Mais de 40 anos após a obra de Roberto DaMatta, a sensação é de estarmos congelados no tempo, e rindo de questões sérias. “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado”, quarenta anos depois de Renato Russo perguntar “Que país é este?”, o Brasil continua convivendo com sucessivos escândalos em meio a operações policiais em capítulos, vazamentos, banqueiros, operadores políticos e muito mais, algo que parece ter saído de um roteiro escrito por Martin Scorsese, que dá vida a filmes reais tenebrosos.
A sexta fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, trouxe mais um sobrenome Vorcaro para o centro da tempestade: Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal sob acusação de financiar estruturas clandestinas ligadas ao escândalo do Banco Master.
E como diria o ditado adaptado aos tempos da Faria Lima policializada: um Vorcaro incomoda muita gente; dois Vorcaros incomodam muito mais.
Henrique Vorcaro não surgiu do nada. Empresário tradicional de Minas Gerais, fundador do grupo Multipar, construiu trajetória no setor de infraestrutura pesada, energia e agronegócio. Discreto, articulado, presente nos bastidores, frequentador da zona cinzenta onde empresários, políticos e influência tomam café juntos. O problema começa quando o café torna pretexto para conduta irregular.
Segundo noticiado, investigações da PF apontam que Henrique seria peça importante no financiamento de dois núcleos operacionais que mais parecem nomes de bandas de garagem dos anos 90, mas que, na prática, funcionariam como engrenagens de intimidação e espionagem: “A Turma” e “Os Meninos”.
“A Turma” seria o braço físico da operação. Um grupo acusado de realizar intimidações, monitoramentos clandestinos, obtenção ilegal de informações e ações de pressão contra desafetos do banqueiro Daniel Vorcaro. A investigação aponta conexões no Rio de Janeiro envolvendo operadores do jogo do bicho e milicianos. Até o Partido NOVO e o ex-governador ZEMA são citados com destinatário de recursos financeiros. É o Brasil onde o networking deixou de acontecer em eventos empresariais e passou a funcionar em corredores paralelos do submundo institucional.
Em mensagens obtidas pela PF, o coordenador do grupo cobra dinheiro de Henrique Vorcaro. Ele responde que enviaria “imediatamente 400”. O interlocutor rebate: “o ideal seria 800k”. A naturalidade da conversa assusta menos pelo valor e mais pelo tom quase “natural” da ilegalidade, como quem negocia mais um negócio corriqueiro.
Já “Os Meninos” seriam o núcleo digital da engrenagem: hackers, operadores tecnológicos e especialistas em derrubada de perfis, monitoramento telefônico e ataques cibernéticos. Segundo as investigações, os integrantes recebiam cerca de R$ 75 mil mensais. A velha política encontrou a nova criminalidade. Não basta mais grampear telefone; agora também se invade nuvem, derruba rede social e rastreia adversário em tempo real.
O curioso, ainda que lamentavelmente previsível, é perceber como o caso mistura elementos de clássicos como “Raízes do Brasil” e “Carnavais Malandros e Heróis”, ambos ainda atuais na sociedade brasileira, com uma desigualdade dolorida para a maior parte dos brasileiros. No cenário há banqueiros, agentes públicos, operadores financeiros, hackers e milicianos. Falta apenas alguém aparecer com malas de dinheiro para completar o álbum de figurinhas, típico para a época de copa do mundo.
E tudo isso conecta-se a uma velha tradição nacional: o flerte entre poder econômico, criminalidade organizada e proteção política. Quando empresários milionários recorrem a estruturas clandestinas para constranger adversários, perde a sociedade, ainda que a maioria nem perceba.
Há algo quase medieval nisso tudo. A ideia de contratar grupos para intimidar, monitorar ou retaliar desafetos remete ao velho “fazer justiça com as próprias mãos”, mas o Exercício Arbitrário das Próprias Razões é tipo penal previsto no artigo 345 do Código Penal. No Brasil contemporâneo, o coronelismo não desapareceu: apenas trocou o pombo correio pelo celular criptografado.
“Que país é este?” segue atual, menos uma pergunta e mais um relatório semanal de um crime continuado contra a sociedade brasileira.
Porque no Brasil de 2026, banqueiros têm “turmas”, hackers recebem mesada, milicianos circulam nos bastidores do poder, e o povo sofre e paga a conta. Ou ninguém prestou atenção nos valores que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) está desembolsando em decorrência do caso Master?
E o mais espantoso talvez seja que ninguém mais parece espantado com nada, como se fosse “o novo normal”.
Mas, em meio à lama institucional que periodicamente transborda no noticiário brasileiro, existe um detalhe que impede o país de afundar completamente: os órgãos de controle ainda funcionam. E isso talvez seja a parte mais relevante, e menos celebrada, dessa história.
A Operação Compliance Zero não surgiu por acaso. Ela é resultado do trabalho técnico de investigadores, auditores fiscais e diversos outros agentes públicos que operam longe dos holofotes da política e do mercado, e formam uma espécie de última trincheira republicana contra a captura completa do Estado pelo crime organizado de colarinho branco.
Num país onde parte da elite econômica frequentemente se considera acima da lei, são essas instituições que ainda sustentam um mínimo de equilíbrio civilizatório. Quando o COAF rastreia movimentações atípicas, quando Promotores e Auditores Fiscais desmontam operações fraudulentas, ou quando policiais cumprem mandados contra figuras poderosas, o que está em jogo é preservar a esperança de dias melhores.
E talvez esteja aí a grande contradição brasileira. O mesmo país que produz escândalos quase cinematográficos também produz servidores públicos altamente qualificados que lutam diariamente em prol do interesse público. Muitas vezes sem as devidas condições de trabalho, sob ataques, ameaças e até campanhas de desmoralização. Enquanto parte da República negocia influência em salas refrigeradas ou em escritórios luxuosos, há equipes inteiras trabalhando silenciosamente, com foco no ethos público, para impedir que o país se transforme definitivamente em uma associação entre dinheiro, medo e impunidade.
É graças a essas estruturas de controle que ainda resta alguma esperança para o brasileiro comum, aquele que paga imposto, pega ônibus lotado, enfrenta fila em hospital e continua acreditando que corrupção, milícia e crime financeiro não podem ser o destino inevitável do país. Porque quando instituições funcionam, mesmo diante de dificuldades e sob pressão, elas lembram que a República ainda respira.
Talvez seja exatamente isso que Renato Russo também intuía ao perguntar “Que país é este?”. A resposta nunca esteve apenas nos escândalos. Ela também está na resistência silenciosa de quem continua tentando impedir que o Brasil pertença de vez aos donos do poder paralelo.
Dói ver tudo isso acontecer no Brasil, mas sei que “uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente”, viva a esperança equilibrista!
Citando as Auditoras e Auditores Fiscais, rendo meu tributo a todos os servidores dos mais diversos órgãos de controle.