A nova convocação de Neymar para a Seleção Brasileira de Futebol, em um contexto recente dele com posturas polêmicas, dentro e fora de campo, irregularidade técnica e competitiva, reacende um velho debate nacional: até que ponto o futebol brasileiro tem sido impactado pelo capital simbólico?
A discussão ultrapassa o campo esportivo. Ela toca diretamente uma das estruturas mais profundas da formação social brasileira, aquela descrita por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. O episódio da convocação parece ilustrar, com precisão desconfortável, a persistência do país do “você sabe com quem está falando”, da personalização das instituições e da dificuldade histórica de separar relações pessoais de critérios técnicos.
No plano técnico, a pergunta é simples: Neymar merecia, neste momento, ser convocado para a seleção? O atacante segue sendo um dos jogadores mais talentosos de sua geração, mas o passado não determina o futuro. Convocações deveriam refletir desempenho recente, ritmo competitivo, capacidade física, postura e contribuição ao coletivo. Quando esses critérios técnicos deixam de ser centrais, abre-se espaço para outro mecanismo: o peso simbólico do passado, uma marca personalística.
E é exatamente aí que o paralelo com Raízes do Brasil ganha força.
Ao analisar a formação do Estado brasileiro, Sérgio Buarque identificou a prevalência de uma cultura política fundada nas relações pessoais, no prestígio social e na lógica patrimonialista. Em vez de instituições impessoais funcionando por regras técnicas, o Brasil teria consolidado uma tradição em que o indivíduo “importante” frequentemente se sobrepõe a tudo e a todos. A célebre expressão “você sabe com quem está falando?”, popularizada posteriormente como síntese sociológica dessa mentalidade, traduz a tentativa de substituir critérios objetivos por capital simbólico, como abordado por Pierre Bourdieu.
A convocação de Neymar parece dialogar com essa lógica.
Ela transmite a impressão de que há jogadores submetidos à avaliação técnica e outros cuja trajetória passada lhes garante uma espécie de garantia institucional futura. Não importa tanto o presente; importa quem o atleta foi. O nome se converte em credencial autossuficiente. A camisa da seleção, então, deixa de ser exclusivamente espaço de desempenho para também funcionar como território de reverência à celebridade, o que conflita com o esporte de alto rendimento.
Esse fenômeno não é exclusivo do futebol. Ele atravessa a política, o empresariado, e a vida social brasileira, privada e pública. Em muitos ambientes nacionais, currículos competem com sobrenomes; evidências disputam espaço com influência; mérito frequentemente é relativizado pela força das relações pessoais e do prestígio acumulado.
No futebol, contudo, o problema se torna particularmente simbólico porque a seleção brasileira tem no imaginário nacional a ideia do critério de que “faz parte da seleção quem está melhor”. Quando uma convocação parece privilegiar o capital simbólico do atleta, o que entra em crise não é apenas uma decisão esportiva, mas o reforço social de uma cultura enviesada.
Ainda no aspecto sociológico, o personalismo brasileiro produz enorme dificuldade de lidar com ciclos encerrados. O país frequentemente confunde respeito pela história com incapacidade de mudança e evolução. Ídolos deixam de ser avaliados pelo presente e passam a ocupar uma categoria quase aristocrática, na qual o passado legitima indefinidamente o espaço atual. A autoridade simbólica substitui a mudança e evolução.
Neymar talvez seja hoje menos um jogador convocado por desempenho — aliás, atuou em apenas 15 partidas até o momento em 2026 — e mais um personagem que a estrutura do futebol brasileiro teme abandonar. Sua presença atende interesses esportivos, comerciais, midiáticos, enfim, simbólico. Ele continua sendo uma marca global, um centro de atenção e um ativo econômico poderoso, mesmo que polêmico e com desempenho presente instável.
Sérgio Buarque escreveu que o brasileiro tende a resistir à impessoalidade institucional porque privilegia vínculos afetivos e relações de proximidade. O “homem cordial”, em sua interpretação clássica, não é necessariamente gentil; é alguém que opera a partir da esfera emocional, confundindo o público e o privado. No futebol brasileiro, isso frequentemente se traduz em escolhas carregadas de memória afetiva e idolatria.
A pergunta central, portanto, não é se Neymar foi um grande jogador, isso é indiscutível. A questão é outra: uma seleção nacional deve premiar história ou desempenho?
Se a resposta for “história”, assume-se explicitamente a lógica do privilégio do capital simbólico. Se a resposta for “desempenho”, então todo atleta, independentemente do seu nome ou sobrenome, precisa submeter-se aos mesmos critérios de desempenho. Isso é questão de gestão por competências.
Talvez o episódio revele que o futebol brasileiro continua sendo um dos retratos mais fiéis do país: uma sociedade desigual, que convive com velhas estruturas de prestígio, onde a competência frequentemente cede espaço à influência, e onde, mesmo diante das evidências, ainda ecoa, explícita ou silenciosamente, a velha pergunta nacional: “Você sabe com quem está falando?”