Dom Walmor: o homem que constrói

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Há gestos inaugurais que parecem anunciar uma trajetória inteira. Quando chegou a Belo Horizonte, a primeira visita de Dom Walmor Oliveira de Azevedo foi ao seminário. Diante dos seminaristas, disse que poderiam chamá-lo simplesmente de Dom. E explicou: todas as pessoas têm um dom.

A frase continha uma visão inteira de Igreja e de humanidade. O tratamento deixava de ser apenas um título episcopal para recordar que cada pessoa recebeu de Deus uma vocação, uma capacidade e uma responsabilidade. Antes dos cargos e das instituições, está o ser humano. Antes da gestão, a formação. Antes do título, o dom.

A segunda chave para compreendê-lo encontra-se no lema escolhido quando foi ordenado bispo: Ut mederer contritis corde — “Enviou-me para curar os corações feridos”.

Não é apenas uma inscrição em seu brasão. É uma síntese de seu ministério. Curar os corações não significa oferecer respostas fáceis ao sofrimento. Significa aproximar-se, escutar, formar, reconciliar e devolver horizonte a quem já não consegue enxergá-lo. Em Dom Walmor, a fé nunca permanece abstrata. Torna-se presença, cuidado e serviço.

Nascido em Cocos, no oeste da Bahia, em 26 de abril de 1954, cresceu numa família simples, marcada pelo trabalho, pela convivência e pela religiosidade. Ainda jovem ingressou no seminário, primeiro em Caetité e depois em Juiz de Fora, onde Minas Gerais passou a integrar sua formação. Foi ordenado sacerdote em 1977 e seguiu para Roma, concluindo o mestrado em Ciências Bíblicas no Pontifício Instituto Bíblico e o doutorado em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana.

A formação bíblica não é apenas uma etapa de seu currículo. É a estrutura de seu pensamento. Dom é essencialmente um homem da Palavra. Lê as Escrituras para compreender o presente e interroga o presente à luz delas. O Evangelho não lhe serve como fuga da realidade, mas como critério para atravessá-la.

Antes de se tornar bispo, foi professor, formador de seminaristas, reitor e pároco. Nunca deixou de ser educador. Em seus escritos, há uma convicção permanente: a fé deve dialogar com o tempo em que vive, formar consciências e ajudar homens e mulheres a compreenderem sua responsabilidade no mundo.

Jesus Cristo ocupa o centro desse pensamento.

Não aparece como conclusão de um discurso, mas como seu fundamento. Ao escrever sobre a esperança, Dom Walmor insiste que ela não é simples otimismo. Tem rosto e nome: Jesus Cristo. É desse encontro que nascem a fraternidade, a coragem de servir e o compromisso com quem mais sofre.

A centralidade da pessoa não concorre com a centralidade de Cristo. É consequência dela. Porque Cristo ocupa o centro, cada vida se torna digna de cuidado.

Em 1998, Dom Walmor foi nomeado bispo auxiliar de Salvador. O retorno à Bahia ocorreu numa Igreja atravessada por quase cinco séculos de história, pela força das matrizes africanas, pela riqueza do patrimônio religioso e pelas desigualdades de uma grande cidade. Salvador aprofundou sua compreensão de que a fé não existe fora da cultura. Ela ganha corpo na música, na arquitetura, nas festas, na ancestralidade, na dor e na resistência de um povo.

Em 2004, assumiu a Arquidiocese de Belo Horizonte. Recebeu de Dom Serafim Fernandes de Araújo uma estrutura sólida, com presença pastoral, educacional, cultural e social profundamente enraizada. Seu caminho não foi o da ruptura, mas o da continuidade criadora: preservar sem imobilizar, fortalecer sem apagar e projetar o futuro sem desprezar a memória.

Foi nesse período que passei a acompanhar mais de perto sua atuação, inicialmente por meio do Inventário do Patrimônio Cultural da Arquidiocese. Desde então, uma percepção nunca me abandonou: Dom jamais fala do patrimônio como se falasse apenas de edifícios ou objetos antigos. Antes da pedra, está a pessoa. Antes da obra de arte, a comunidade que lhe deu sentido. Antes da instituição, as vidas que ela deve servir.

