As lições de Marcus e Francisco: sou um felizardo

Em lares em que carece a alegria e abunda o desespero, tende-se a compensar com objetos de alto valor
Carro de alto luxo ficou completamente destruído
Foto: Reprodução

Muitas pessoas têm o hábito de colecionar coisas, desde, sei lá, palitos de picolé a vinhos raros, passando por objetos valiosos, e eu não sou diferente. Só que, no meu caso, a coleção é de amigos. Isso mesmo: caros e fraternos amigos. Até brinco com meu analista que sou um carente incorrigível, pois, quanto mais afeto recebo, mais afeto necessito. Daí, talvez, o saudável hábito de não parar de conquistar e construir amizades.

Marcus faz parte da colheita deste ano. Ou melhor, vem da safra de 2022, mas, hoje, definitivamente no rol dos irmãos que a vida me deu. Foi meio que “amor à primeira vista”, e depois à segunda, terceira, quarta, quinta vistas, hehe. Um sujeito tão doce, amável, prestativo e solidário, que custo a acreditar que exista alma tão desprendida assim. Na boa, BFF (Best Friends Forever), como dizem os adolescentes, é pouco. Tamo junto, Marcão!

REFLEXÃO OPORTUNA

Para melhorar, o cara é inteligentíssimo. E pra lá de sensível. Nesta terça-feira passada, ao falarmos do terrível acidente que vitimou um rapaz em Belo Horizonte, quando um carro esportivo bateu em um poste, em altíssima velocidade (200 km/h), capotando em seguida, diante da minha costumeira grosseria impulsiva (“tem de meter o vagabundo numa jaula para sempre”), meu brother, calma e pausadamente, como de praxe, falou:

“Ricardo, esse rapaz, com vinte e poucos anos, já possuía carrões e motos caríssimas. Tem pouco mais de trinta anos e anda de Porsche, avaliado em quase um milhão de reais. Provavelmente, precisou de algum dinheiro do pai, empresário muito rico, para adquirir estes bens, ainda que ele mesmo trabalhe e seja bem-sucedido. Você não acha que o pai, em alguma medida, também é responsável, não pelo crime, claro, mas pelo acidente”?

PENSO, LOGO EXISTO

Passados dois dias, a pergunta inquietante não saiu da minha cabeça. Tenho uma filha prestes a completar dezoito anos e posso assegurar: não saberia – de verdade! – viver sem ela. Como pai zeloso e responsável, posso também assegurar: jamais, em tempo algum, ajudaria, da forma que seja, minha filha, com vinte ou trinta anos, não importa, a comprar um bem tão valioso, ainda mais um carro tão potente como o acidentado. 

O fato é que, sim, após refletir muito, acho que o pai deste rapaz, caso tenha ajudado a comprar o veículo, tem culpa pelo ocorrido. E mais: ainda que não tenha contribuído financeiramente, falhou miseravelmente na sua criação (o moço foi preso por dirigir inabilitado – e até hoje ele é – e por ameaçar de agressão uma ex-namorada). Não saberia dizer se faltou afeto, atenção, valores ou, quem sabe?, boas palmadas. Mas algo faltou.

SÃO FRANCISCO

Não sou religioso – meu querido amigo é -, mas considero os ensinamentos cristãos (e de todas as religiões) extremamente valiosos na formação do caráter de um indivíduo, principalmente durante a infância e a adolescência. “Quem não é religioso, então, não é bem-criado, Ricardo”? Que bobagem! Claro que é, ou melhor, pode ser. Por isso eu disse “extremamente valiosos” e não imprescindíveis. E não há como negar.

Sou judeu, mas estudei em escolas cristãs. No Colégio Santo Antônio, de Belo Horizonte, “conheci” São Francisco de Assis, o mestre e santo da humildade: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver desespero, que eu leve esperança. Onde houver tristeza, que eu leve alegria”. Em lares em que carece a alegria e abunda o desespero, tende-se a compensar com objetos de alto valor, que não apenas não resolvem, como, no caso acima, podem matar.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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