“De cabeça de juiz e bumbum de neném pode sair qualquer coisa”, é o que onze em cada dez advogados dizem para seus clientes nas primeiras consultas. A imprevisibilidade tem a ver com a natureza da função. Decisões judiciais, sobretudo as monocráticas, tendem a refletir não apenas e exatamente os ditames legais – que seria o ideal -, mas a ótica (crenças, critérios e valores) pessoal e interpretativa de quem as profere.
Se já fizeram antes, rendo aqui os devidos créditos, mas reformulo a frase: “De cabeça de eleitor e bumbum de neném pode sair qualquer coisa”. Eu desconheço “entidade” mais irracional do que esse bicho que, a cada dois anos, marcha às urnas para digitar dois números – na maioria dos casos, imprestáveis -, quase sempre sem convicção, lotado de falsas esperanças e com o coração embalado por legítimos rancores.
Pesquisas de opinião, justamente por tal imprevisibilidade, costumam falhar, ainda que suas cada vez mais assertivas metodologias científicas diminuam as chances de erro. O fato é que nem o próprio eleitor acredita em si mesmo, ou melhor, em suas escolhas. E na hora de uma entrevista a um pesquisador – e até diante da urna eletrônica -, é capaz de mudar de opinião umas duzentas e cinquenta vezes por milésimo de segundo.
Tudo sempre pode piorar
Boa parte da literatura e da ciência política recentes mostra que as populações, na maioria dos países, encontram-se cada vez mais descrentes na capacidade dos políticos atuarem positivamente na resolução dos problemas e na melhoria de suas vidas. Além disso – ou justamente por isso -, veem com profunda desconfiança, senão completa rejeição, a imagem do político tradicional; do político “profissional”.
Com a massificação da internet e a onipresença das redes sociais, figuras – como direi? – distópicas, politicamente falando, ganharam espaço justamente na esfera… política. Paradoxalmente, se apresentam como “não políticos”. E se há incoerência na origem, há, ao contrário, coerência na hora do voto, ou seja, “só sei que nada sei”. E tome gente estranha se tornando políticos… estranhos.
Roupas adequadas, postura profissional, respeito ao contraditório, pluralidade ideológica, cortesia com os colegas, decoro funcional? Esqueçam. Cultura geral, notório saber, experiência, maturidade, preparo? Sem chance! Até porque, se “antes era assim” e não funcionou, por que “não mudar”? Por que não eleger trogloditas? Ou seja, a questão não é a mudança, mas a forma. E mudamos, sim. Mas, para pior.
Populistas e falastrões
O odiento “nós x eles”, inaugurado pelo lulopetismo no final dos anos 1990, não foi só o “ovo da serpente” do radicalismo atual, expresso de forma mais aparente pelo bolsonarismo aloprado, mas o combustível – ainda abundante – para o surgimento de personagens distópicas. Basta um certo carisma, boa oratória (não confundir com qualidade e conteúdo), um smartphone (ou microfone) e virulência. Muita virulência.
Nos últimos anos, políticos “TikTokers” surgiram e se elegeram nesse contexto, sobretudo a partir de 2018, ainda que alguns não sejam tão digitais assim. Em maioria quase absoluta, são despreparados, autoritários e sem conteúdo ou plataforma. Apenas têm críticas – justas e verdadeiras, na maioria dos casos – como “plano de governo”. E uma vez eleitos, dobram e redobram a prática, conquistando cada vez mais visibilidade e idolatria.
Nesse contexto, em Minas Gerais, temos hoje um cenário que promete “terra arrasada” para 2026, com o senador Cleitinho Azevedo e o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, favoritos ao governo do estado. Como é mesmo a ironia com o Globo Repórter? “Quem são, o que fazem, como vivem”. Pois bem. A seguir, uma pequena amostra, começando pelo pelo menos pior, politicamente falando, dois dois.
