Quando, cerca de 15 anos atrás, os moradores originários do Vale dos Cristais alertavam que o Colégio Santo Agostinho não deveria ter recebido autorização para funcionar às margens da MG-030 sem a infraestrutura viária necessária, foram tratados como inimigos do progresso e da educação.
Dizia-se que a escola traria comodidade às famílias da região. Que reduziria o deslocamento de pais, estudantes e professores. Que valorizaria os imóveis e que traria mais segurança a todos, pois aproximaria educação e moradia. Em tese, tudo verdade. Mas faltou uma pergunta elementar:
Como milhares de alunos, pais, professores, funcionários e prestadores de serviço chegariam até lá? Aliás, não faltou a pergunta. Ela foi simplesmente ignorada pelos responsáveis. Os empreendedores venderam, à época, o “pacote pronto”. O Vale dos Cristais nascia predestinado ao caos.
Não foi por falta de aviso
Pouco tempo após a inauguração da unidade Nova Lima de uma das mais tradicionais instituições de ensino do país, os primeiros sinais de saturação começaram a aparecer (veja foto e reportagem abaixo), mesmo com a operação ainda parcial, poucas salas de aula e funcionamento restrito ao período da manhã.
Os primeiros atingidos foram os moradores do condomínio Vila Grimm, que passaram a enfrentar dificuldades para sair das próprias garagens nos horários de entrada dos alunos. O que inicialmente parecia um transtorno pontual transformou-se em rotina. Com o início das atividades em outros turnos, o problema cresceu.
Veio então a solução de emergência: o alargamento da via em frente ao colégio, a reorganização dos acessos e a criação de áreas específicas para embarque e desembarque de estudantes. Funcionou por algum tempo. Mas apenas por algum tempo, pois a matemática urbana costuma ser implacável.
A receita do caos
Enquanto o número de alunos aumentava, o Vale dos Cristais continuava recebendo novos moradores. Condomínios verticais foram entregues, obras unifamiliares avançaram e a circulação de veículos cresceu muito além da capacidade prevista. Hoje, entrar ou sair de casa nos horários de pico tornou-se uma verdadeira epopeia.
O mesmo vale para quem precisa deixar ou buscar os filhos na escola. O impacto atinge moradores, estudantes, trabalhadores domésticos, prestadores de serviço, profissionais da construção e visitantes. E a situação irá piorar bastante, pois novos empreendimentos já foram aprovados pelo poder público.
Mais moradores chegarão. Mais veículos circularão. Mais deslocamentos serão realizados. Que fique claro: o problema não é o Santo Agostinho. Tampouco os moradores. Ou mesmo os empreendedores. O problema está na incapacidade do poder público de compatibilizar crescimento urbano e infraestrutura.
Futuro ainda mais caótico
Autorizar um equipamento de grande porte sem garantir previamente as condições de acesso é exatamente a mesma lógica que produziu o colapso viário que hoje se espalha pelo Belvedere, Vila da Serra e Vale do Sereno. O Santo Agostinho tornou-se apenas mais um capítulo de uma história que a Grande BH insiste em repetir.
Primeiro aprovam-se os empreendimentos. Depois chegam os moradores, trabalhadores e visitantes. Em seguida aparece o caos no trânsito. Só então começam as discussões sobre as obras que deveriam ter vindo antes de tudo isso. Pior: discute-se muito e produz-se pouco ou quase nada em termos de solução.
Procuram-se os culpados enquanto a população afunda na imobilidade. Ou se inverte a lógica dos licenciamentos, ao mesmo tempo em que se investe em infraestrutura viária, ou o colapso definitivo chegará, mais cedo ou mais tarde, gostem ou não aqueles que continuam pensando como se não houvesse amanhã.