A memória, em sua visão, não é nostalgia. É consciência. Uma comunidade que conhece sua história compreende melhor quem é e escolhe com mais responsabilidade aquilo que deseja transmitir às gerações seguintes.

Isso explica o lugar da cultura em seu pensamento. Para Dom Walmor, ela não é ornamento, mas o ambiente onde se formam valores, comportamentos e maneiras de conviver. A arte educa a sensibilidade. O patrimônio fortalece pertencimentos. A beleza pode abrir caminhos para o transcendente.

A educação pertence ao mesmo horizonte. Da Rede Santa Maria à PUC Minas, passando pelos seminários e pelos processos formativos da Arquidiocese, ensinar significa formar pessoas capazes de discernir, conviver e servir. Não basta transmitir conhecimentos. É preciso formar consciência.

Sua trajetória deve ser compreendida também pela capacidade de gestão. Dom Walmor recebeu uma grande tradição institucional e a fez crescer. Redes foram fortalecidas, patrimônios ganharam novos usos e a presença da Igreja alcançou territórios mais amplos.

A PUC Minas consolidou sua atuação em Belo Horizonte, Contagem, Betim e outras regiões do Estado. A incorporação do antigo Instituto Izabela Hendrix ao Campus Lourdes é um gesto particularmente revelador: um patrimônio histórico e educacional foi preservado e reintegrado à vida da cidade como espaço de formação, pesquisa e cultura.

No entorno da Praça da Liberdade, a Universidade ocupa posição cada vez mais estratégica, aproximando ensino superior, patrimônio, museus, equipamentos culturais e vida urbana. Sua presença leva estudantes, professores, pesquisadores e ideias ao coração cultural de Belo Horizonte. Não é somente a Universidade que cresce. A cidade se revitaliza pela educação.

A Rede Santa Maria também ampliou sua presença na Região Metropolitana. Da educação básica à universidade, organiza-se um sistema de formação humanista que acompanha diferentes etapas da vida.

Esse crescimento revela inteligência territorial. Dom observa a cidade, seus deslocamentos e suas novas centralidades. A Universidade fortalece sua presença no centro e nos municípios metropolitanos. Os colégios ampliam o acesso à educação. A Catedral Cristo Rei ergue-se no Vetor Norte, em diálogo com a Cidade Administrativa, os grandes corredores de mobilidade, o caminho de Confins e as comunidades que cresceram para além do núcleo tradicional da capital.

Dom não administra apenas edifícios. Organiza propósitos.

Sua capacidade de gestão não está separada da fé. É uma das formas pelas quais procura servi-la. Não trabalha apenas para o tempo de seu episcopado. Trabalha para o tempo da Igreja.

Entre 2019 e 2023, como presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, conduziu a instituição durante a pandemia e num período de forte polarização. Sua palavra buscou defender a vida, a fraternidade, o diálogo e a democracia, sem reduzir a missão da Igreja a qualquer alinhamento partidário.

“Sem fraternidade humana não vamos avançar”, afirmou em uma de suas reflexões. A frase resume uma compreensão política e cristã da convivência: nenhuma sociedade se sustenta quando transforma permanentemente o outro em inimigo.

Durante a pandemia, o verbo central foi cuidar. A esperança cristã deveria traduzir-se em solidariedade concreta, atenção espiritual e proteção aos vulneráveis. Quando a fome voltou a ferir milhões de brasileiros, Dom Walmor questionou como um dos maiores produtores de alimentos do mundo podia aceitar que tantas pessoas não tivessem o necessário para viver.

A fé que não se deixa interpelar pela fome do outro permanece incompleta.

Nos últimos anos, a esperança tornou-se um dos temas mais visíveis de seus artigos e homilias. Não como fuga, mas como compromisso. Esperar significa continuar educando, formando, dialogando, preservando a memória e servindo, mesmo quando os resultados não são imediatos.

