O medo do sonho não vivido

Fato é que nem sempre seremos capazes de realizar tudo o que imaginamos
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Há muitos medos que nos acompanham pela vida. O medo de altura, de viajar de avião, de barata voadora, de mudar, de falar em público, de fracassar. Mas existe um medo mais silencioso, que raramente confessamos e que nos acompanha ao longo da vida: o medo de não vivermos os nossos sonhos.

Porque os sonhos têm uma característica curiosa, já que eles não desaparecem simplesmente porque decidimos ignorá-los. Eles se acomodam em algum canto da alma e permanecem ali, esperando uma oportunidade para nos lembrar de que eles existem e de que ainda não foram realizados.

Muitas vezes optamos por caminhos mais seguros. Escolhemos o previsível, o aceitável, o que faz sentido para os outros. Cumprimos responsabilidades, honramos compromissos e seguimos adiante. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando, no meio dessa caminhada, deixamos para trás partes importantes de nós mesmos.

E os sonhos vão envelhecendo conosco. É o livro que nunca escrevemos, a viagem que sempre ficou para o ano seguinte, a profissão que não foi exercida, o talento que foi escondido pelo receio do julgamento e a coragem que prometemos que teríamos quando chegasse a hora certa.

Mas a hora certa é um tanto quanto misteriosa. Ela quase nunca anuncia a sua chegada e, na maioria das vezes, ela se disfarça de hoje. E é justamente isso que mais assusta. Porque, como diz a música, “sonhar não custa nada”, o difícil é pagar o preço da realização. Geralmente, pesquisamos, planejamos e replanejamos. E o planejamento acaba virando o próprio objetivo. Com isso, passamos tanto tempo preparando o salto que acabamos nos aposentando na beirada da piscina.

Viver os próprios sonhos exige mais do que desejar. Exige movimento, pró atividade, exige aceitar que o caminho pode ser imperfeito, que os resultados podem ser diferentes do imaginado e que nem toda tentativa será bem-sucedida, já que a vida não nos oferece garantias.

É mais fácil dizer: “eu não dou conta”. Só que, na verdade, não damos conta mesmo. Nós pagamos a conta. Parece apenas um trocadilho, mas não é. Para realizarmos os nossos sonhos é preciso estarmos dispostos a pagar o preço. Está caro demais? Quem sabe não seria o caso de nos prepararmos mais para darmos conta de pagar?

E quando não se paga o preço surge a maior dor atrelada aos sonhos: a do arrependimento. Fracassos contam histórias e arrependimentos contam ausências. Quem tentou pode olhar para trás e dizer: “eu fui.” Quem não tentou convive para sempre com a pergunta: “e se eu tivesse ido?”

Talvez seja por isso que algumas inquietações persistam. Elas não são sinais de insatisfação com a vida. São convites para nos aproximarmos daquilo que nos faz sentir vivos. A pergunta é simples e desconfortável: quando você olhar para trás, você terá sido a pessoa que caiu tentando voar ou a que passou a vida inteira admirando o céu pela janela?

Fato é que nem sempre seremos capazes de realizar tudo o que imaginamos. A vida tem seus próprios planos, seus desvios e seus mistérios. Mas há uma enorme diferença entre não alcançar os sonhos e nunca ter tido a coragem de persegui-los, porque permitimos que o medo decidisse por nós.

O que devemos ter em mente é que nossos verdadeiros sonhos, aqueles que pulsam dentro de nós, que fazem nossos olhos brilharem e o coração disparar, não existem por acaso e nem para garantir a nossa felicidade. Eles existem porque querem nos transformar. Querem transformar nosso potencial em potência e nos conduzir ao encontro da nossa própria essência.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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