O vidro e a maré: por que o conforto não é parente da felicidade

Mar
Há marés que derrubam, ventos que humilham, arrecifes que cobram pedágio em cicatriz. Ainda assim, o oceano fabrica músculos que a poça jamais supôs. Foto: Pixabay

Dizem – e se não for verdade serve também -, que certos peixes como as carpas, por exemplo, ajustam-se ao tamanho da água. No copo, viram enfeite de mesa; no lago, fingem tridente; no mar, lembram que têm espinha. O mundo mede esses bichos em litros. A regra é simples, quase cruel: quando a água acaba, o corpo estaciona. E a gente? Medimos a vida em quê?

A nós, nos governa outra lógica, mais sorrateira. Não vivemos cercados por paredes transparentes. Vivemos cercados por afetos que exigem bons modos. Não batemos o nariz no vidro. Encostamos as costas nas expectativas. É um cárcere fotogênico: atende por cuidado, assina tradição, promete segurança em suaves prestações. Se a água já está rasa e a ração chega no horário, isso é cuidado ou contenção? Quem decide tal diferença?

Em que momento a borda do aquário virou horizonte legítimo? Quem nos ensinou a confundir mormaço com pertencimento? A gente decora a geografia do pouco e passa a chamá-la de destino. Aprende a tossir baixo para não incomodar a vizinhança. Até que, num dia sem data festiva, a coluna raspa no vidro. Não dói no osso, dói na medida. O que é pior: doer de grandeza contida ou de costume obedecido?

Planeta Água

O primeiro gole de oceano arde nas guelras e o sal humilha a doçura à qual nos acostumamos. A vastidão que da margem parecia liberdade, de perto lembra abandono. Falta a mão que mede o conforto, falta o roteiro do jantar às sete, falta o aplauso garantido da platéia conhecida. O mar exige improviso e fôlego. Estamos prontos para respirar sem manual?

Convém admitir: o mar não administra a vida de ninguém. Não promete finais felizes, oferece correnteza. Quando muito, dá possibilidade. Possibilidade é tudo o que a poça teme. Se há risco, nasce descoberta; se há descoberta, algum acordo antigo se desfaz. Quem lucra quando dizemos “assim está bom”? E quem murcha enquanto isso?

Talvez a desobediência peça um roteiro curto e franco. Primeiro, identificar a voz da poça, que fala baixo, veste prudência e repete “não é nosso perfil”, “não é hora”, “passa”. Segundo, reconhecer a coceira do impossível, a inquietação que acorda cedo, sussurra “e se?”. Terceiro, estilhaçar. De preferência com educação; se não der, com barulho. O vidro é destino ou apenas hábito bem polido?

Tudo vale a pena

Monstros existem e não é prudente negá-los. Há marés que derrubam, ventos que humilham, arrecifes que cobram pedágio em cicatriz. Ainda assim, o oceano fabrica músculos que a poça jamais supôs. O erro em alto mar não vale como derrota, vale como cartografia. Queremos colecionar mapas ou certificados de raso?

Não se trata de romantizar a fuga, e sim de desconfiar do conforto. Conforto não é parente da felicidade, muitas vezes nem mora na mesma rua. Felicidade tem parentesco com sentido, e sentido custa caro: cobra hora extra de coragem, tributa a dúvida, exige balanços que não fecham de primeira. Vale a pena pagar essa fatura para respirar mais fundo?

No fim, a escolha é simples no enunciado e difícil na prática. Entre a moral invisível da platéia que se confunde com carinho e vira rédea, e a agonia luminosa do mar, fico com a desobediência que respira. Se é verdade que certos peixes param quando a água acaba, é igualmente verdade que certas almas só começam quando o vidro cede.

Então, vamos caber no frasco que nos deram ou descobrir, de uma vez, a água que nos cabe?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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