Há uma diferença cada vez mais visível entre o jornalismo digno e os caça-cliques. O primeiro informa, contextualiza, hierarquiza fatos e ajuda a população a entender a realidade. O segundo opera como uma espécie de ave de rapina digital: sobrevoa cadáveres, escândalos, prisões e nomes em alta para arrancar audiência de qualquer assunto – a qualquer custo – mesmo quando a relação factual entre os temas é inexistente ou artificial.
Boa parte da imprensa, infelizmente, mergulhou de cabeça nessa segunda categoria quando o assunto é Daniel Vorcaro e o Banco Master. Virou método! Qualquer pauta minimamente ligada à mineração, bancos, mercado financeiro, política, licenciamento ambiental, empresários ou até mesmo ex-sócios de ex-sócios do primo da tia da cunhada do ex-banqueiro ganha automaticamente o carimbo “Daniel Vorcaro” no título.
Não importa se ele já saiu da empresa, se não participa mais do negócio, se o fato discutido aconteceu anos atrás ou se a relação entre os temas é zero. O objetivo é um só: capturar tráfego em cima do personagem do momento. Um exemplo disso é a SAF do Atlético. Vorcaro aportou cerca de R$ 300 milhões no Clube muito antes de ele virar caso de polícia, mas as manchetes o ligavam ao Galo como se houvesse alguma irregularidade.
O exemplo mais recente desse oportunismo midiático é bastante didático. A audiência pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ocorrida na terça-feira, 26, para discutir o licenciamento ambiental da Mina de Jangada, em Brumadinho, foi assim parcialmente manchetada por um conhecido site da capital mineira: “A mina que já teve Daniel Vorcaro como sócio”. Perceberam o truque caça-cliques?
Depreciando o próprio valor
A notícia não é sobre Daniel Vorcaro. Não há qualquer investigação envolvendo o sujeito neste episódio. Não há nenhuma denúncia nova. Não há operação policial. Não há nem mesmo ligação factual direta entre a audiência da ALMG e o caso Banco Master. Mas o nome dele foi enxertado no título simplesmente porque gera clique. É a predominância do algoritmo, contaminando a lógica jornalística, para enganar o leitor curioso.
Se amanhã houver uma audiência sobre trânsito na Savassi e descobrirem que um prédio da região já pertenceu a uma empresa cujo contador teve um primo que trabalhou numa companhia ligada a Vorcaro, haverá – aposto! – uma manchete insinuando a conexão. Logo logo leremos nesse mesmo site: “Bar em que Vorcaro tomou seu primeiro porre é fechado pela vigilância sanitária por más condições de higiene.”
O jornalismo caça-cliques perdeu completamente o senso de proporção, e há um efeito colateral perigoso nisso, que é a banalização da informação com a consequente perda de credibilidade da imprensa profissional – eu disse profissional? Quando tudo vira “escândalo Vorcaro”, nada mais é realmente escândalo. Nem mesmo o… escândalo Vorcaro! O excesso de associação torna tudo artificial, inclusive a própria imprensa..
Misturam-se fatos relevantes com irrelevâncias oportunistas. O leitor deixa de distinguir investigação isenta de manchete construída para alimentar SEO e proporcionar engajamento de rede social. É curioso e incoerente, porque a própria imprensa, que vive reclamando da desinformação, passou a operar mecanismos típicos dessa desinformação: associação indireta, apelo emocional, contaminação da narrativa etc.
Ocaso do jornalismo profissional
Não é muito diferente do sujeito que escreve “empresário ligado a político investigado” quando o tal “ligado” significa apenas – sei lá – ter tirado uma foto num casamento de uma sobrinha há oito anos. Na boa… Jornalismo sério não deveria funcionar assim. Não se deve transformar qualquer assunto periférico numa espécie de universo expandido do Banco Master, pô. Isso, aliás, contamina a própria eficácia do debate institucional.
Sim. No caso da referida audiência, o sensacionalismo midiático artificial pode atrair olhares desatentos de autoridades relevantes e produzir efeito contrário. A comunidade do entorno da mina, como noticiou O Fator, apoia a exploração – pois estabeleceu uma relação direta e profícua com a empresa, ao contrário de quem se utiliza do fato apenas para aparecer eleitoralmente ou ganhar audiência na internet – e pode sair prejudicada.
O jornalismo digital brasileiro, especialmente o regional, está cada vez mais dependente de tráfego sensacionalista, da indignação instantânea e de títulos contaminados por nomes de alta relevância nas buscas no Google. Sem falar, é claro, no odiento – e criminoso – “copia e cola”, como apontei em recente coluna publicada neste mesmo O Fator. Apropriar-se de trabalho alheio, sem dar o devido crédito, é inaceitável.
O resultado é um ambiente informativo histérico, confuso e intelectualmente preguiçoso, além de cada vez mais sob cheque. Não adianta agir como um picareta intelectual e depois se perguntar por que tanta gente passou a desconfiar da imprensa e dar mais atenção à tia do Zap. Causa e efeito é uma relação inexorável. E não dá nem para eu encerrar em tom de alerta, pois a luz vermelha já queimou faz tempo, de tão acesa.