O espelho do vizinho — A vingança da intimidade

Homem tira autorretrato no espelho
O ser humano tolera quase tudo. Tolera a tirania do estranho, a opulência dos reis e a sabedoria dos mortos. O que lhe custa suportar é descobrir que alguém da mesma rua encontrou um caminho mais alto. Foto: Pixabay

Na sexta-feira passada, um amigo me mandou mensagem. Não queria comentar política, queria entender gente. Descobrira que o primeiro movimento para impedir sua candidatura não vinha de um adversário, mas de um conterrâneo, alguém que ajudara a construir o mesmo partido, que estivera presente quando a legenda ainda era uma ideia frágil e as reuniões aconteciam em salas emprestadas. Fechei a mensagem e fiquei pensando que aquilo acontecia havia mais de dois mil anos.

Santo de casa não faz milagre. O ditado é velho, mas a gente só entende quando vê de perto. Os latinos tinham uma frase para isso: Nemo propheta in patria sua, nenhum profeta é aceito em sua terra. O que me incomoda não é a frase em si, é a persistência dela. Atravessou séculos porque acerta num ponto que não cicatriza: a dificuldade de aceitar que alguém que saiu do mesmo chão possa ir mais longe.

Enquanto eu pensava nisso, lembrei-me de uma passagem do livro Quando Fui Outro, de Fernando Pessoa, quando diz: “Somente seus verdadeiros amigos suportam sua felicidade”. Li aquilo há muitos anos e demorei a compreender sua dureza. Consolar na dor é fácil, quase automático. O sofrimento alheio nos permite estender a mão de cima para baixo. A felicidade do outro, porém, não pede nada. Apenas brilha. E exige uma generosidade rara: a de celebrar a luz alheia sem ficar medindo a própria sombra.

Meu amigo havia dedicado anos àquele projeto. Foram anos de trabalho e renúncias. Quando buscou concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa, a resistência mais dura veio de quem caminhara ao lado. Alguém que conhecia toda a sua trajetória, que dividira os primeiros sonhos e que agora parecia incapaz de aceitar que um dos seus ocupasse um lugar mais alto.

Isso não é novo. Em Atenas, criaram o ostracismo, um banimento por dez anos que não exigia crime algum. Na prática, bastava que alguém acumulasse prestígio suficiente para despertar receios. Quem crescia demais deixava de ser apenas um cidadão.

Jeremias foi rejeitado pelo próprio povo. Jesus, em Nazaré, encontrou desconfiança justamente entre aqueles que o tinham visto crescer. Como admitir a grandeza naquele menino conhecido desde a infância? A intimidade congela a imagem das pessoas. A gente olha para quem subiu e ainda enxerga o menino descalço.

Florença também devorou seus filhos. Lendo Maquiavel, tem-se a impressão de que as rivalidades locais muitas vezes nascem de pequenas vaidades feridas. Dante Alighieri experimentou isso na carne ao ser condenado ao exílio pelos concidadãos. Foi ele quem escreveu sobre o gosto salgado do pão alheio. Há cidades que preferem os seus por perto e discretos.

Penso também no médium de Pedro Leopoldo. Antes de ser reverenciado em Uberaba, foi alvo da incompreensão dos seus. O pai lhe deu uma bofetada porque o filho não conseguira salvar o irmão da morte. A dor encontrou um rosto em que descarregar a própria impotência. Depois veio a rejeição da comunidade. Foi preciso partir para que sua obra encontrasse espaço. Pedro Leopoldo não soube o que tinha. Uberaba soube.

Volto à mensagem do meu amigo. O conterrâneo que agora articulou contra ele não é um inimigo declarado. É alguém que conhece os atalhos, que frequentou as mesmas reuniões, que talvez ainda guarde as mesmas fotos antigas. A conspiração não veio em público. Veio de onde essas coisas quase sempre começam: longe dos olhos.

Talvez seja por isso que a gente idolatre os mortos e desconfie dos vivos. O morto já não cresce, já encontrou o tamanho exato da nossa saudade. O vivo continua mudando, aparecendo com uma história que já não cabe na imagem antiga. Isso desconcerta. O ressentido tenta preservar a distância que existia quando ambos eram meninos na mesma rua de terra.

No fundo, a conspiração silenciosa, a bofetada do pai, o ostracismo ateniense e o exílio de Dante falam da mesma fragilidade. O ser humano tolera quase tudo. Tolera a tirania do estranho, a opulência dos reis e a sabedoria dos mortos. O que lhe custa suportar é descobrir que alguém da mesma rua encontrou um caminho mais alto.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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