Em 2022, uma parte barulhenta do bolsonarismo vendeu ao eleitorado brasileiro uma profecia de fim do mundo: se Lula voltasse ao Planalto, o Brasil viraria a Venezuela em seis meses. Arautos idiotas da imprensa não faltaram. Não se tratava de uma crítica justa ao PT, que é necessária, legítima e, pela história, óbvia. Era um anúncio de colapso nacional que certamente não viria. Como não veio.
A profecia apocalíptica vinha embalada no pacote conhecido: fuga de empresas, quebra do agronegócio, desemprego em massa, inflação fora de controle, ruína do mercado imobiliário, censura generalizada e socialismo de botequim – porque do de verdade não se tem notícias há mais de um século. O Brasil, segundo a horda bolsonarista, não teria só mais um governo ruim. Teria um encontro com a Besta.
Passados mais de três anos da eleição, contudo, às vésperas de outra, o Armagedom faltou ao compromisso. O país continua cheio de problemas, é verdade. O governo Lula segue gastador, corrupto, fisiológico, intervencionista e moralmente cínico, mas a Venezuela prometida pelos profetas do WhatsApp simplesmente não apareceu. Ao contrário. Indicadores os mais diversos estão aí para ratificar.
A realidade desmente o palanque
O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025 e chegou a R$ 12,7 trilhões. Não é nenhum milagre econômico nem uma Brastemp – os mais jovens pesquisem para entender. Tampouco é um espetáculo de gestão, pois o lulopetismo mais atrapalha que ajuda. Muito menos se trata de alguma redenção da “alma mais honesta desse país”. É apenas um dado concreto contra a fantasia do colapso fantasioso.
A agropecuária cresceu mais de 11% em 2025. O setor mais bolsonarista de todos que, segundo o alarmismo eleitoral, seria perseguido, destruído, estatizado, satanizado e enviado para um campo de reeducação petista – administrado pelo MST – continuou produzindo, exportando e sustentando boa parte da economia nacional, ainda que uma taxa de inadimplência recorde tire o sono dos bancos credores.
O desemprego também não obedeceu ao roteiro do Drácula bolsonarista. A taxa média anual caiu para pouco mais de 5% em 2025 – o menor patamar desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. Há informalidade, gente que não procura emprego (e que não entra na estatística oficial), salário ruim e precarização? Há, sim. Mas igualmente não há uma terra arrasada, habitada por zumbis famintos.
O pânico como método
Na inflação, o quadro tampouco autoriza qualquer tipo de delírio coletivo. O IPCA fechou 2025 em 4,26%. Em maio de 2026, estava em 4,72% no acumulado de doze meses, acima da meta e motivo de preocupação, sim, é claro. Mas comparar isso à Venezuela é viajar a bordo da SpaceX do multitrilionário Elon Musk. E sim! Os juros são e se mantêm estratosféricos, para ficar no campo interplanetário.
Se a construção civil cresceu apenas 0,5% em 2025, pressionada pelos juros altos, não se pode dizer que a indústria não vive dias de exuberância. O dado forte está no mercado imobiliário, que registrou recordes de lançamentos e vendas: mais de 420 mil unidades no ano, o maior volume da série. O programa Minha Casa Minha Vida, então, nem se fala. Palavras de Rafael Menin, da MRV, a maior do segmento.
O turismo também desmonta a caricatura histérica bolsonarista. O Brasil recebeu mais de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, igualmente um recorde histórico e alta de 37,1% sobre 2024. De janeiro a outubro, esses visitantes deixaram US$ 6,617 bilhões no país. Além disso, a ocupação média dos voos e das viagens rodoviárias ostenta índices superiores a 80%. Nada mal para a Venezuela dos minions.
Com os pés no chão
Atenção. Nada disso absolve Lula e sua gestão – mais uma! – temerária. O governo continua aparelhando, gastando, loteando, mentindo e tentando transformar a incompetência real em virtude social de propaganda eleitoral. O PT não mudou de natureza e de método. Continua sendo o mesmo velho e péssimo PT. Minha crítica ao lulopetismo, portanto, segue mais de pé do que nunca. E atualizada.
Mas crítica embasada é uma coisa. Um bando de malucos cantando hino nacional para pneu é outra. O bolsonarismo alarmista não errou porque desconfiou de Lula III – que seria mesmo muito ruim -, mas porque transformou sua desconfiança em profecia histérica. Aliás, sei bem o que vivi e sofri, em 2022, por causa dos lunáticos que preferiam atacar a realidade a reconhecer a derrota nas urnas.
É isso. Afinal, o Brasil não virou Venezuela. Continua apenas a porcaria do Brasil de sempre. Quem quiser derrotar o lulopetismo em outubro e se dar bem a partir de 2027 terá de olhar para esse país – imperfeito, mas jamais a Venezuela -, e não para o espantalho assustador, vestido de vermelho com a estrela do PT na testa, que o mundinho bolsonarista inventou para assustar seus convertidos.