas, refletindo a fragilidade do setor imobiliário chinês e a consequente redução na demanda por aço e insumos básicos.

Esse cenário também interfere na balança comercial brasileira. Com a demanda chinesa mais fraca, as exportações tendem a recuar, reduzindo o superávit comercial — a diferença entre o que vendemos e o que compramos do exterior. Isso pode restringir a oferta de dólares no mercado interno, pressionando a taxa de câmbio e encarecendo produtos importados, o que acaba colaborando para o aumento da inflação, especialmente em um ambiente de juros elevados.

Além disso, a desaceleração afeta os investimentos internacionais. Projetos de infraestrutura e de setores voltados à exportação tendem a adotar mais cautela e, em alguns casos, a adiar aportes diante de um cenário externo mais incerto. Isso atinge não só grandes empresas, mas também a cadeia produtiva e o mercado de trabalho.

Outro efeito importante está no apetite global por risco. Em momentos de tensão envolvendo China e Estados Unidos, investidores migram para ativos mais seguros, reduzindo o fluxo de capital para mercados emergentes como o Brasil. Essa retração encarece o custo de crédito para empresas e governos e aumenta a volatilidade cambial.

Apesar da perda de fôlego, a China deve manter seu papel de protagonista no comércio internacional e continuar sendo um parceiro estratégico para o Brasil. As projeções indicam que, nos próximos anos, o crescimento chinês será mais modesto em relação à última década, mas ainda acima da média mundial.

O desafio para o Brasil será se adaptar a esse novo cenário, de menor expansão acelerada e maior estabilidade. Isso significa que o ciclo de alta demanda por commodities pode não se repetir na mesma intensidade. Setores como o agronegócio e a mineração precisarão diversificar mercados e buscar novas oportunidades de exportação. Além disso, é essencial fortalecer a pauta exportadora com produtos de maior valor agregado e ampliar a rede de acordos comerciais, diminuindo a dependência de um único destino.

No campo dos investimentos, a tendência é de maior seletividade. Projetos alinhados com temas globais — como sustentabilidade, transição energética e inovação — devem ganhar espaço, acompanhando as mudanças na economia chinesa e nas demandas internacionais.

Nesse contexto, Brasil e China deram um passo importante para ampliar a cooperação bilateral e reduzir a dependência do dólar nas transações comerciais. Em março de 2023, os dois países anunciaram a criação de uma câmara de compensação no Brasil, permitindo negócios e empréstimos diretamente em reais e yuans. O Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) foi escolhido para operar a estrutura, que já vem sendo utilizada por empresas brasileiras, como Vale e Suzano.

A iniciativa busca reduzir custos, dar mais previsibilidade cambial e fortalecer as relações comerciais entre os dois países. Mais do que isso, reforça a importância de o Brasil diversificar mercados, agregar valor às exportações e reposicionar setores estratégicos para mitigar riscos e aproveitar as oportunidades que surgem em meio às mudanças da economia global.

Economista e consultora de negócios e tecnologia, com experiência em projetos de fusão e aquisição de empresas, orçamento, varejo e educação. Acredita no potencial da combinação entre análise, gestão e tecnologia para construir soluções estratégicas e gerar impacto real nos negócios.

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