A parte e o todo. Ou: “é nóis” quem, deputado Bim?

Enquanto não formos capazes de eleger parlamentares e chefes de executivo minimamente preparados, dificilmente sairemos do atraso
Deputado Bim da Ambulância quer legalizar o Grau, infração de trânsito segundo a lei brasileira
Deputado Bim da Ambulância em entrevista à Rede 98 / Imagem: Reprodução

Dias atrás, durante o 98 Talks, da Rede 98, onde sou comentarista, eu e meu muito mais do que colega de bancada – um verdadeiro amigo e mestre -, Paulo Leite, quase rolamos no chão por causa de uma discussão sobre democracia. Eu e Paulo temos uma mania estranha a estes tempos obscuros: brigamos sem nos ofender e aceitamos o contraditório, pois acreditamos que o (bom) debate ensina e engrandece.

Paulo qualifica a nossa democracia como apenas “democracia eleitoral”. Eu discordo no sentido de que, para mim, democracia – imperfeita ou não; falha ou não; frágil ou não – é democracia. Ponto. E neste aspecto, nesta quarta-feira (27), durante o Central 98 1a Edição onde também sou comentarista, vivi na pele minha crença sobre imperfeições e falhas do sistema democrático brasileiro.

INFRAÇÃO OFICIAL

O ex-vereador e atualmente deputado estadual, Bim da Ambulância, nos deu uma entrevista ao vivo onde foi explicar – ou refutar, na opinião dele – as críticas que fizemos no dia anterior, a respeito de um projeto de lei de sua autoria, sancionado pelo prefeito Fuad Noman após aprovação na Câmara, que instituiu Belo Horizonte como a “capital nacional do grau”. Prática ilegal de empinar motocicleta, segundo nosso Código de Trânsito.

Juízo de valor à parte, o deputado, em dado momento, a fim de legitimar seu projeto e defender a prática – segundo ele, esportiva -, disse o seguinte: “É um movimento (periférico) que tem de ser reconhecido:  BH é nóis”. Para meu espanto, após minha indagação sobre a afirmativa, o deputado ratificou: “Sim, BH é nóis”. Eis aí, meus caros e minhas caras, a apropriação indevida de uma cidade inteira em prol de um grupo.

CARTA BRANCA?

A democracia que elegeu o deputado não é individual ou muito menos de um grupo, ou grupos. Democracia é um direito e propriedade da nação. De um povo inteiro. De toda a sociedade, e não de parcelas ou estratos desta. Uma cidade, no caso Belo Horizonte, “não é nóis”; é de todos. Meses atrás, uma vereadora, Flávia Borja, resolveu falar em nome da cidade e disse que “pessoas trans não são bem-vindas a BH”. Como assim?

Desde quando políticos falam em nome de toda a população ou da cidade? Ou mesmo do País? No máximo, representam seus eleitores e, mesmo assim, com todas as ressalvas possíveis. Duvido que um eleitor legitime, por exemplo, a rachadinha. Pesquisa recente da Quaest mostrou que 72% dos brasileiros são contra o aborto, mas 84% são igualmente contra criminalizar o ato. Compreendem? Não? Explico melhor.

VOTO NÃO É TUDO

Ao votar em um político que é contra o aborto, no caso em tela, não significa, para o eleitor, lhe dar o direito de criminalizar uma mulher que o faz. Garanto que nem todos os eleitores do Bim da Ambulância aprovam o “grau”. Por isso, nada mais falso – e ofensivo aos princípios democráticos – do que determinar que “BH é nóis” e legislar exclusivamente para um diminuto grupo de praticantes de uma infração de trânsito.

Talvez resida, aí, um dos grandes males do País – e da própria democracia: o corporativismo exacerbado (e cego!) de boa parte dos políticos eleitos. A maioria se aglutina em bancadas: dos evangélicos, da bala, do boi, do agro etc. Muitos se elegem defendendo causas como proteção dos animais, direito das mulheres e outras bandeiras restritas. Muitos, inclusive, não fazem a menor ideia dos grandes debates nacionais.

BAIXARIA E IGNORÂNCIA

Semana passada, tivemos um exemplo: enquanto se promulgava a Reforma Tributária, que está longe de ser a ideal, mas que traz benefícios à sociedade, alguns deputados saíam no tapa no Congresso. Um outro, ainda – um bobão que só tem a discórdia e a lacração como bandeiras eleitorais -, gritava “ladrão” para o presidente Lula (não que eu discorde, aliás). Pergunto: algum desses caras têm capacidade para debater reforma tributária?  

Bim da Ambulância possui aptidão necessária para votar com clareza e consciência o Regime de Recuperação Fiscal (RRF) em trâmite na assembleia mineira? Intuo que não. São legítimos representantes, não do povo mineiro ou brasileiro, mas de estratos da sociedade que confiaram o voto a pautas ideológicas; jamais na capacidade do político de compreender e legislar sobre os grandes problemas e temas públicos.

QUALIFICAÇÃO OU ATRASO

Enquanto não formos capazes de eleger parlamentares e chefes de executivo minimamente preparados – política e tecnicamente -, dificilmente sairemos do atraso e deixaremos de caminhar, senão para trás, a passos de cágado manco. O diabo é que, para tanto, precisaríamos qualificar também o eleitor, e não falo aqui de educação (escolaridade), pois muita gente bem-formada não é necessariamente qualificada eleitoralmente.

Quem me acompanha sabe que gosto de citar trechos de músicas, e aqui vai: “se o país não for pra cada um. Pode estar certo. Não vai ser pra nenhum” (Esmola – Skank). O corporativismo é uma praga. O egoísmo é uma chaga. Uma sociedade pouco ou nada colaborativa, não se desenvolve. Alô, Bim da Ambulância: o Brasil não é parte (de ninguém), mas o todo (de todos). Ah, e “aqui é nóis” é o… Bem, deixa pra lá.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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