Suposto operador de ex-secretário de Educação de MG teria proposto inflar lucro e direcionar contrato; veja cronologia da investigação

Caso foi levado ao governo de Minas em dezembro de 2025; CGE instaurou investigação interna sobre a denúncia
O ex-secretário de Educação de MG, Rossieli Soares
Rossieli deixou o comando da secretaria em abril. Foto: Guilherme Bergamini/ALMG

Um suposto operador do então secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, teria sugerido a um fornecedor de materiais didáticos o aumento da margem de lucro e a associação a uma fundação pública em troca da vitoria em um certame e da consequente contratação. O empresário denunciou o caso ao governo estadual no fim de 2025, o que levou à abertura de investigação interna que culminou na exoneração de Rossieli em abril deste ano.

O Fator obteve um ofício do Executivo estadual detalhando a situação. Conforme o documento, o representante de uma empresa do setor educacional teria sido procurado por um interlocutor identificado como Fernando, que se apresentou como “operador” de Rossieli e estava baseado em Brasília (DF). Esse intermediário teria pedido detalhes sobre a margem de lucro de uma proposta de fornecimento de materiais didáticos para a rede estadual e sugerido que o percentual subisse de 15% para 37%, condicionando o êxito do negócio à associação do fornecedor a uma fundação de apoio universitário.

O empresário entendeu a proposta como uma tentativa de direcionar o contrato e decidiu procurar o governo mineiro. No fim de 2025, ele relatou o episódio ao secretário de Estado de Casa Civil, Luiz Otávio Gonçalves, e entregou documentos que mostrariam a intenção de usar uma fundação pública como intermediária na contratação de materiais didáticos sem licitação tradicional.

Após ouvir o fornecedor, o secretário de Casa Civil repassou as informações ao secretário‑geral do Estado, Marcel Dornas Beghini, responsável pela articulação interna do Executivo. Ambos concluíram que se tratava de uma denúncia com potencial impacto sobre o erário e decidiram registrá‑la formalmente. Em 13 de janeiro, eles assinaram um ofício endereçado à controladora‑geral do Estado, Marcela Dias, pedindo que o órgão instaurasse procedimento de apuração.

No ofício, os secretários relatam a abordagem do suposto operador, a orientação para inflar a margem de lucro e a participação da fundação, além de comentários do fornecedor sobre a forma de atuação de Rossieli em outros estados. Eles também mencionam um episódio em que, em reunião técnica na secretaria, o então titular da Educação teria reagido a questionamentos afirmando que “quem manda” na pasta é o próprio secretário.

A denúncia apontou que, em um primeiro momento, a compra de materiais didáticos para a rede estadual seria estruturada por meio de uma fundação de apoio universitária, por meio de uma proposta preliminar apresentada à Secretaria de Educação. Essa solução permitiria firmar o contrato sem licitação convencional, amparando‑se na figura da fundação pública para centralizar a contratação.

Internamente, a avaliação é de que essa foi a primeira tentativa de viabilizar a operação. Em determinado ponto do processo, porém, a própria secretaria teria orientado o fornecedor a não seguir adiante com a associação à fundação. Diante das dificuldades para avançar por essa via, o caminho escolhido acabou sendo outro: a adesão a uma ata de registro de preços já existente no Estado de São Paulo.

Contrato sem licitação e valores milionários

Em dezembro de 2025, a Secretaria de Educação assinou um contrato de R$ 348 milhões com a empresa Fazer Educação, sem licitação, para o fornecimento de livros às escolas da rede pública. O acordo foi firmado por meio de adesão à ata de registro de preços da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo, instrumento previsto em lei que permite a órgãos “caronistas” comprarem pelo mesmo preço registrado, sem abrir nova disputa.

Posteriormente, a pasta assinou um contrato complementar de R$ 49 milhões com um consórcio de empresas do setor, também com base em mecanismos que dispensam licitação própria. Parte dessas empresas já é investigada em outros estados por suspeitas de fraude em licitações de materiais didáticos, o que alimentou questionamentos sobre a política de compras conduzida sob a gestão de Rossieli.

No dia 9 de janeiro, antes mesmo do ofício formal, a controladora‑geral apresentou ao secretário‑geral do Estado um relatório inicial com informações ainda não conclusivas, mas suficientes para indicar a necessidade de aprofundar a apuração. Já na segunda etapa, em 27 de abril, a CGE concluiu um relatório mais robusto, com análises técnicas detalhadas, e enviado a Beghini e Luiz Otávio.

Pouco depois da entrega do relatório, o governador Mateus Simões (PSD) decidiu exonerar Rossieli Soares do comando da Secretaria de Educação. Em nota à imprensa, o Palácio Tiradentes fez questão de registrar que a saída não foi “em comum acordo”, como o ex‑secretário chegou a sugerir, mas motivada pelas investigações conduzidas pela Controladoria. O documento também informa que as conclusões preliminares já foram encaminhadas aos órgãos competentes, como Ministério Público e Polícia Federal.

O Fator procurou o secretário-geral Marcel Beghini para comentar os relatos. O secretário confirmou ser o servidor público denunciante que Marcela Dias mencionou durante a audiência pública da ALMG e apontou ter acionado a CGE, no dia 16 de dezembro, assim que teve acesso à denúncia levada pelo fornecedor. Beghini também disse ter decidido formalizar as informações sobre o caso após a Controladoria-Geral, em apuração inicial, apontar a plausabilidade da denúncia.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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