O garimpo da política — A ilusão dos alquimistas e a realidade dos extrativistas

Lâmpada se acende
Uma campanha não fabrica candidatos do zero; ela limita-se a escavar traços de personalidade, virtudes e ambiguidades que já estavam lá, soterrados por vícios de oratória ou treinamentos engessados. Tampouco inventa o eleitorado. Foto: Pixabay

No anedotário da política, habita um personagem de contornos quase mitológicos. Trata-se daquele marqueteiro que entra na sala de reunião com andar pausado, escuta dois ou três relatos desconexos da militância, faz uma pergunta aparentemente ingênua e, como quem encontra uma nascente no meio da seca, profere a sentença que mudará os rumos do pleito. O candidato suspira aliviado, a equipe anota a fórmula com fervor religioso e, anos mais tarde, o episódio ganha capítulos hagiográficos em biografias sobre as grandes sacadas da história recente. A mitologia eleitoral nutre-se dessa ilusão de genialidade individual. O problema é que, em mais de uma década transitando pelos bastidores de campanhas, nunca encontrei essa figura.

Recentemente, vi-me obrigado a encarar essa ficção ao sentar para elaborar uma proposta comercial. Uma pré-candidatura relevante havia me convidado a integrar seu colegiado estratégico com uma premissa reveladora: a ideia central do acordo era contratar apenas a minha figura, isolada de qualquer retaguarda técnica. A expectativa do cliente era de que eu sentasse à mesa solitariamente, munido de intuição e prestígio, para ditar os caminhos da eleição. Como manda a prudência burocrática, abri minhas planilhas antigas, consultei contratos anteriores e apliquei os reajustes inflacionários do período. Mas, ao encarar o número final na tela do computador, fui tomado por um desconforto incômodo. Aquele valor não faria sentido, porque aceitar o convite naqueles termos significava assumir que a minha opinião isolada, desprovida do amparo da minha equipe e do processamento coletivo de dados, valeria alguma coisa. Eu estaria vendendo a ilusão do faro perfeito. Fechei o computador.

A comunicação política adora colar rótulos solenes nos seus operadores: estrategistas, cientistas políticos, consultores, gurus. Contudo, talvez a definição mais precisa para o meu tipo de trabalho venha de uma herança geográfica e de método. Sou mineiro, não apenas pela certidão de nascimento, mas pelo vício de encarar a realidade através de uma lente extrativista. No mercado eleitoral, há uma vaidade sufocante em relação ao ato de criar. Premiações celebram slogans pretensamente geniais e entrevistas buscam o momento exato em que a ideia revolucionária nasceu. A verdade, porém, é que campanhas bem-sucedidas inventam muito pouco.

Uma campanha não fabrica candidatos do zero; ela limita-se a escavar traços de personalidade, virtudes e ambiguidades que já estavam lá, soterrados por vícios de oratória ou treinamentos engessados. Tampouco inventa o eleitorado. O que se faz é mapear com precisão os ressentimentos, as angústias e as expectativas que já circulavam nas conversas de rua, nas mesas de bar e nas redes sociais. As pesquisas quantitativas e qualitativas não criam a opinião pública, apenas operam como sondagens geológicas que revelam onde estão os depósitos que ninguém havia explorado com o cuidado devido.

Talvez essa aversão à alquimia política e aos saltos no escuro venha de berço. Cresci vendo meu pai, engenheiro civil, dar aulas de resistência dos materiais e me ensinar uma premissa irrefutável: uma barragem não cai sem dar sinais antes e um viaduto bem projetado não despenca. Ao mesmo tempo, minhas memórias infantis são permeadas pelas pilhas de estudos da minha mãe durante o seu mestrado em engenharia nuclear e, posteriormente, no doutorado em planejamento energético. Fui criado em uma casa onde a observação rigorosa das variáveis, o cálculo e o planejamento imperavam sobre a intuição vazia. Quando construí a minha própria formação, que transita entre a tecnologia e o direito, essa lente interpretativa apenas se refinou. Se na tecnologia aprendi a lidar com sistemas, análise de dados e filtragem de ruído, no direito assimilei a importância da estrutura, os contornos normativos da realidade e o rigor da formulação de argumentos.

Na estratégia eleitoral, o processo guarda uma semelhança impressionante com essas lógicas somadas. Recebe-se um volume caótico de insumos: números de pesquisas, transcrições de grupos focais, indicadores econômicos, reações digitais e impressões do campo. O trabalho não é inventar nada disso, mas entender o padrão subjacente, respeitar os limites do tabuleiro e separar o minério do cascalho.

Uma vez identificado esse padrão, o material bruto é entregue a uma engrenagem coletiva. É o redator quem dá forma estética à palavra; é o designer quem traduz a atmosfera em identidade visual; é o videomaker quem ritma a emoção; e é o candidato, quando compreende o processo, quem corporifica a narrativa como se ela tivesse nascido espontaneamente da sua própria trajetória. Atribuir a autoria desse fenômeno a uma única mente brilhante é de uma ingenuidade atroz. A melhor frase de uma campanha pode ter saído da pena de um redator em um dia inspirado, mas ela só existiu porque uma pesquisa revelou uma dor, uma conversa informal sugeriu um caminho e dezenas de profissionais lapidaram aquela intuição.

A negociação comercial em questão acabou não virando contrato justamente por isso: eu seria apenas um palpiteiro extremamente caro. Contudo, o fracasso da transação deixou um saldo surpreendentemente positivo, pois forçou-me a formular com clareza o que, afinal, está em jogo no meu ofício. Não vendo sacadas geniais que nascem do vácuo. O que ofereço é a disciplina analítica para reconhecer a relevância antes que ela se torne óbvia, a paciência para garimpar o dado no meio do ruído e a humildade de aceitar que quase todo ouro eleitoral vem misturado com muita terra. A política prefere a narrativa dos alquimistas que prometem transformar chumbo em ouro e lucram vendendo a própria opinião. Eu prefiro a modéstia dos mineradores, que sabem que as maiores riquezas quase nunca são inventadas, apenas descobertas de forma coletiva.

Profissional de marketing político, colecionador de histórias em quadrinhos e ingressos de shows. Coautor do livro “Cabeça de Candidato”.

Leia também:

PT fecha chapa ao Senado com Áurea Carolina

Tribunal do Cade aprova aquisição de 30% das ações da Copasa pela Equatorial

Os candidatos mineiros com contas irregulares, segundo o TCU

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse