Carlos Bracher: combustão da memória

Carlos Bracher não pinta a memória: acende-a.
Quadro de Carlos Bracher
Foto: reprodução/Prefeitura de Juiz de Fora.

Em sua obra, o passado não repousa como lembrança pacificada. Ele arde. Cidades, igrejas, montanhas, paisagens, rostos, arquitetura, indústria e história aparecem atravessados por cor, densidade, deformação e gesto, como se a pintura buscasse revelar a energia ainda viva das coisas.

Por isso, reduzir Bracher ao “pintor de Ouro Preto” seria diminuir sua grandeza. Ouro Preto é, sem dúvida, uma de suas moradas espirituais mais intensas. Mas sua pintura ultrapassa a cidade histórica. Ela atravessa a Pampulha, as paisagens mineiras, os retratos, o barroco, Van Gogh, Aleijadinho, Brasília, o aço, o petróleo, a indústria e Minas como matéria profunda de criação.

A palavra decisiva é memória. Mas, em Bracher, memória não é nostalgia. Não é museu imóvel, nem culto pacificado ao passado. É força ativa. É presença que retorna. É aquilo que, vindo de trás, ainda nos lança para frente. Sua pintura trata Minas não como cenário patrimonial, mas como corpo vivo: mineral, humano, urbano, espiritual e histórico.

Nascido em Juiz de Fora, em 1940, Carlos Bernardo Bracher é pintor, desenhista, escultor e gravador. Frequentou a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, estudou com Fayga Ostrower na UFMG entre 1965 e 1966 e, em 1967, recebeu o Prêmio de Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Belas Artes, uma das grandes distinções da arte brasileira. Foi um dos raros mineiros a alcançar esse reconhecimento nacional, que o levou a viver principalmente entre Paris e Lisboa antes de retornar ao Brasil e escolher Minas como território definitivo de criação.

Esse movimento importa. Bracher não chega a Ouro Preto por falta de mundo, mas depois de atravessá-lo. A Europa não o afastou de Minas; devolveu-o a Minas com outra densidade. Depois de Paris e Lisboa, Minas deixa de ser apenas origem e se torna escolha. Ouro Preto deixa de ser apenas cidade histórica e passa a ser uma das grandes matrizes pictóricas de sua obra.

Mas há outros mundos em Bracher. Quando pinta a Pampulha, sua energia se desloca para outra modernidade mineira: a curva de Niemeyer, a paisagem construída, o lago, o diálogo entre arquitetura, arte e cidade. Quando pinta paisagens, não busca apenas horizonte ou beleza natural; busca a pressão interior da terra. Quando pinta retratos, revela que a memória também mora no rosto.

Esse ponto é fundamental. Bracher é também um grande retratista porque entende que um rosto não é apenas semelhança. É presença. É tempo acumulado. É caráter, silêncio, energia, espírito. O retrato, nele, não é fotografia pintada; é encontro. A pincelada não descreve apenas os traços: procura a força da pessoa. Diante de um retrato de Bracher, temos a sensação de que a figura não foi apenas representada, mas convocada.

A pincelada é o centro de sua teoria da arte. Ela não é acabamento; é acontecimento. Suas pinceladas largas, fortes, matéricas, muitas vezes quase impacientes, não suavizam o mundo: intensificam. A cor não ilustra; tensiona. A matéria não reveste; encorpa. A forma não fecha; pulsa.

É nessa pincelada que vejo uma das grandes sínteses de Bracher: passado e futuro não aparecem como tempos separados. A mão que toca a memória é também a mão que a projeta. O barroco, a pedra, a igreja, a montanha, o rosto, a cidade antiga e a paisagem moderna não são encerrados numa imagem de conservação; são lançados novamente ao presente por uma força pictórica que os renova. Bracher não congela a memória: faz dela energia.

Ver Carlos Bracher pintar é perceber que, nele, a pintura não é apenas técnica. É transe lúcido. Há no gesto uma concentração quase cósmica, como se o artista se ligasse a uma energia maior e a traduzisse em cor, ritmo e matéria. A impressão não é a de alguém simplesmente executando uma imagem, mas a de alguém atravessado por uma força. O pincel não descreve; convoca. A tela não recebe apenas tinta; recebe intensidade.

A filosofia da arte ajuda a compreender essa experiência. Merleau-Ponty pensou a pintura como participação na carne do mundo: o pintor não vê de fora, mas se envolve com aquilo que vê. Bracher parece pintar assim. Não diante da paisagem, mas dentro de sua densidade. Suas telas não descrevem o mundo; respiram sua atmosfera.

Bachelard lembraria que os espaços guardam imaginação. Uma casa, uma rua, uma pedra, uma sombra, uma montanha não são apenas formas materiais. São depósitos de lembrança. O Ateliê Casa Bracher, em Ouro Preto, anexo à casa onde vivem Carlos e Fani Bracher, materializa essa fusão entre vida, morada, obra e cidade. Ali, a arte não está separada da existência. A casa, o ateliê, a paisagem e a memória formam uma só arquitetura sensível.

Walter Benjamin permitiria dizer que Bracher restitui aura à paisagem. Num tempo em que o patrimônio pode ser consumido como imagem turística repetida, sua pintura devolve às cidades, aos rostos e às paisagens a presença irrepetível do acontecimento. O mundo, em Bracher, não está domesticado. Está vivo, denso, inquieto.

E Deleuze, ao pensar a pintura como lógica da sensação, ajuda a ler a força de sua obra: Bracher não narra simplesmente. Ele produz intensidade. A deformação, a cor espessa, o gesto largo e a matéria carregada são modos de fazer o mundo aparecer como sensação.

Suas séries confirmam essa amplitude. Em Pintura Sempre, retrospectiva de 1989, celebrou 30 anos de trabalho. Em 1990, realizou Homenagem a Van Gogh, com cem telas pintadas no centenário da morte do artista holandês. Em Do Ouro ao Aço, de 1992, voltou-se ao universo da siderurgia em Minas Gerais. Em 2007, na Série Brasília, homenageou Juscelino Kubitschek e pintou a capital como gesto histórico. Em 2012, criou a Série Petrobras, a partir do universo industrial do petróleo. Em 2014, no Tributo a Aleijadinho, voltou ao barroco mineiro para reler, em chave contemporânea, a potência do mestre.

Essas séries impedem qualquer redução. Bracher não é apenas pintor de uma cidade. É pintor das grandes matérias simbólicas: a pedra, o rosto, a igreja, a indústria, o aço, o petróleo, a arquitetura moderna, o barroco, o gênio trágico de Van Gogh, a herança de Aleijadinho e Minas como destino espiritual.

Sua grande retrospectiva Bracher: Pintura & Permanência, com curadoria de Olívio Tavares de Araújo, consolidou publicamente uma palavra essencial para compreender sua trajetória: permanência. Mas, em Bracher, permanecer não é ficar parado. Permanecer é continuar ardendo.

Por isso, a expressão combustão da memória parece tão justa. A memória, em Bracher, não é arquivo. É fogo. O passado não está atrás de nós quando continua agindo sobre o presente. Está nas pedras, nos rostos, nas igrejas, nas ruas, nas montanhas, nas paisagens, nas indústrias, nas ausências e nas cores que ainda nos atravessam.

Carlos Bracher é, assim, um intérprete da memória mineira em estado de combustão. Sua pintura nos lembra que Minas não é paisagem quieta. É matéria, ferida, fé, pedra, gesto, cor, rosto, cidade, indústria e transcendência.

Quando Bracher pinta, parece buscar o ponto em que corpo, mundo e universo entram numa mesma vibração. É desse ponto que sua obra nasce: não da lembrança pacificada, mas da memória acesa.

Em Carlos Bracher, Minas não olha apenas para trás. Ela arde em direção ao futuro.

Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da PUC Minas.

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