Escala 7×0

Às oito da manhã, enquanto a maioria das pessoas está chegando no trabalho, tem mãe que já cumpre o segundo expediente do dia. Respondeu cliente, publicou conteúdo, confirmou consulta. O celular servindo de escritório, vitrine e agenda médica. Sem intervalo; sem horário de entrada ou de saída.

Enquanto o Brasil discute escala 6×1, 5×2 ou 4×3, milhões de mães atípicas são obrigadas a viver em escala 7×0, sem o direito de reclamar.

Conheço esse padrão de perto, do convívio com essas mães na Casa de Maria, instituição que fundei em 2019 para acolher pessoas com doenças raras. Mulheres que saíram do mercado formal porque a rotina de cuidado com o filho simplesmente não cabe num expediente de oito horas. O modelo de trabalho que temos não foi pensado para quem administra terapias, internações, consultas, escola adaptada e cuidado doméstico, tudo ao mesmo tempo e sem rede de apoio.

O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista e 14,4 milhões com alguma deficiência. Por trás de boa parte desses números há uma mãe que reorganizou a própria vida para dar conta. E quando ela precisa gerar renda nessa equação, o caminho que sobra costuma ser o da autonomia: o negócio próprio, o trabalho digital. Empreender por necessidade antes de empreender por escolha.

Esse caminho tem seus méritos. Mas por que essas mulheres precisam construir uma saída paralela em vez de encontrar espaço dentro das estruturas que já existem? O mercado ainda mede produtividade pelo horário fixo, pelo endereço físico, pela disponibilidade integral. Quando a mãe pede flexibilidade, passa a ser um “inconveniente”, como se a agenda médica do filho fosse uma questão pessoal que ela quer empurrar para o empregador resolver.

Nenhuma mãe deveria ter que escolher entre estar presente para o filho e manter uma carreira.

Essas mulheres não controlam o próprio horário. O ritmo é ditado pelo filho. Dá para formalizar essa realidade sem alterar a jornada de quem não vive nela, com jornada flexível prevista em contrato, meta no lugar de hora cumprida e licença específica para quem cuida de filho com deficiência ou doença rara. Discutir jornada para o mercado de trabalho inteiro é outro debate. Esse aqui é sobre quem precisa viver dentro dessa lógica todos os dias, sem hora de entrada, sem hora de saída.

A Raissa é uma delas. Ela chegou à Casa de Maria depois de inúmeras negativas. Seu filho, o Dominick, nasceu em 2020 com hidrocefalia, epilepsia grave e uma série de outras complicações. Quando o Dom precisou de uma cirurgia no quadril, o plano de saúde negou, assim como o SUS. Mas a Raissa não desistiu. Viu minhas publicações nas redes sociais e procurou a Casa de Maria. Os profissionais orientaram e encaminharam o caso para a Defensoria Pública, por meio do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a Casa Civil e a Defensoria Pública de Minas Gerais, que criou um fluxo direto para acelerar o atendimento de pessoas com doenças raras. A cirurgia saiu. “Hoje acredito seriamente que essa cirurgia saiu por empenho meu, do médico e do acordo da Defensoria Pública com a Casa Civil”, disse ela.

Quando o Dom ficou internado, a Raissa parou tudo. Ficou no hospital. O emprego CLT havia ficado para trás antes disso, quando a agenda médica do filho simplesmente não cabia mais num expediente fixo. Na Casa de Maria, ela encontrou orientação, capacitação e uma rede de pessoas que entende o que é viver dentro de uma rotina assim. Saiu com um negócio funcionando, trabalhando com mídias digitais, criação de conteúdo e venda de produtos online.

Essas mulheres cuidam do filho, da casa e ainda administram o que construíram por conta própria. Fazem tudo isso dentro de uma rotina que a maioria das pessoas não aguentaria. A pergunta sobre capacidade já foi respondida. O que falta é estrutura à altura do que elas já entregam, muitas vezes sozinhas.

O empreendedorismo por necessidade é uma resposta criativa a um sistema que ainda não se adaptou. Mas resolve o problema de uma mãe por vez. O que resolveria para todas é jornada flexível prevista em lei, com metas no lugar de hora “trabalhada” e licença para quem cuida. Até conquistarmos esse direito, vai continuar cabendo a cada mãe inventar, na lacuna que o sistema deixou, as condições necessárias para seguir em frente.

Mineiro de Belo Horizonte, Marcelo Aro tem 37 anos e é pai de 6 filhos. Advogado, jornalista e mestre em Direito Constitucional, tem trajetória dedicada à política e ao serviço público. Foi vereador em Belo Horizonte, deputado federal por dois mandatos, secretário da Casa Civil e, atualmente, é Secretário de Estado de Governo de Minas Gerais.

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