O que Gilmar Mendes alega para pedir a inclusão de Zema no inquérito das fake news

Ministro afirma que vídeo com bonecos publicado pelo pré-candidato “vilipendia” a honra do STF e a sua própria imagem
O ministro do STF Gilmar Mendes e o ex-governador de Minas Romeu Zema
O ministro Gilmar Mendes acionou o inquérito das fake news após vídeo com bonecos publicado por Zema nas redes sociais. Fotos: Gustavo Moreno/STF e Gil Leonardi/Imprensa MG

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) “vilipendiou” a honra e a imagem da Corte ao apresentar uma notícia-crime, na qual pede a inclusão do político no inquérito das fake news.

A informação foi revelada pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. O pedido de Gilmar foi encaminhado ao relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes, que solicitou parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Na peça, o decano do STF menciona um vídeo publicado pelo pré-candidato à Presidência da República nas redes sociais. Na gravação, bonecos encenam um diálogo entre o próprio ministro e o colega de Corte Dias Toffoli, com uma suposta troca de favores entre os dois.

O fantoche de Toffoli pede ao de Gilmar a suspensão da quebra de seus sigilos, medida determinada pela CPI do Crime Organizado, do Senado. O boneco do magistrado atende ao pedido e cobra, em troca, “só uma cortesia lá do teu resort que tá pago. Tô a fim de dar uma jogadinha essa semana”.

A fala faz referência ao resort Tayayá, no interior do Paraná, que pertencia a Toffoli e foi adquirido por um fundo ligado ao empresário Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso no âmbito das investigações sobre o caso Master. Para Gilmar, o conteúdo “vilipendia não apenas a honra e a imagem” do STF, mas também a sua própria.

O ministro afirmou ainda que o vídeo se vale de “sofisticada edição profissional e de avançados mecanismos de ‘deep fake'” para emular vozes de ministros da Corte em um diálogo que, segundo ele, além de inexistente, tem como objetivo “vulnerar a higidez desta instituição da República” para fins de promoção pessoal.

O decano destacou que o vídeo foi publicado nas redes do ex-governador, que soma 2,3 milhões de seguidores no Instagram e 570 mil no X, e que a republicação por veículos de imprensa fez com que o conteúdo atingisse “elevadíssimo número de visualizações”.

O inquérito

Aberto em março de 2019 pelo STF, o inquérito das fake news investiga a disseminação de informações falsas e ameaças dirigidas à Corte e a seus ministros. Sob sigilo, a apuração já alcançou empresários, políticos e usuários de redes sociais ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O caso, sob relatoria de Alexandre de Moraes, também passou a centralizar procedimentos derivados da investigação, como ações relacionadas aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e à tentativa de golpe de Estado.

Outros embates

Esse é o segundo episódio que envolve os dois num intervalo de menos de uma semana. Como mostrou O Fator, Gilmar já havia classificado de “irônica” a postura do ex-governador, em uma publicação na última quarta-feira (15).

Para rebater os ataques de Zema contra o Supremo, o ministro recorreu a uma nota técnica da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) para lembrar que Minas, sob a gestão Zema, acionou repetidas vezes o STF para adiar o pagamento de parcelas bilionárias da dívida do estado com a União.

O embate entre os dois teve início depois que Zema, em encontro com lideranças na Associação Comercial de São Paulo, na segunda-feira (13), declarou que os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes “não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”.

O ex-governador acrescentou que o STF era um lugar de “certa confiança”, mas que teria “aflorado toda a podridão que está lá dentro”. Na resposta, Gilmar afirmou que o ex-governador trata o STF como “escudo fiscal e contábil” quando convém, mas o classifica como “vilão” quando a Corte decide conforme a Constituição, e não conforme a “conveniência de ocasião”.

A nota técnica citada por Gilmar, elaborada pela STN, reconstrói a trajetória da dívida refinanciada de Minas e registra que o estado ficou 21 meses sem pagar parcelas à União, por meio de decisões obtidas no próprio STF. O saldo devedor de Minas em janeiro de 2026 era de R$ 182 bilhões, com prestação mensal de R$ 101 milhões.

Em sessão plenária do STF em 4 de março, o decano já havia chamado de “chocante” o fato de um governador que, segundo ele, levou o estado a uma “debacle econômica” atacar o mesmo tribunal que garantiu a sobrevivência fiscal de Minas. “Pai, eles não sabem o que fazem”, disse o ministro, citando passagem bíblica.

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