Minas Gerais nasceu do encontro de caminhos. E o coração de nossas cidades — sempre foi — a praça, o adro, o mercado, a rua em curva. É ali que pulsa a vida coletiva, se celebra o sagrado e o profano, se acende a festa e se faz o luto. A centralidade dos centros históricos mineiros não é apenas geográfica — é simbólica, cultural, afetiva.
Ao longo do tempo, no entanto, a expansão urbana e os grandes eixos comerciais deslocaram essa centralidade para fora. Mas algo começou a mudar — silenciosamente, e de forma irreversível.
A revitalização dos centros históricos em Minas Gerais tornou-se não apenas um gesto de resgate cultural, mas uma estratégia urbana de desenvolvimento econômico, social e simbólico. A experiência do Circuito Liberdade, em Belo Horizonte, é hoje exemplo emblemático dessa transformação. Com média de 7,5 milhões de visitantes ao ano, o Circuito vem promovendo uma reocupação urbana profunda — especialmente em seu entorno imediato, na região da Savassi.
A Savassi, nos últimos anos, viveu uma valorização acentuada, impulsionada diretamente pela força cultural e turística irradiada do Circuito. O patrimônio atraiu a cultura; a cultura atraiu o público; e o público gerou uma nova economia urbana baseada na experiência, na gastronomia e no turismo criativo. Ali, o patrimônio se tornou contemporâneo.
O mesmo fenômeno ocorre no centro histórico de Paracatu, hoje um verdadeiro pulmão de cultura e gastronomia no Noroeste mineiro. Januária, com sua orla banhada pelo São Francisco, também tem resgatado seu centro antigo com projetos de turismo e cultura que unem tradição e contemporaneidade. Perdões e Santana dos Montes são casos visíveis de valorização patrimonial e imobiliária, impulsionados por roteiros turísticos, fazendas históricas e uma hospitalidade que transforma cada visita em experiência.
Andrelândia, com sua beleza preservada e atmosfera encantadora, guarda no centro urbano a possibilidade de reencantamento do cotidiano. Guaxupé, por sua vez, se destaca por seus amplos espaços culturais, que ocupam o centro da cidade com arte, encontros e inovação. Uberaba, com seu centro histórico delimitado por um patrimônio que revela as camadas da cidade, permite ao visitante e ao morador revisitar o passado como experiência viva e sensível.
Outros municípios vêm trilhando o mesmo caminho: São João del-Rei, com seu centro barroco conectado à arte contemporânea; Lagoa Dourada, onde o centro pulsa com os sabores da tradição e do rocambole mineiro; Pirapora, que está aos poucos resgatando sua história ferroviária e fluvial; Catas Altas, com seu casario aos pés da Serra do Caraça; Congonhas, onde o barroco dialoga com o turismo de experiência; Ouro Preto, onde o tempo parece suspenso; Sabará, que une patrimônio e gastronomia em suas ladeiras; Mariana, primeira vila, cidade e bispado de Minas; Muzambinho, com seu conjunto histórico bem preservado; Cachoeira do Campo, com seus eixos coloniais intactos; Campanha, com suas igrejas e ruas silenciosas; e Caeté, com seu centro marcado pela fé e pelo movimento das romarias.
É importante afirmar: toda cidade tem um centro histórico — seja ele composto por dois quarteirões e uma capela, ou por um conjunto tombado e extenso. Não há cidade sem memória, sem origem, sem traço fundante. Mesmo os centros mais discretos carregam as marcas do tempo, das festas, das famílias, das escolas e dos gestos cotidianos que fundaram o território. Por isso, a política pública de valorização dos centros históricos deve alcançar todas as cidades mineiras, pequenas ou grandes, conhecidas ou invisibilizadas.
Esses exemplos confirmam o que os dados do Observatório do Turismo de Minas Gerais revelam: mais de 70% dos visitantes que chegam ao estado elegem os centros históricos como os principais atrativos. É um comportamento semelhante ao observado na Europa, onde o valor simbólico da cidade antiga é motor do turismo e da economia urbana.
Nesse contexto, propomos uma ação simples, mas estratégica: que cada cidade mineira identifique, valorize e sinalize seu centro histórico. Com placas, mapas afetivos, marcos de interpretação e ocupação simbólica. É um gesto de pertencimento — mas também de desenvolvimento e valorização.
Cidades como Itapecerica, São João Nepomuceno, Carangola, Grão Mogol, Conceição do Mato Dentro, Rio Pardo de Minas, Itabira, entre tantas outras, possuem centros históricos riquíssimos, ainda pouco inseridos na lógica turística e econômica. Identificá-los e protegê-los é essencial — mas mais do que isso: é preciso reinseri-los na vida cotidiana.
A ocupação dos centros históricos com cultura, gastronomia, economia criativa e turismo é uma forma eficaz de valorização territorial. O patrimônio, quando cuidado e vivido, transforma-se em ativo. E a cidade volta a ter alma.
Esse é o urbanismo afetivo que defendemos: aquele que entende o centro não como resíduo do passado, mas como ponto de partida. Onde a história não é uma moldura distante, mas o próprio corpo da cidade, vivo e presente. Onde o afeto é política pública, e a memória se torna horizonte.
Porque em Minas, o tempo caminha devagar — mas nunca para.