Com Pacheco indeciso e Lula em silêncio, PT mineiro chega até o ‘plano F’ para o governo de MG

Partido se divide entre diferentes alas e estratégias enquanto aguarda definição de Lula sobre a sucessão mineira
Bancada do PT em Minas
Bancada do PT em Minas vive disputa interna sobre qual caminho o partido deve seguir na eleição de 2026. (Reprodução/Isabela Conzi/Rede PT)

A possibilidade de o senador Rodrigo Pacheco (PSB) ficar fora da disputa pelo governo de Minas Gerais nas eleições deste ano aprofundou a divisão interna no PT mineiro e ampliou o debate entre diferentes alas sobre qual caminho a legenda deve seguir no estado. O clima é de apreensão.

Pacheco ainda deve conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes de uma decisão final. Mas a declaração do presidente nacional do PT, Edinho Silva, de que o senador não será candidato acelerou as movimentações internas e ampliou o cenário de indefinição.

Dirigentes admitem que o PT vive hoje em compasso de espera. A avaliação é de que não existe, oficialmente, um nome consolidado como “plano B” neste momento e que boa parte das articulações em torno de quadros específicos vem mais de grupos isolados e correntes internas do que de uma construção formalizada pela direção estadual.

Ao mesmo tempo, integrantes da sigla reconhecem que o calendário eleitoral começa a pressionar as definições internas. Há defesa por uma definição até o fim deste mês para evitar atraso na montagem das alianças, na formação de palanque e nas negociações nacionais que envolvem o estado.

Como O Fator mostrou, apesar disso, setores do PT e aliados do senador ainda acreditam que uma conversa direta entre Lula e Rodrigo Pacheco pode alterar o cenário atual. Interlocutores petistas dizem que o presidente ainda é visto como um dos principais articuladores políticos do país e pode convencer o senador a permanecer no projeto eleitoral.

O que espera o PT de Minas

À distância das negociações, tocadas pessoalmente por Lula e Edinho Silva junto com a cúpula do PSB e Pacheco, o entendimento no PT mineiro é de que uma eventual sinalização sobre o fim das tratativas com o senador deve partir diretamente do presidente da República, e não do dirigente nacional.

Isso porque foi Lula quem primeiro encampou a ideia de ter o ex-presidente do Congresso Nacional como líder de seu palanque em Minas. Lideranças do PT também relatam que não veem possibilidade de construir um palanque competitivo no estado tendo apenas a candidatura da ex-prefeita de Contagem Marília Campos ao Senado.

A análise é de que será necessário apresentar um nome para a disputa ao governo, independentemente de qual grupo prevaleça. Sem um posicionamento claro de Lula sobre o caminho a seguir, O Fator apurou que o PT mineiro hoje se divide em pelo menos seis correntes com avaliações distintas sobre o cenário eleitoral de 2026.

O grupo que queria Marília Campos no governo

O primeiro bloco trabalhou nos últimos meses para tentar construir a candidatura de Marília Campos ao comando do estado. Essa ala é formada principalmente por nomes históricos e setores do PT que defendiam uma candidatura feminina como estratégia para fortalecer a presença eleitoral da legenda e reorganizar o campo da esquerda mineira.

Internamente, a avaliação era de que Marília poderia ocupar um espaço competitivo e representar um nome capaz de unificar parte da base petista. Mas foi a própria ex-prefeita que desmontou essa construção. Ela já comunicou a diferentes lideranças petistas de que deseja manter seu projeto político voltado para o Senado.

O setor que aposta em Kalil

Também há uma corrente que defende uma candidatura competitiva fora do PT. A estratégia passa por manter Marília Campos na disputa ao Senado e buscar um nome externo para encabeçar a chapa ao governo de Minas. Nessa ala, o principal nome é o do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT).

Aliados argumentam que Kalil ainda teria potencial eleitoral para enfrentar a direita em território mineiro e avaliam que o PT precisaria ampliar alianças para chegar competitivo em outubro. O entrave é a relação desgastada entre Kalil e o PT desde o rompimento após as eleições de 2022, quando o ex-prefeito perdeu a disputa pelo governo.

