Em 1993, mudei-me para Belo Horizonte para entrar na universidade. Naquele mesmo ano, nascia o Jota Quest. Eu ainda não sabia, mas aquela banda cresceria junto com uma parte da minha vida.
Há bandas que conseguem fazer mais do que canções. Elas criam trilhas sonoras para a nossa vida, captam um momento coletivo e traduzem, muitas vezes antes de nós mesmos, aquilo que uma geração estava sentindo. O Jota Quest pertence a esse grupo.
Em meados dos anos 1990, o primeiro show que assisti na vida foi do Jota Quest, em Cabo Frio. Eu vinha do seminário e ainda conhecia pouco o mundo secular. Talvez por isso aquela experiência tenha ficado marcada não apenas como espetáculo musical, mas como uma iniciação: a descoberta de um país mais livre, mais urbano, mais sonoro, mais corporal.
Há artistas que fazem sucesso. Outros atravessam a biografia íntima das pessoas. Flau pertence a essa segunda categoria. Quando o encontro, não encontro apenas o vocalista de uma das bandas mais populares do Brasil. Encontro também uma parte da minha própria vida no mundo contemporâneo, revisitada através da música.
Rogério nasceu em Alfenas, no sul de Minas Gerais, em 25 de abril de 1972. À frente do Jota Quest, formado em Belo Horizonte em 1993, tornou-se uma das vozes mais reconhecíveis do pop brasileiro. Mas sua obra pode ser lida para além do êxito popular. Ela revela uma dimensão contemporânea da mineiridade.
Flausino não canta Minas como tema. Canta Minas como maneira de existir.
Há em sua voz, em seu sotaque, em seu mineirês e na forma como se relaciona com o público uma compreensão muito mineira da vida. Não regionalista. Não folclórica. Mas sensível. Uma mineiridade que aparece menos como paisagem e mais como temperatura humana.
A voz de Flau nas canções do Jota Quest carrega uma contradição muito mineira: é solar sem ser rasa, popular sem perder delicadeza, urbana sem apagar o interior, contemporânea sem romper com a permanência dos vínculos. Há nisso algo de barroco mineiro, entendido não apenas como forma artística, mas como arte de conviver com tensões: luz e sombra, alegria e melancolia, festa e pensamento, movimento e permanência.
O barroco mineiro sempre soube que a luz precisa da sombra para existir. Talvez por isso a alegria do Jota Quest nunca seja simples euforia. Ela carrega travessia. Carrega afeto. Carrega uma espécie de confiança humana que resiste ao cinismo.
Isso aparece em canções como “Dias Melhores”, “Só Hoje”, “Amor Maior”, “Do Seu Lado”, “O Sol”, “Dentro de um Abraço” e “Daqui Só Se Leva o Amor”. E também nas músicas lançadas durante a pandemia, como “Guerra e Paz”, “A Voz do Coração”, com Rael, e “Imprevisível”. O próprio vocabulário dessas canções revela uma visão de mundo: conflito e reconciliação, escuta interior, incerteza, permanência e busca de sentido.
Mesmo quando interpreta “Além do Horizonte”, clássico de Roberto e Erasmo Carlos, o Jota Quest parece reafirmar essa vocação da travessia: a busca por outro lugar que é, ao mesmo tempo, geográfico e interior.
A palavra correta pode ser espiritualidade — desde que entendida não como doutrina religiosa, mas como compreensão abrangente da existência humana. Há nas músicas do Jota Quest uma tentativa persistente de produzir encontro num tempo marcado pela fragmentação, pela velocidade e pelo esgotamento emocional.
E isso é profundamente mineiro.
Minas produziu uma cultura em que a vida frequentemente se organiza em torno da conversa, da hospitalidade, da escuta e da permanência dos vínculos. Uma cultura menos orientada pela exibição e mais pela construção silenciosa das relações humanas. Há algo dessa cosmologia afetiva na música de Flausino.
Até o nome da banda dialoga com isso. “Quest” significa busca, jornada, procura, travessia. E essa é a experiência que atravessa grande parte de suas canções: continuar humano enquanto se atravessa o tempo.
O Jota Quest transformou em linguagem pop uma ética mineira da travessia: seguir adiante sem perder a delicadeza, a amizade, o amor e a esperança.
Minas Gerais produziu, ao longo do tempo, menos uma escola estética única do que uma filosofia sensível da existência. Em Guimarães Rosa, a vida aparece como travessia. Em Drummond, como interioridade e pensamento. Em Adélia Prado, como revelação do cotidiano. No Clube da Esquina, como amizade transformada em música. Flau e o Jota Quest pertencem, a seu modo, a essa tradição mineira de compreender o mundo através do afeto, da convivência e da permanência humana.
