Muito além das bets: quando o ‘eu’ ocupa o lugar do ‘nós’

Foto: Joédson Alves / Agência Brasil

Nunca foi tão fácil influenciar milhões de pessoas. Nunca foi tão difícil construir uma consciência coletiva. Basta alguns segundos de vídeo para convencer alguém a comprar um produto, mudar um hábito ou fazer uma aposta. A confiança, que durante décadas esteve concentrada em instituições, especialistas e organizações representativas, migrou para indivíduos capazes de conquistar atenção nas redes sociais. O recente debate sobre a divulgação das bets por influenciadores é apenas a manifestação mais visível dessa transformação.

As apostas esportivas deixaram de ser apenas um negócio bilionário. Tornaram-se o retrato de uma transformação muito maior: a forma como construímos confiança. Hoje, milhões de pessoas tomam decisões de consumo, comportamento e até financeiras influenciadas não por instituições, especialistas ou veículos de imprensa, mas por pessoas que acompanham diariamente nas redes sociais.

É justamente nesse ponto que o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman ajuda a compreender um fenômeno que vai muito além das bets. Ao analisar a chamada “modernidade líquida”, Bauman mostrou que uma das marcas da sociedade contemporânea é a crescente individualização. Problemas que antes eram entendidos como coletivos passam a ser tratados como responsabilidades individuais. O “nós” perde espaço para o “eu”.

O caso das bets ilustra essa mudança. O debate público concentrou-se, com razão, nos prejuízos financeiros, nos impactos psicológicos das apostas e na responsabilidade dos influenciadores digitais. Mas existe uma questão ainda mais profunda: como esses influenciadores passaram a exercer tamanho poder de convencimento?

A resposta está menos na publicidade e mais na confiança. Diferentemente da propaganda tradicional, a recomendação do influenciador é incorporada ao cotidiano. A aposta não aparece apenas como um produto, mas como parte de um estilo de vida desejável, compartilhado entre alguém que inspira e uma audiência que se identifica com ele. O vínculo emocional frequentemente pesa mais do que a análise crítica.
Bauman observou que, na sociedade contemporânea, a confiança deixa de estar concentrada nas instituições e passa a ser depositada nos indivíduos. Em vez de recorrer a organizações que historicamente estruturavam a vida coletiva, seguimos pessoas. A autoridade torna-se personalizada e as plataformas digitais ampliam esse processo ao transformar atenção em influência e a influência em valor econômico.

Como destaca Manuel Castells, o poder na sociedade em rede está diretamente ligado à capacidade de construir narrativas. Quem consegue concentrar atenção também influencia comportamentos, identidades e escolhas. As redes ampliaram o acesso à informação, mas também fragmentaram o debate público e estimularam relações cada vez mais individualizadas.

Esse cenário ajuda a compreender um desafio que vai muito além do mercado das apostas: o impacto sobre organizações cuja força depende da construção de identidades coletivas, como sindicatos, associações e movimentos sociais.

Historicamente, os sindicatos nunca atuaram apenas na negociação de salários. Foram espaços de formação, informação, solidariedade e organização coletiva. Contribuíram para construir a percepção de que determinados problemas não pertencem apenas ao indivíduo, mas dizem respeito a toda uma categoria de trabalhadores.

Quando prevalece a lógica de que cada pessoa é exclusivamente responsável pelo próprio sucesso ou fracasso, essa percepção se enfraquece. Questões relacionadas às condições de trabalho, remuneração ou direitos deixam de ser vistas como desafios coletivos e passam a ser interpretadas como obstáculos que cada trabalhador deve superar sozinho.

A comunicação digital reforça esse movimento. Algoritmos privilegiam conteúdos rápidos, personalizados e emocionalmente envolventes. Já mensagens que dependem de contexto, reflexão e construção de consenso encontram mais dificuldade para disputar atenção. Não se trata de afirmar que sindicatos perderam relevância ou que as redes sociais sejam incompatíveis com a mobilização coletiva. Ao contrário: muitas organizações vêm utilizando essas plataformas de forma eficiente. O desafio é comunicar valores coletivos em um ambiente desenhado para estimular experiências individuais.

Por isso, o episódio das bets não deve ser analisado apenas pelos danos provocados às famílias ou pela responsabilidade de quem promove esse mercado. Ele evidencia uma transformação mais profunda na forma como a sociedade produz legitimidade e influência. Influenciadores ocupam espaços que, em outros momentos, eram compartilhados por instituições representativas, entidades da sociedade civil e parte da própria imprensa.

Talvez essa seja a principal contribuição de Bauman para o debate contemporâneo. A grande mudança não ocorreu apenas nos meios de comunicação, mas na própria função social da comunicação. Quando ela deixa de fortalecer vínculos coletivos e passa a estimular identidades cada vez mais individualizadas, a solidariedade perde espaço para uma lógica centrada na pergunta: “o que eu ganho com isso?”.

É justamente aí que reside um dos maiores desafios do movimento sindical. Sua força sempre esteve na capacidade de transformar indignações individuais em conquistas coletivas. Em um ambiente governado por algoritmos e pela economia da atenção, reconstruir essa percepção de pertencimento tornou-se uma tarefa ainda mais complexa, e talvez mais necessária do que nunca.

As bets, portanto, são apenas a face mais visível de um fenômeno muito maior. O debate vai muito além das apostas, passa pelo futuro da confiança, da comunicação e da ação coletiva. Afinal, quando o “eu” ocupa o lugar do “nós”, o movimento sindical que perde força, assim como perde a sociedade como u todo, que passa a enfrentar problemas coletivos acreditando, equivocadamente, que cada indivíduo poderá trata-los sozinho.

Auditor Fiscal e presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em Direito Tributário, especialista em Inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.

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