Tornada mundialmente famosa e imortalizada por Marcellus em Hamlet, de William Shakespeare, a frase análoga que dá título a essa coluna tornou-se uma expressão popular para indicar que existe corrupção, irregularidade ou qualquer situação moralmente deteriorada dentro de uma instituição, governo ou organização.
Em outubro de 2024, uma reportagem nacionalmente premiada de O Fator revelou que o então candidato a vereador, Lucas Ganem, eleito em Belo Horizonte com mais de 10 mil votos, teria informado à Justiça Eleitoral um endereço na região da Pampulha onde, segundo vizinhos e moradores, jamais havia residido.
O caso não morreu após as urnas elegerem o forasteiro paulista. Pelo contrário. Cresceu. E cresceu porque, como reza um outro dito popular: “a cada enxadada, uma minhoca”. Após as investigações iniciais, surgiram mais elementos reforçando as suspeitas já divulgadas pelo O Fator na referida matéria.
Vamos aos fatos
A Polícia Federal, então, abriu um inquérito e o Ministério Público Eleitoral ingressou com uma ação na Justiça. Ato contínuo, a Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) instaurou uma comissão processante. O assunto, então, passou a ser tratado também como uma questão institucional da Casa.
Hoje, porém, quase dois anos depois da transferência do título eleitoral de Ganem para Belo Horizonte, o vereador continua com o mandato parlamentar intacto. Se parte dos vereadores continua fingindo que não vê, parte quer agir, mas tem sido pressionada pela direção nacional do Podemos.
Em dezembro de 2025, a Justiça Eleitoral de primeira instância cassou o mandato de Ganem, entendendo que ele utilizou artificialmente um endereço na cidade para preencher o requisito de elegibilidade. Na sentença, o juiz concluiu que não havia vínculos suficientes do rapaz com a capital no período exigido pela legislação.
O que mais falta?
Pouco depois, a própria Câmara Municipal, por ampla maioria, decidiu abrir processo de cassação por quebra de decoro parlamentar. A comissão processante avançou, colheu depoimentos e manteve a investigação após a apresentação da defesa prévia do vereador. Ou seja, tudo dentro do rito legal, como deve ser.
Em seguida, veio a Polícia Federal. Após diligências, oitivas e análise documental, os investigadores concluíram pelo indiciamento por falsidade ideológica eleitoral. Segundo a PF, o imóvel jamais foi ocupado pelo parlamentar, que teria admitido hospedar-se em hotéis ou Airbnb quando vinha a Belo Horizonte.
Mais: o proprietário do imóvel também afirmou aos investigadores que a residência servia apenas como ponto de recebimento de correspondências. Neste momento, o eleitor mais atento deve estar se perguntando: o que mais falta, então, para o vereador ser definitivamente defenestrado da CMBH? Pois é.
Rolando Lero
É evidente que Lucas Ganem tem direito à ampla defesa, ao contraditório e ao devido processo legal. Ninguém discute isso. Tampouco cabe à Câmara substituir a Justiça Eleitoral. Mas a pergunta permanece sem resposta: exatamente o que os vereadores de Belo Horizonte estão esperando?
A Câmara não precisa aguardar trânsito em julgado para deliberar sobre quebra de decoro. Nunca precisou. Se assim fosse, dezenas de parlamentares pelo país jamais teriam sido cassados. O mandato parlamentar pressupõe confiança pública. E confiança pública, definitivamente, não há mais neste caso.
Mas assim não pensa o partido do “Juntos podemos mudar o Brasil“. A legenda tem atuado, inclusive pressionando com desfiliação vereadores que se oposurem, para blindar Ganem. A impressão transmitida é péssima. Para o cidadão comum, que sofre a dureza do Estado por infrações menores, a mensagem é cristalina.
Brasília em campo
Sim. Mais uma vez, prevalece o velho espírito corporativista segundo o qual “político protege político”. E, convenhamos, a Câmara de Belo Horizonte permanecer sentada sobre o caso apenas por pressão de um partido aprofunda essa percepção. A essa altura, a pergunta já não é mais sobre Lucas Ganem.
A pergunta é sobre os 40 vereadores restantes. E sobre qual padrão ético desejam impor à instituição. Chancelar uma conduta moralmente condenada por interesses eleitorais de um partido político (entenda aqui) significa cuspir nos votos de cada belo-horizontino, que espera tudo de seus representantes, menos o desprezo.
Subir na tribuna e falar em probidade, honestidade ou mesmo atacar um adversário por relações com pessoas inidôneas é fácil, e a maioria dos políticos o faz com relativa destreza. Difícil, contudo, ao que parece, é fugir do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. E aí, Podemos e companhia? Vão insistir nessa?