O jornal “O Estado de S. Paulo” publicou, nesta segunda-feira (9), um editorial com críticas ao governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), por causa de uma declaração em que o chefe do Executivo estadual relativiza a ditadura militar (1964-1985). No texto, intitulado “A destruição da História”, o “Estadão”, diz que Zema tenta se colocar como opção ao eleitorado bolsonarista ao tecer considerações minimizando o período de regime ditatorial.
“Zema não merecia que dele se escrevesse uma única linha, ainda mais porque História e cultura nunca foram seu forte mesmo – basta lembrar que, numa entrevista a um podcast de Divinópolis, cidade natal da poeta Adélia Prado, uma das mais importantes de Minas, o indigitado perguntou: ‘Ela trabalha aqui?’; Mas sua declaração sobre a ditadura militar serve para mostrar até que ponto os bolsonaristas se dispõem a ir, mesmo aqueles que gostariam de ser vistos como ‘moderados’, caso de Zema”, escreveu o jornal.
O caso remete à última quarta-feira (4), quando a “Folha de S. Paulo” publicou uma entrevista em que Zema, pré-candidato ao Palácio do Planalto no ano que vem, diz que a ditadura militar é “questão de interpretação”.
Para o “Estadão”, a fala do governador representa um “desrespeito à História, às vítimas da ditadura e ao bom senso”.
“O mais grave, contudo, é saber que Zema não está só. É parte da guerra cultural bolsonarista forjar inimigos, definir o Brasil como corrompido por uma “falsa democracia” e manter as massas digitais mobilizadas e a militância mais extremista em constante excitação. É a arquitetura da destruição, marca d’água do bolsonarismo: quando o passado é desmontado e tudo passa a ser discutível – se a Terra é redonda, se a vacina salva ou mata ou se o regime de 1964 foi ou não uma ditadura – abrem-se as portas para o autoritarismo. Afinal, este é o sonho das mentes autoritárias, à direita ou à esquerda: reescrever a História e estabelecer o que é verdade ou não”, lê-se em outro trecho do editorial.
A fala de Zema
Na entrevista à “Folha”, concedida aos jornalistas Juliana Arreguy e Fábio Zanini, Zema sinalizou que a caracterização dos governos militares como ditadura cabe aos historiadores.
“Tiveram sequestradores e assassinos que receberam anistia, não foi? Nós temos que olhar para o futuro. Quando você está fazendo política e só procurando atacar, diminuir seus adversários, acho que isso prejudica muito o andamento da gestão”, apontou.
Ao afirmar que a ditadura é “questão de interpretação”, o político do Novo, então, foi perguntado sobre sua interpretação a respeito do período militar, mas se esquivou.
“Eu prefiro não responder, porque acho que há interpretações distintas. E houve terroristas naquela época? Houve também. Então fica aí. Acho que os historiadores é que têm de debater isso. Eu preciso me preocupar, hoje, com Minas Gerais”, assinalou.
Na sexta-feira (6), dois dias após as primeiras declarações, Zema aproveitou uma entrevista coletiva no Fórum Esfera Brasil, em São Paulo (SP), para marcar posição contrária a governos autoritários.
“Sou totalmente contrário a qualquer ditadura, mas temos que lembrar que estamos vivendo a ditadura do crime organizado no Brasil”, falou.
