A pedra e o espelho: reflexões sobre culpa e perdão

A verdadeira justiça humana começa no instante em que percebemos que somos feitos da mesma argila que o condenado
Joia
Foto: Câmara dos Deputados/Divulgação

A culpa não confessada é um inquilino ruidoso que habita os porões da nossa consciência, cobrando um aluguel que pagamos com o ódio direcionado ao próximo. No teatro da existência, todos carregamos um cadáver no armário e, para não sentirmos o cheiro da nossa própria decomposição moral, apontamos o dedo para o primeiro escândalo que cruza o nosso caminho. A psicologia do acusador é, em última análise, a fuga desesperada de quem não suporta o encontro com o próprio reflexo no espelho da verdade.

Quando aquela mulher, a quem a tradição deu o nome de Madalena, foi arrastada para o centro do círculo, ela não era apenas uma ré de adultério. Ela era o depósito de todos os desejos sufocados por aqueles homens. Cada pedra segurada com força continha o peso de um desejo proibido ou de uma mentira bem contada à mesa de jantar. Por que a condenação do outro nos traz um alívio tão imediato e quase físico? Porque enquanto ela sangra sob o julgamento, nós nos sentimos temporariamente lavados da nossa própria imundície.

O homem que se abaixou diante da fúria coletiva não era um juiz de tribunais gélidos, mas um profundo conhecedor das entranhas humanas. Ao escrever no chão, ele não redigia sentenças, mas talvez estivesse catalogando os pecados não confessados de cada carrasco ali presente. O papel dele ali não era o de validar a lei que mata, mas o de expor a hipocrisia que a sustenta. A misericórdia não é a negação do erro, é a percepção de que ninguém tem autoridade moral para ser o carrasco da fragilidade alheia.

Nunca atire a primeira pedra

Qual de nós nunca sentiu a volúpia secreta de ver alguém ser destruído em praça pública? O questionamento dele não foi jurídico, foi clínico. Ele forçou cada homem a descer até o porão da própria alma e confrontar o seu próprio monstro. O silêncio que se seguiu não foi de arrependimento, mas de pânico, pois ali ficou provado que a diferença entre o santo e o pecador é apenas uma questão de oportunidade e de sombra. Quando a pedra cai no chão, ela faz o barulho de uma máscara que se espatifa.

A culpa que não se confessa apodrece o caráter e se transforma em agressividade. Aqueles que hoje destilam palavras como navalhas nas redes sociais são os herdeiros diretos daqueles que cercaram Madalena. A obsessão em purificar o mundo através da aniquilação do outro é o sintoma mais claro de uma alma que se recusa a olhar para as próprias feridas. Por que você precisa tanto que o outro seja culpado para que você se sinta justo?

Aquele que foi misericordioso não ofereceu uma absolvição barata, mas uma chance de recomeço baseada na honestidade. Quando ele perguntou onde estavam os acusadores, ele estava ensinando que o julgamento morre quando a plateia desaparece. Sem o espetáculo da punição, o ódio perde a sua função de narcótico. A misericórdia é o único remédio capaz de interromper o ciclo da projeção, onde jogamos no outro o lixo que não temos coragem de recolher em nós mesmos.

De frente para o espelho

A verdadeira justiça humana começa no instante em que percebemos que somos feitos da mesma argila que o condenado. O dedo que aponta é movido pelo mesmo sangue que irriga a mão que, na calada da noite, comete o seu próprio adultério espiritual. Quem busca a redenção através da pedra está condenado a viver em um mundo de vidraças quebradas e corações de granito.

O que você fará com o segredo que o assombra quando a luz da consciência bater no seu rosto? Continuará a buscar o próximo culpado para distrair o seu próprio remorso ou terá a coragem de largar a pedra e assumir a sua condição de mendigo de perdão? O único julgamento que realmente importa é aquele que fazemos em silêncio, diante do único juiz que conhece cada linha que escrevemos no chão da nossa própria história.

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