Nikolas, Zema e a disparada do patrimônio

Prefiro político enriquecendo às custas da idolatria bocó que roubando dinheiro público
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Eu não deveria sair em defesa do deputado federal Nikolas Ferreira (PL). Primeiro, porque ele está “cagando” para mim, o que faz muito bem, aliás – eu também estaria. Segundo, porque não tenho procuração para isso. Por último, mas não menos importante, ele e sua turma jamais fariam o mesmo em meu socorro. Mas não escrevo para agradar nem Nikolas nem ninguém. Escrevo apenas para ficar em paz com meu espelho e meu travesseiro.

Na boa, é uma baita sacanagem essa história de apontar o crescimento patrimonial (10.000% em quatro anos) do “novo bezerro de ouro” da política brasileira como algo, ainda que veladamente, espúrio. O rapaz tornou-se a maior liderança política mineira, quiçá nacional, do chamado campo conservador, que eu, particularmente, chamo de reacionário. Enriquecer é mera consequência em tempos de influencers e outros bichos digitais.

O bolsonarista-raiz é a maior – e até o momento, única – promessa política brasileira, goste-se ou não. E eu não gosto. Nada mais normal, portanto, que aproveite o estrelato para faturar com cursos online, palestras, publicações e quaisquer outras formas de venda de si mesmo e de sua imagem. Se tem quem consuma suas simplificações e desinformações, bom para ele. Se declara os rendimentos e paga os tributos, tudo certo.

Paraíso do rentismo

A mesma idiotice sobre aumento patrimonial pesa sobre o ex-governador Romeu Zema (Novo). Seu patrimônio aumentou cerca de R$ 50 milhões também em quatro anos. Como? Ora, qualquer brasileiro que tenha dinheiro aplicado sabe explicar. Basta deixá-lo rendendo 15% ao ano. No caso do Chico Bento, a mais de uma centena de milhões de reais que possui acelera a prosperidade. E se inveja matasse, vocês não estariam me lendo agora.

Dinheiro rende dinheiro. No Brasil e no mundo. Simples assim. Quanto maior o patrimônio inicial, mais impressionantes ficam os números absolutos depois de alguns anos. Não é preciso ser um gênio das finanças, muito menos governador, deputado ou vendedor de cursos pela internet, para descobrir a mágica dos juros compostos em um país que premia abundantemente quem tem coragem de emprestar dinheiro ao erário perdulário.

É claro que patrimônio de político pode e deve ser fiscalizado, confrontado com a renda declarada e investigado sempre que houver sinais de incompatibilidade. O que não faz sentido, contudo, é transformar o fato de alguém ter enriquecido em prova, indício ou insinuação de que roubou. Se a conta fecha, a origem da grana é conhecida e o imposto foi pago, acabou a história. Lacrar sobre tal fato é pura desonestidade intelectual.

Pecado capital

Aliás, essa triste mania brasileira de tratar enriquecimento como se fosse pecado produz boa parte do nosso atraso social e econômico. Nikolas tem defeitos suficientes para ser criticado sem que seja necessário inventar outros. Eu mesmo os aponto – com relativa frequência – sem fazer muito esforço. Mas transformar sua capacidade de ganhar dinheiro em escândalo pré-eleitoral é trocar críticas justas por militância partidária.

Prefiro político enriquecendo às custas de idolatria bocó que roubando dinheiro público. O ex-presidente Jair Bolsonaro abocanhou R$ 17 milhões de reais em uma “vaquinha” digital. Se tem bobo disposto a doar dinheiro para o “mito”, que doe. Problema é o filho 01, que “rachava” os salários dos funcionários em seu gabinete na Alerj, segundo confessou o operador do clã, o carequinha Fabrício Queiroz – o mesmo dos “micheques”.

Um outro filho presidencial, o Lulinha, apelidado pelo próprio pai de “Ronaldinho dos Negócios”, enriqueceu com o dinheiro de uma empresa privada aportado em seu negócio de games. Tudo certo? Uma ova! Tal empresa foi beneficiada por uma lei proposta pela “alma mais honesta desse país”. Isso, sim, tem de ser denunciado – como foi – e combatido. Misturar as coisas só prejudica a livre iniciativa enquanto favorece a livre corrupção. 

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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