Persistir é desobedecer: um manifesto contra a anestesia cotidiana

Faça-se um favor. Hoje, escolha um poema que você jurou não entender. Leia-o em voz alta
Sociedade dos Poetas Mortos (Reprodução)

Esqueça, por um minuto, a delicadeza com que lhe venderam a passagem do tempo. Aquela idéia do calendário que “flui” é açúcar no remédio da finitude: ajuda a engolir sem engasgos. Mas o tempo não passa; ele fica. Quem passa somos nós. Imagine uma parede de granito: imóvel, impassível. Agora, a pele que se esfola na tentativa de atravessá-la. A dor não é do tempo; é do atrito.

E o passado, então? Poupe-me a versão dócil, arquivada em caixas de sapato. O passado é um organismo que respira. Às três da manhã, ele cutuca a consciência e exige explicações. Lateja como queimadura antiga: você jura que cicatrizou, mas a vermelhidão insiste. Alceu Amoroso Lima, em “Idade, Sexo e Tempo“, não fez rodeios; levou a luz até o porão e mostrou a poeira no ar. O passado recusa certidão de óbito; seu estado civil é o de “presente disfarçado”.

E para onde, afinal, pensamos que vamos? A pergunta é um velho hábito de família; o embaraço, sempre novo. Inventamos mapas, juramos que a bússola aponta para um norte, batizamos nossas ilusões com letras gregas. Construímos corredores com santos no fundo, só para existir um “lá” que nos receba. Mas e se não houver final triunfal? E se a vida for apenas uma febre lúcida, pedindo sentido enquanto treme de medo de doer?

Perguntas e respostas

A pergunta que não cala: “Então, nada importa?” E a resposta que deveria chocar: “Importa, sim. Importa escolher a insurgência.”

“Insurgência contra o quê?”, você pergunta, já desconfiado. Contra a docilidade que chamamos de “paz”. Contra a polidez que esconde desistências. Contra a unanimidade confortável – aquela que, na genialidade rodriguiana, é sempre burra – e que embrulha a covardia em bom-mocismo.

É aqui que entra aquele professor que não risca o quadro por obrigação, mas por combustão. John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, fez o que o manual proíbe: lembrou que poesia não é adereço, é oxigênio. “Oh, Capitão! Meu Capitão!” não era decoração adolescente; era técnica de libertação. Subir na mesa altera a perspectiva. A mesa vira um mirante provisório. De baixo, o mundo obedece; de cima, o mundo responde. A rotina prefere o ângulo que não afronta; a vida, autêntica, exige que se dê um passo fora da fila.

Só sei que nada sei

Sejamos brutalmente diretos, pois só a brutalidade pode ser caridosa: quantas biografias aceitam morrer em prestações porque temem a desobediência íntima?

Admiramos a coragem de cruzar oceanos, mas fugimos da coragem de cruzar a própria covardia. É mais cômodo interpretar um papel coadjuvante na história que leva o nosso nome. Dá menos trabalho, rende aplausos, economiza inimizades. É, no fundo, uma forma educada de desistir.

“E a transcendência?”, alguém ainda pergunta, esperando uma fuga. 

Existe. Mas não como sobremesa esotérica. Ela surge quando você percebe que seu desamparo é parente do cansaço do desconhecido no ônibus. Ali, no susto de se reconhecer no outro, nasce uma fraternidade áspera: sem efeitos especiais, sem santinhos no bolso. Você, eu, o outro: a mesma matéria de medo e esperança. O resto é verniz para selfie.

Falhar é preciso

Não proponho anarquia emotiva; proponho insubmissão inteligente. Troque a docilidade por disciplina de combate. Examine suas certezas com faca e garfo, no método maiêutico: interrogue-as até que revelem sua verdade ou sua fraqueza.

Teste seus amores fora do horário comercial. Desconfie das virtudes que precisam de platéia. Fuja das unanimidades bem-vestidas; são atalhos para a mediocridade. A crítica socrática não é hobby acadêmico; é higiene da alma. Melhor uma pergunta que incomoda do que uma certeza que emburrece.

“E se eu errar?”

Você vai errar. É inevitável. Desistir é que é opcional. A vida é um rascunho à caneta: não há tecla “voltar”. Quem espera segurança para começar já começou a aposentar o próprio destino. Quem terceiriza sua coragem para gurus, algoritmos ou slogans vira mero figurante na comédia de costumes de sua época.

Repita para si mesmo

Resta o essencial: o que você fará entre o primeiro fôlego e o último suspiro? Vai administrar danos com bons modos? Vai colecionar diplomas de comportamento?

Ou vai cometer a pequena heresia de subir na sua própria mesa – perdão, sem mesa: suba numa cadeira, num degrau, num tijolo; qualquer ponto que desloque o olhar e ver o mesmo de outro jeito? Há risco de ofender o senso comum. Haverá, também, a chance límpida de um reencontro.

Guarde três lembretes. Primeiro: com Alceu, aceite que o passado não se aposenta; conviva, negocie, aprenda, em vez de arquivar. Segundo: com Keating, trate a mesa como manifesto e a leitura em voz alta como musculação da liberdade. Terceiro: com você mesmo, recuse a engrenagem quando ela pedir anestesia como senha de entrada.

Faça-se um favor. Hoje, escolha um poema que você jurou não entender. Leia-o em voz alta. Leia de novo, tropeçando, sem vergonha. Depois, desça do seu mirante improvisado e siga. Amanhã, repita. Não por fetiche, mas por higiene do olhar. O tempo não “passa”; ele persiste. Que a sua teimosia persista junto, sem pedir licença e – principalmente – sem pedir desculpas.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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