A morte de Oscar Schmidt não é só a perda de um atleta. É um desses raros momentos em que o país é obrigado a lembrar do que já foi capaz de admirar e, talvez mais incômodo, do que anda escolhendo não admirar.
Porque o problema nunca foi falta de ídolos. É distração.
É lugar comum que, hoje, o brasileiro médio conhece melhor os nomes do Supremo Tribunal Federal do que os atletas que vestem a camisa da seleção. Sabe escalar ministro, mas não sabe escalar o time do Ancelotti.
É sobre o tipo de referência que ocupa a conversa cotidiana. E aí Oscar aparece.
Não como exceção deslocada, mas como lembrança de um tempo em que o olhar parecia melhor ajustado.
Disciplina sempre existiu por aqui. Em vários. Ele nunca esteve sozinho nisso. O que havia nele era outra coisa, mais difícil de nomear.
Uma combinação que não fazia esforço para parecer grande. Porque, no papel, tudo nele pedia grandeza.
Mais de 49 mil pontos. Recordes empilhados. Hall da Fama do Basquete. Uma carreira que permitiria qualquer tipo de vaidade.
Mas bastava ouvi-lo para perceber o desconforto com qualquer vaidade. O incômodo era específico. O apelido “mão santa”. Nunca gostou. Não porque rejeitasse o reconhecimento, mas porque aquilo empurrava tudo para o lugar errado.
Era mais fácil chamá-lo de fenômeno do que aceitar que ele construiu aquilo tudo no braço. Como se fosse milagre. E ele sabia que não era.
E mesmo assim, ele nunca vestiu a grandeza que o cercava.
Havia sempre um sorriso, uma risada, uma leveza quase infantil, uma alegria de quem parecia não levar muito a sério o próprio tamanho. Chorava fácil. Falava da família, de Deus, da vida, sem cerimônia. Um homem inteiro, sem blindagem.
Talvez seja por isso que a ausência dele expõe mais do que deveria. Fica essa sensação incômoda de que o Brasil não perdeu só um grande nome.
Perdeu, mais uma vez, a chance de prestar atenção no exemplo enquanto ele ainda estava aqui.
Eu nasci no ano do Pan-American Games 1987. Não vi. Só ouvi. E ouvi como se fosse mais do que um jogo. Como se fosse uma medida de caráter.
Oscar recusou a NBA para jogar pela seleção. Um gesto que hoje parece distante, quase improvável. Não porque seja impossível, mas porque exige um tipo de prioridade que deixou de ser comum.
Toda nação, no fundo, acaba se organizando a partir dos exemplos que escolhe reconhecer.
Num ambiente institucional cada vez mais desgastado, onde o mau exemplo vindo de cima já não organiza absolutamente nada, figuras como Oscar acabam fazendo falta além do esporte. Não porque resolvam problemas. Mas porque indicam direção.
E direção anda em falta. A morte dele não cria esse vazio. Ela só ilumina. E o que aparece não anima.