Segundo relatos feitos a dirigentes petistas, o ex-prefeito já deixou claro que não pretende abrir diálogo com o partido neste momento e que uma eventual aproximação só poderia ocorrer em um segundo turno. A resistência é recíproca: do lado de Lula, também há restrições ao nome do pedetista em razão das rusgas acumuladas desde 2022.

A aposta em Josué

Outro caminho discutido dentro do núcleo político do governo federal envolve o empresário Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar. Hoje filiado ao PSB, Josué, que presidiu a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), é visto por setores do Planalto como uma alternativa capaz de construir uma candidatura de perfil moderado.

Interlocutores ligados ao presidente afirmam que o empresário desperta simpatia no núcleo político de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e ainda é tratado como alternativa para uma eventual frente ampla em Minas. Apesar disso, dirigentes do PT reconhecem que as conversas em torno do empresário seguem em estágio inicial.

O ex-procurador

Setores do PSB também mantêm discussões abertas sobre uma candidatura de perfil institucional no estado, com o ex-procurador-geral de Justiça de Minas Jarbas Soares Júnior. A avaliação é de que ele poderia representar uma alternativa de baixa rejeição e perfil moderado diante de um quadro polarizado.

Ainda assim, integrantes do PT admitem que a possibilidade permanece distante e depende de articulações nacionais conduzidas em Brasília. O ex-procurador já se colocou à disposição para a disputa, seja como cabeça de chapa ou até mesmo ocupando o papel de vice numa aliança.

O PV insiste em Gabriel Azevedo

Além das divisões internas do PT, a federação partidária enfrenta divergências sobre quem defenderá em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país. No PV, dirigentes atuam em prol do ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (MDB).

Aliados argumentam que ele poderia ampliar o diálogo político da federação no estado, representar renovação e construir pontes fora do campo tradicional da esquerda. A ala do PT que controla o diretório estadual, porém, resiste ao nome do ex-vereador, em razão do histórico político de Gabriel, que gera desconfiança no grupo.

A ala que defende candidatura própria

Por último, há um grupo formado por dirigentes e parlamentares que defendem que o PT abandone a busca por nomes externos e volte a disputar o governo de Minas com candidatura própria. O argumento é que o palanque de Lula no estado não deve ser apenas acessório, mas refletir o histórico político de aliados que estiveram ao lado do petista.

Essa corrente entende que a sigla perdeu protagonismo político em Minas nos últimos anos ao depender excessivamente de alianças externas e candidaturas construídas fora de seus quadros. A avaliação é de que o partido ainda possui estrutura, capilaridade política, militância organizada e densidade eleitoral suficientes para sustentar um projeto próprio.

Dentro dessa ala, os nomes citados são os do deputado federal Reginaldo Lopes e de Nilmário Miranda. Ambos são tratados como quadros históricos da legenda, ligados diretamente à trajetória nacional do PT e próximos da construção política liderada por Lula ao longo das últimas décadas.

Apesar disso, integrantes da própria legenda reconhecem que a defesa ocorre de forma individual e pulverizada, sem uma posição consolidada da direção estadual ou nacional. A interlocutores, Lula também já revelou a preferência por “sacrificar” um quadro interno do que se aliar a uma figura muito oposta na corrida eleitoral.

Lula centraliza decisões e mantém partido em espera

Enquanto as diferentes alas se movimentam internamente, dirigentes do PT afirmam que a definição sobre Minas depende diretamente de Lula. Integrantes da legenda também admitem que a direção estadual perdeu capacidade de coordenar uma construção unificada enquanto diferentes correntes passaram a atuar de forma independente.

Ana Mendonça é jornalista e estudante de Ciência Política, ex-colunista do Estado de Minas, onde cobriu os bastidores da política mineira por 8 anos. Em 2024, foi reconhecida no 30 Under 30 da International News Media Association.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

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