Não se trata de comparar grandezas nem linguagens. Trata-se de reconhecer uma mesma intuição de Minas: o essencial raramente se apresenta de forma grandiosa. Ele aparece na conversa, no abraço, no amor, no caminho, no dia comum, na esperança insistente.
O pop também pode carregar filosofia.
Parte da força do Jota Quest vem exatamente disso: sua capacidade de transformar emoções ordinárias em experiências coletivas de pertencimento. Há canções da juventude que continuam funcionando décadas depois porque passaram a acompanhar casamentos, viagens, amizades, separações, reencontros, estradas e lutos. De algum modo, a banda foi se tornando companhia de vida.
A trajetória do grupo confirma essa permanência. Surgido na Belo Horizonte dos anos 1990, o Jota Quest nasceu misturando pop, soul, black music, funk e rock com naturalidade muito mineira. Não havia ali ansiedade cosmopolita nem desejo de negar as origens. Havia fluidez.
Talvez essa permanência também exista porque o Jota Quest nunca foi apenas a voz de Flau. Marco Túlio Lara, PJ, Paulinho Fonseca e Márcio Buzelin ajudaram a construir uma experiência rara de convivência artística duradoura — algo cada vez mais incomum num tempo marcado pela fragmentação.
A verdadeira contemporaneidade talvez esteja nisso: adaptar-se às transformações do tempo sem perder a própria essência.
O Jota Quest fez isso. Atravessou mudanças radicais da indústria musical — do CD ao streaming, da MTV às plataformas digitais, dos ginásios às lives — sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro de suas canções: o encontro humano.
Enquanto muitas bandas ficaram prisioneiras da nostalgia ou se dissolveram no excesso de ironia contemporânea, o Jota Quest permaneceu insistindo na delicadeza. Há algo quase contracultural nisso.
Há ainda encontros que ajudam a revelar a linhagem a que Flau pertence. Em “Desses Tantos Modos”, parceria do Jota Quest com Milton Nascimento, não se trata apenas de uma participação especial. É como se a música mineira, em sua dimensão mais consagrada, reconhecesse ali uma continuidade possível: outra linguagem, outro tempo, outro som, mas a mesma aposta no afeto como forma de permanência.
Também impressiona a capacidade de diálogo que Flau construiu ao longo da carreira. Sua trajetória atravessa gerações, estilos e públicos diferentes sem perder identidade. Há nele uma combinação rara de carisma popular e interioridade mineira. O grande palco nunca eliminou o sotaque, o acolhimento, o mineirês, a sensação de proximidade.
Isso aparece nos shows. Em 2003, o Jota Quest gravou o “MTV Ao Vivo” na Praça do Papa, em Belo Horizonte, como se a consagração nacional precisasse retornar ao lugar de origem. Anos depois, a banda ocuparia o Palco Mundo do Rock in Rio. A turnê JOTA25 também parece um marco importante dessa travessia: sair de Minas, atravessar o Brasil e retornar a Belo Horizonte, na Esplanada do Mineirão, como quem reafirma que algumas jornadas só se completam quando voltam ao próprio chão.
O Jota Quest talvez seja uma das poucas bandas brasileiras que envelheceram junto com seu público sem perder vínculo emocional. O tempo passou, o país mudou, a música mudou, mas algo daquela energia afetiva permaneceu reconhecível.
Um dos concertos mais improváveis e mais bonitos que assisti aconteceu durante a pandemia: Jota Quest e Orquestra Ouro Preto, numa live beneficente na Sala Minas Gerais, apoiada pela ONU e pelo YouTube. Em meio ao isolamento e à suspensão do mundo, aquela apresentação revelou algo profundo sobre Minas. A música popular dialogando com a música de concerto sem hierarquia, sem artificialidade e sem esforço de legitimação. Como se houvesse entre elas uma mesma compreensão afetiva da existência.
Minas é esse território onde modernidade e interioridade conseguem conviver sem se destruir.
O estado que produziu Aleijadinho e Guimarães Rosa também produziu Clube da Esquina, Skank e Jota Quest. Em Minas, tradição e contemporaneidade frequentemente caminham juntas porque compartilham uma mesma gramática humana: delicadeza, convivência, travessia, amizade e esperança.
Flau pertence a essa linhagem.
Sua importância não está apenas nos discos vendidos, nos festivais, nos palcos lotados ou nas músicas que marcaram gerações. Está também no fato de ter dado voz a uma sensibilidade coletiva. E, de algum modo, deu voz também a mim: ao jovem que chegou a Belo Horizonte em 1993, ao adulto que atravessou décadas com aquelas canções por perto, ao mineiro que reconhece nelas uma forma de permanecer no mundo sem perder o afeto.
Alguns artistas fazem sucesso. Outros ajudam uma geração a atravessar o mundo sem perder a ternura. Flau pertence a essa segunda categoria.
Com colaboração de Rodrigo Câmara