Na mesa de boteco, lugar propício para discutir as essências da vida, conversávamos sobre futebol, consultas ao cardiologista e cirurgias. Marcas que carimbam o passaporte diário de quem suporta a existência a partir do fundamento metafísico de um bom torresmo. Pois havemos de concordar: a prova mais inequívoca da existência de Deus é materializada no porco com seus deliciosos atributos. Acompanhado de uma cerveja gelada, iniciamos mais uma reunião da Academia de Copos e Letras.
Sustento a tese de que o problema não é morrer, mas morrer lentamente. Há quem diga que tristeza é isso: a morte lenta das coisas simples. Definição precisa e fatal, tal qual Marques e Guilherme na década de 90. Não garante troféu no final, mas sela o espetáculo da vida como forma de construir uma pegada significativa nesse planeta que roda em torno do nada, sem centro objetivo, onde cada boteco assume a centralidade provisória das grandes questões vitais.
Por isso que nunca levei muito a sério as consultas com o cardiologista. Não por uma resistência inconsequente, muito menos por desprezo à medicina. Sei que é importante cuidar da vida. Porém, nunca desejei transformar a própria existência em uma vigília permanente contra a morte. Longe de mim ser uma espécie de síndico do próprio fim. Além disso, morrer do coração sempre vai ser a metáfora mais perfeita de quem viveu de amor.
Viver e morrer
A morte, quando vista de perto, não passa de uma lenta erosão do desejo. O coração para uma única vez, mas quantas vezes ele deixa de pulsar antes disso? Quantas pessoas permanecem biologicamente intactas enquanto algo essencial já morreu faz tempo? Por essas e outras que Pepe Mujica continua sendo meu filósofo preferido: “A vida não é só trabalhar. Tem que deixar um bom capítulo para as loucuras que cada um tem. Você é livre quando gasta o tempo da sua vida com as coisas que te motivam, que você gosta. Para uma pessoa pode ser o futebol, para outro investigar uma molécula ou a arte. Somos diferentes. E ter uma causa, uma paixão, leva tempo”.
Na tentativa de evitar a morte, acabamos por conceder-lhe um poder excessivo. Ela deixa de ser um acontecimento futuro e passa a ocupar o presente, remarcando consulta, analisando o exame e sofrendo com o resultado. Nesse embalo, a vida se transforma em um telão de coaching de investimentos, marcada pela sucessão de monitoramentos. O homem moderno, com sua revolução tecnológica, não se pergunta verdadeiramente pela morte. Ele tenta negociar com ela, oferecendo restrições em troca de alguns meses adicionais cuja utilidade nem ele mesmo é capaz de imaginar.
Os gregos antigos falavam da boa morte porque miravam na boa vida. Não havia sentido em discutir o fim sem refletir sobre a melhor forma de aproveitar a aventura até lá. Filosofar é uma das maneiras que evitam a chegada repentina da morte. Esquecer disso é adiantar a finitude, que, paradoxalmente, vai se instalando aos poucos, tipo fungo ou infiltração silenciosa que corrói a casa a partir da estrutura. Todo burocrata de smartwatch, controlando passos e batimentos cardíacos, já morreu faz tempo. Falta apenas o corpo ceder, oficializando um processo iniciado muito antes.
Passa a régua
Por isso continuo acreditando que o problema não é morrer, mas permitir que a morte já habite, transvestida de medo, matando lentamente a capacidade de desejar. Para aqueles que fogem dessa verdade, repito os versos de Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, escolha como quiser”.
O único excesso a ser evitado é a cautela absoluta.
Meu único desejo, nessa embriaguez ontológica chamada de existência é que a morte seja rápida, mas não chegue apressada. E que a vida seja longa, na fração de cada segundo, permitindo-nos virar mais um copo que sempre nos coloca entre o Ser e a Saideira.