PF se mobiliza contra projeto que obriga anuência do MP para pedidos de operação contra políticos

Projeto revolta delegados e agentes e deve ser analisado em comissão nesta terça
Pelo que propõe o senador, só quando os procuradores também apoiarem o pedido do delegado é que o juiz ficará passível de decidir pela operação
Pelo que propõe o senador, só quando os procuradores também apoiarem o pedido do delegado é que o juiz ficará passível de decidir pela operação/ Divulgação-PF

Delegados e agentes da Polícia Federal têm se mobilizado para repudiar o projeto de lei 4336/2023, do senador Mauro Carvalho Junior (UNIÃO-MT), pautado para análise da Comissão de Segurança Pública do Senado nesta terça-feira (12), que prevê a necessidade de autorização do MP para realizar pedidos de prisão e busca e apreensão à Justiça quando os alvos forem políticos com foro privilegiado.

Atualmente, os policiais podem recorrer com o pedido e, mesmo com o MP sendo contrário às medidas cautelares, o juiz pode seguir o entendimento da PF e autorizar uma operação. Pelo que propõe o senador, só quando os procuradores também apoiarem o pedido do delegado é que o juiz ficará passível de decidir pela operação.

“É um projeto muito ruim que vem nessa ação dos parlamentares de segurar o Judiciário especialmente contra quem tem prerrogativa de foro privilegiado, mas acabou colocando de forma genérica subordinação da polícia judiciária à anuência do MP, limitando desta forma o julgamento do juiz que fica condicionado a ter concordância do MP”, aponta um delegado da PF que conversou com O FATOR.

Além da anuência do MP, o projeto também prevê que seja necessária uma decisão colegiada – ou seja, de mais de um juiz ou desembargador – para decretar uma medida cautelar. O senador argumenta que esse tipo de manobra é necessária para impedir perseguição política.

“Por fim, para que se evite que as medidas cautelares possam ser utilizadas como forma de perseguição política, pretende-se incluir, no Código de Processo Penal, a previsão de que a decretação de medida cautelar contra agente político dependerá de decisão colegiada. Tal providência é compatível com a posição do Supremo Tribunal Federal que limita a prerrogativa de foto
por prerrogativa de função em matéria criminal apenas para crimes cometidos durante e em razão do exercício da função pública que legitima o foro especial. Além disso, a inovação proposta submeterá a decretação de cautelares, inclusive de prisão, ao controle de órgãos colegiados de superior hierarquia, como uma forma de evitar os riscos de exposição do livre exercício do mandato a pressões e perseguições mais suscetíveis em órgãos singulares de primeira instância”, aponta a justificativa do projeto.

Na avaliação da Associação Nacional dos Delegados da PF (ADPF), o projeto acarretará na:

  • Concentração injustificada de poder no Ministério Público;
  • Vinculação do entendimento técnico-jurídico do delegado de polícia ao Ministério Público, desequilibrando a investigação criminal;
  • Limitação injustificada da atuação do Poder Judiciário, que ficará impedido de analisar representações de delegados de polícia que contem com parecer desfavorável do Ministério Público.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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