A indefinição do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) sobre uma eventual candidatura ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026 já começa a produzir efeitos práticos no campo municipalista.
Prefeitos, vice-prefeitos e pré-candidatos a deputado federal e estadual saíram frustrados de eventos realizados na última semana em Patos de Minas, no Alto Paranaíba, que acabaram sem indicativo claro do senador sobre seus planos eleitorais.
Ou melhor, com a insistência em dar sinais ambíguos. “Cleitinho, Falcão. Falcão, Cleitinho. Será, Falcão? Que será, sô? A voz do povo é a voz de Deus. Quem manda é o povo. Nenhum partido, nenhum político vai mandar em mim. Quem vai mandar é o povo.”
“Eu não estou à venda. Nunca estarei à venda. O meu propósito de entrar na política é pelo povo, para o povo e com o povo, sempre. Pode ter certeza disso e com o Falcão agora, gente”, disse na noite de sábado (6) em uma festa de São João na cidade.
O chamamento para os eventos havia sido feito, em parte, pelo ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM) Luís Eduardo Falcão, que mobilizou lideranças municipalistas para participar das festividades.
O futuro a Cleitinho pertence?
A expectativa era de que Cleitinho aproveitasse a ocasião para ao menos sinalizar uma direção. O futuro político do próprio Falcão depende, em parte, da decisão do senador. Para o municipalista, há muitos caminhos e pouca certeza.
Se Cleitinho disputar o governo, o Republicanos avalia Falcão para vice ou coordenador da campanha. Se o senador desistir, o ex-prefeito pode ser candidato ao Executivo pelo partido ou assumir outros projetos políticos, inclusive no Legislativo.
A mesma percepção se repetiu durante a Festa Nacional do Milho (Fenamilho), realizada em Patos de Minas entre 29 de maio e 7 de junho, com chamamento de Falcão. Aliados esperavam participação ativa do parlamentar.
Cleitinho, por sua vez, fez uma passagem rápida pela Fenamilho na sexta-feira (5) para conversar com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que tem o parlamentar mineiro como plano A para encabeçar seu palanque regional em Minas.
Para pré-candidatos a deputado federal e estadual pelo Republicanos e por siglas aliadas, a espera também tem custo. A pré-campanha é vista como decisiva para a construção de alianças e a organização do apoio, e a falta de definição deixa esse trabalho em suspenso.
O peso da direção nacional
A declaração de Cleitinho ao jornal O Globo, em que questionou confiar “100%” no compromisso do presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira (SP), de lhe garantir a legenda, também reverbera internamente no Republicanos.
Interlocutores da sigla avaliam que a fala, associada a críticas do senador à chamada “velha política”, pode ter um custo para o próprio Falcão. O ex-prefeito chegou ao Republicanos por influência do deputado federal Euclydes Petersen, presidente estadual da legenda em Minas Gerais e figura próxima de Pereira.
O movimento de Cleitinho contra a direção nacional coloca Falcão em posição delicada: ele precisa do senador para ter viabilidade eleitoral, mas também depende da cúpula do partido.
O dilema, porém, não é só de Falcão. O próprio Republicanos, mesmo com Pereira incomodado com o vaivém do senador, tem interesse na figura de Cleitinho para garantir um bom desempenho nas eleições estaduais deste ano. Há também um cálculo sobre alianças com outras legendas na disputa pelo Executivo estadual.