Em seus textos mais recentes, Dom amplia essa reflexão diante da tecnologia, da inteligência artificial e do empobrecimento da vida interior. O desafio, insiste, é permanecer humano. O desenvolvimento técnico, por si só, não garante progresso moral. Sem espiritualidade, ética e fraternidade, o avanço pode produzir novas formas de exclusão.

A Catedral Cristo Rei é uma das grandes sínteses materiais de seu pensamento. Não a única, porque sua obra também está nas pessoas formadas, nas instituições fortalecidas, nas comunidades acolhidas, na educação, na comunicação e na memória protegida. Mas a Catedral torna visível uma concepção de Igreja.

As grandes estruturas concebidas por Oscar Niemeyer elevam-se como mãos voltadas para o céu. Em linguagem contemporânea, cumprem uma função semelhante à das ogivas das catedrais góticas: conduzem o olhar para o alto, vencem simbolicamente a gravidade e transformam a matéria em impulso espiritual.

A pedra medieval tornou-se concreto. A verticalidade permanece.

A maior originalidade, porém, não está apenas na arquitetura. Está na compreensão de que uma catedral do século XXI não pode ser somente um lugar de celebração. Precisa acolher formação, cultura, comunicação, memória, música, diálogo e promoção humana, recuperando para o nosso tempo a antiga vocação das catedrais como centros irradiadores de conhecimento e de vida.

Sua implantação no Vetor Norte revela a mesma inteligência urbana. Próxima às novas centralidades metropolitanas e a equipamentos de intensa circulação, a Catedral não se afasta da vida contemporânea. Coloca-se onde ela acontece.

As catedrais medievais conviviam com mercados, escolas, hospitais, universidades e praças. A Catedral Cristo Rei dialoga com os fluxos do século XXI, inclusive com os espaços comerciais e de convivência do entorno. A Igreja não espera que a cidade venha até ela. Insere-se no mundo sem renunciar à transcendência.

Há em Dom Walmor uma forma rara de vanguarda. Não aquela que rompe com tudo o que veio antes, mas a que reconhece na tradição forças ainda não esgotadas. Mais do que estar à frente de seu tempo, ele parece compreendê-lo em profundidade: de onde vem, onde estamos e o que ainda precisamos construir.

A tradição, em sua visão, não existe para ser repetida. Existe para continuar produzindo futuro.

Caminhando pela obra da Catedral, Dom chamou minha atenção para um pequeno óculo aberto na cobertura da nave. Contou que sugerira aquela alteração ao projeto. Por aquele círculo de luz, o olhar encontra uma das grandes estruturas que se elevam para o céu.

Nunca esqueci aquele gesto.

Dom não pensava apenas na execução do edifício. Pensava em quem entraria nele. Na luz que essa pessoa veria, no silêncio que encontraria e no caminho que o olhar percorreria. A arquitetura também pode educar a alma.

Escutá-lo falar sobre fé, cultura, educação, patrimônio ou esperança produz sempre a mesma impressão. Nada aparece separado. A inteligência ilumina a fé. A fé humaniza a cultura. A cultura preserva a memória. A memória abre o futuro. E tudo retorna a Jesus.

O biblista, o professor, o pastor, o comunicador, o gestor e o construtor são dimensões de uma mesma vocação.

Seu lema não promete um mundo sem feridas. Propõe uma Igreja capaz de reconhecê-las, aproximar-se delas e devolver esperança.

Curar os corações feridos é anunciar Cristo, alimentar quem tem fome, educar, preservar a memória, produzir beleza, promover o diálogo e devolver horizonte a quem já não consegue enxergá-lo.

Hoje penso que aquele óculo diz muito sobre Dom Walmor. Sua missão tem sido abrir passagens para que as pessoas levantem os olhos.

Talvez seja por isso que prefira ser chamado simplesmente de Dom.

Porque acredita que Deus confiou um dom a cada pessoa — e que a maior missão da Igreja é ajudá-lo a florescer.

Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da PUC Minas.

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