O eco do nove: a astronomia da falta

Foto: Pexels / Thiago José Amaral

De noite, olho para o céu e me dá um negócio. Não é ideia, não é palavra. É uma coisa que não veio. Algo que ficou entalado atrás da última estrela, esperando. E nós aqui. Com essa sensação besta de que faltou dizer alguma coisa.

Tomei café com a notícia: tem gente procurando um planeta que ninguém viu. Planeta Nove, apelidaram. Os astrônomos juram que ele está lá. Juram baseados em quê? Em corpos distantes que se mexem errado. Umas órbitas que não fecham. Um desvio. Um peso escondido empurrando tudo. A ausência que desorganiza. Isso existe?

Me deu um estalo. Lembrei do seu Salvador. Do seu Manuel. Do Mauro Pinto. Homens da Bernardo Mascarenhas com a Vieira Lima, ali entre o Bairu e a Fábrica, bairros de Juiz de Fora da minha infância. Gente que não tinha placa nenhuma. Mas tinha peso. Quando um deles não aparecia na calçada — ai, a rua desandava. A rua sentia. Ficava meio sem chão, meio sem porquê. A ausência de um homem muda o quarteirão inteiro. A presença dele ninguém notava; a falta, sim. A falta grita.

Os cientistas estão atrás disso. Atrás dos efeitos de uma coisa que não se vê.

Além de Netuno, tem uns objetos gelados que vagam torto. Sedna e outros. Ninguém explica direito. Para alguns, é um planeta gigante escondido no escuro. Cinco Terras. Dez Terras. Outros acham que é algo menor, tímido. Tem um brasileiro no Japão que aposta numa coisinha discreta. Eu gosto dessa ideia. De repente, a gente passa a vida caçando gigante e topa com um reflexo de nós mesmos. Miúdo. Meio encolhido.

O homem acredita no que não vê. Sempre. Acredita no amor pelo buraco que ele deixa quando some. Acredita na fé porque a ordem das coisas comuns é tão absurda que só sendo milagre. Astrônomo, no fundo, é isso: encosta o ouvido no peito escuro do céu e espera um batimento. E se não bater? E se não houver coração nenhum?

Pode ser que não haja nada. Pode ser que a gente invente padrão porque precisa. Porque não aguenta um universo indiferente. Procuramos desenho no pó. A poeira se mexe e a gente chama de destino. A gente olha tanto pro escuro que começa a ver coisa. Mas quem piscou fomos nós. A gente pisca e bota a culpa no abismo.

Vasculharam quase tudo. Pan-STARRS, Vera Rubin, outros olhos. Nada.

Sobrou um pedaço. Uns 22% de céu que ninguém espiou direito. E ali a esperança faz ninho. A esperança é isso: um bicho que se alimenta de canto escuro. Quanto menos se vê, mais se inventa. 22% bastam. A gente precisa de um resto.

Mas a verdade? A verdade talvez não esteja lá fora. A verdade talvez esteja aqui dentro, nessa órbita que nunca fecha. A gente vive com um nono planeta dentro do peito. Um amor nono. Uma conta nona. Um mês que sobra e estoura. O nove desarruma o oito. Sempre. O nove é o que sobra. O que não encaixa. O que volta, mesmo que ninguém chame.

O planeta pode nunca aparecer. Pode ter sido expulso por Júpiter, espatifado numa trombada cósmica. Pode ser só um erro de conta, um delírio de número. Uma hipótese que a gente veste porque o acaso é feio demais. Pode ser só um buraco negro do tamanho de uma laranja. Ou pode existir só na forma da falta. A falta que a gente sente.

E a gente continua olhando. Sempre.

Debaixo desse céu incompleto. Procurando um nome que não vem. Um planeta na beira do olho. Uma pergunta atravessada.

Talvez o universo seja só isso. Um escuro onde o homem inventa planetas para não admitir o tamanho da própria falta. E se for? E se a falta for o único planeta que realmente existe?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

Leia também:

O eco do nove: a astronomia da falta

Por que tem incômodo que incomoda mais?

Moraes cobra PCMG por atraso no envio de exame de condenada pelo 8/1; ela foi presa durante culto

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse