Um bilhete de peso: a coragem do coração que grita

No fim, tudo se resume à coragem de ser um pouco louco, no melhor sentido. O sentido que faz a vida valer a pena. Foto: Pixabay

Era uma vez uma palavra que se recusou a nascer pequena. Veio de um rasgo no peito, daquelas dores que alegram, e saiu ao mundo sem pedir licença, como fazem as verdades que se sustentam sozinhas. Chamaram essa palavra de bilhete. Pode ter sido por modéstia. Pode ter sido porque as coisas miúdas, às vezes, carregam o peso e a luz de um mundo inteiro.

Há dentro de cada um um aquário silencioso. Moramos ali, olhando a vida através de um vidro espesso, um vidro feito de horas corridas, receios sem nome e frases que não chegam a sair. Até que, um dia, sem explicação que baste à razão, alguém decide fissurar o vidro. Deixa o sentimento nadar livre, exposto, a céu aberto. Escreve o que o coração grita. E o grito, então, aprende a cantar.

Não se trata de chegadas a tempo nem de demoras. No território do que importa de verdade, o tempo pertence aos relógios, não às almas. Uma carta pode levar anos e, mesmo assim, alcançar o outro no instante exato em que ele precisa lembrar que a humanidade não se perdeu. Como a criança que chega sem aviso e traz um recado do alto: Deus ainda confia em vocês. Cada nascimento é um voto no futuro. Cada palavra escrita por impulso honesto também é um parto. Põe no mundo um modo novo de ver.

E o que pode ser mais demorado do que um segundo que fica para sempre. Às vezes a vida inteira cabe no intervalo de uma frase lida ao lado do café. O mundo suspende o passo, o ruído se cala, e por um instante somos pura emoção compartilhada. É nesse tempo sem tempo que cartas viram literatura, sentimentos viram versos e um bilhete qualquer se torna herança.

Vale olhar para trás, sem apontar dedos, lembrando os que ousaram. Os que escreveram ao amado, ao rei, ao mar, ao filho que vinha a caminho. Alguns em cores furtivas, outros com o lirismo de quem conhece o desterro. Uns com a ironia fina que corta por dentro, outros com a paixão de quem conversa com as estrelas.

O estilo muda. O que permanece é a entrega. Quem abre o peito e mostra o que há se junta a uma constelação antiga de almas que navegam no mesmo mar de tinta e ânsia.

Quando alguém decide quebrar o vidro do próprio aquário, não caminha só. Vem acompanhado por todos os que, antes, ousaram sentir e dizer. Desse gesto nasce outra vida. Não apenas a da criança anunciada, mas a de quem escreve. Quem desata a própria voz descobre horizontes. Quem compartilha o íntimo liberta o que estava preso e percebe que, do lado de fora do vidro, há oceano.

E a música. Se hoje podemos pedir uma canção, que chegue a melodia que acolhe, abraça e sussurra venha, a vida é boa. Que o recém nascido encontre versos de recepção, e que a palavra escrita ecoe como música que não termina, porque ambas nascem do mesmo desejo de tocar o outro.

No fim, tudo se resume à coragem de ser um pouco louco, no melhor sentido. O sentido que faz a vida valer a pena. O que é a eternidade, perguntou certa vez uma menina curiosa. E ouviu como resposta que, às vezes, é só um segundo. O segundo em que alguém, em algum lugar, decidiu escrever com a alma. Por um instante, o mundo ficou mais leve, mais belo, mais humano.

Era uma vez uma palavra. E ela nos salvou.

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