Cleiton Azevedo, o Cleitinho
Senador em primeiro mandato, após passagens meteóricas pela Câmara Municipal de Divinópolis e Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi eleito, em 2022, com estrondosos mais de 4.2 milhões de votos. Cleitinho – sujeito gente boa demais, inclusive – é um rapaz com boas intenções, mas, como ensina o ditado popular, “De boa intenção o céu está cheio”. Transformou seu mandato em reality show e o Senado, em picadeiro.
Fico pensando o que faria – ou fará – o “animador de auditório” sendo ele mesmo o alvo das críticas. Sim, porque gravar e publicar vídeos – muitas vezes ofensivos, o que é diferente de indignados – atacando tudo e todos é fácil. Quando estiver – se estiver – sentado no Tiradentes, terá de resolver, e não apenas denunciar. Sem a menor qualificação para o cargo e com os cofres estaduais vazios, o que irá fazer o valente senador?
Esse é o ponto central de uma discussão que raramente é lembrada e observada pelos eleitores. Já não se importam mais com as pautas e com a capacidade do governante. Como eu disse, diante de tantas decepções e frustrações, não acreditam em mais ninguém, daí elegem aquele que os “representa”. No quê? Ora, na indignação, na veemência, na ira. Se irão ou não mudar algo, “veremos depois”. O resultado é este que está aí.
Alexandre Kalil
De empresário fracassado, devedor de impostos e obrigações trabalhistas a dirigente popular de futebol, ainda que tenha destruído as finanças do clube que administrou – o maior e mais querido Galo do mundo, o Clube Atlético Mineiro – entrou na política pela porta da antipolítica, dizendo-se um “não político”, o que jamais foi verdade, e reproduziu na PBH o mesmo modelo autoritário e ineficiente de gestão.
Com políticas urbanas desastradas, conduziu Belo Horizonte ao atraso e ostracismo, e tornou a capital mineira suja, insegura, restritiva e isolada politicamente. Não à toa, municípios vizinhos como Nova Lima terem crescido e florescido tanto na esteira de seu estrago em BH. Derrotado fragorosamente no primeiro turno por Zema, em 2022, “afundou” com a candidatura de Tramonte à Prefeitura, em 2024.
Ainda assim, mesmo tendo deixado o Atlético com uma lista de dívidas faraônicas – e duas auditorias que questionam seus atos -; a prefeitura desorganizada – e reorganizada pelo falecido prefeito Fuad Noman -; e ter sido alvo de uma CPI na Câmara Municipal, que identificou uma prestadora de serviços da Prefeitura pagando suas despesas pessoais quando era prefeito, mostra-se eleitoralmente competitivo para 2026.
Rumo às urnas
O dilema, portanto, não é apenas a existência de políticos ruins, mas o pacto consistente que o eleitor vem firmando com eles. Ao rejeitar qualquer critério de preparo ou seriedade, o voto acaba se convertendo em catarse, em rebeldia juvenil. O eleitor já não vota em quem possa resolver seus problemas e melhorar a sociedade, mas em quem “abraça” sua raiva e frustração, e transforma o mandato – executivo ou parlamentar – em guerra tribal.
Esse fenômeno é profundamente contraproducente, pois mantém o ciclo de incompetência, reforça as estruturas de poder e inviabiliza as reformas consistentes. Cleitinho e Kalil são personagens locais de um enredo, hoje global: figuras que emergem como “alternativas” para, uma vez no poder, repetir os vícios que juraram combater. O eleitor, cúmplice, bate palmas como plateia de um espetáculo do qual é, ao mesmo tempo, protagonista e vítima.
A pergunta que resta é brutal em sua simplicidade: até quando o país suportará transformar frustração em voto e voto em desastre? A cada ciclo, a imprevisibilidade do eleitor se revela como um gesto de autodestruição. O que estará em jogo em 2026 não é apenas o futuro de Minas, e do próprio Brasil, mas a capacidade de escaparmos do labirinto em que nos metemos – sempre em nome da mudança, mas quase sempre, para pior.