A solidão que os dados não abarcam

Pessoa aparece sozinha em foto
Há uma solidão que insiste mesmo na festa lotada, quando o som está alto e você está no meio do salão com um copo na mão, vendo as bocas se moverem sem ouvir o que dizem. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Li no site do jornal O Globo, na semana passada, aquela matéria extensa. Duzentas e dezoito mil pessoas. Cento e treze países. A manchete já vinha com a pergunta pronta sobre uma tal epidemia global de solidão, mas os pesquisadores, esses, eram mais cautelosos. O número que eles cravaram era outro: uma em cada cinco pessoas, no mundo, relata sentir-se só num dia qualquer, comum, sem chuva nem festa. E aí vinha o recorte que me prendeu: nos países de alta renda, esse índice era de 15,7%; nos de baixa, pulava para 31,3%. Houve uma virada curiosa entre 2023 e 2024, dizia o texto. A solidão recuou onde o dinheiro sobra, estagnou na classe média e só cresceu onde a pobreza aperta o estômago. O fator decisivo, a reportagem explicava com todas as letras, era o tal do capital social: a existência de uma rede de confiança, de gente em quem se pode escorar quando o chão treme.

Larguei o telefone em cima da mesa. A tela demorou uns segundos para apagar, ainda com os números brilhando no escuro. O café na xícara já estava morno, beirando o frio. Fiquei olhando para aqueles percentuais como quem olha para uma foto antiga de um lugar que já visitou, mas que não mostra os cantos podres, as rachaduras no reboco. Não duvido da precisão. Olho ao redor no condomínio e vejo paredes que escondem mais do que protegem. Encontro com o vizinho no elevador, a gente troca aquele aceno seco, um “bom dia” que não deseja nada, e cada um fica olhando a luz dos andares subindo. O estudo tem razão quando aponta que ali falta laço. As varandas são gradeadas, as janelas de vidro escuro. Cada apartamento é uma cela com vista.

Mas fiquei com a pulga atrás da orelha. Senti que aqueles 15,7% e 31,3%, por mais corretos, não abarcavam o recorte inteiro da paisagem. Eles medem a ausência do outro, o emprego que não veio, a doença, a viuvez, a baixa escolaridade, mas não alcançam o que fica dentro da gente quando o outro, mesmo presente, parece um fantasma.

Foi aí que a britadeira do vizinho cessou de repente. No silêncio que veio, ouvi o tique-taque do relógio da cozinha, um ruído que eu tinha certeza de que havia parado anos atrás, depois que a pilha morreu. Mas ele estava lá, vivo. Nesse silêncio, não veio o vazio. Veio o cheiro de goiabada queimada grudada no fundo da panela. Veio a imagem de uma mão cheia de farinha, a mão da minha mãe enfiada na massa de um delicioso “pão alemão”. Veio o silêncio dela, aquele silêncio que ela carregava enquanto amassava a farinha sem dizer palavra. O passado não invadiu a cozinha. Já estava ali, nos cantos. Foi preciso a britadeira parar para que eu percebesse.

E me veio uma ideia meio torta, que rascunhei em um papel qualquer tempos depois: a solidão não é falta; é sobra. É um excesso de mim, um transbordamento de bagunça interna. A gente tem tanto medo do outro, tanto pavor de que um encontro verdadeiro desorganize nosso jeito de ser, que prefere o recuo. A solidão vira um esconderijo. É como se a gente escolhesse a dor conhecida do isolamento para não encarar o risco de se entregar.

Mas aí me lembro que a reportagem do Globo tinha toda a razão ao apontar o capital social. E, no entanto, há uma solidão que insiste mesmo na festa lotada, quando o som está alto e você está no meio do salão com um copo na mão, vendo as bocas se moverem sem ouvir o que dizem. Há uma solidão que aparece depois que você conquistou aquela vaga que tanto quis, tem gente à volta no domingo, e ainda assim acorda de madrugada sem saber muito bem como foi parar naquela vida. O estudo não pergunta sobre isso. Não pergunta se você já olhou no espelho e levou um susto com a cara que está ali, ou se alguma vez sentiu que estava vivendo uma vida que não era bem a sua, sem saber ao certo qual seria a verdadeira.

218 mil pessoas não são poucas. Mas nenhum questionário, por mais bem feito, captura o instante em que alguém, sozinho na cozinha, escuta o próprio silêncio e descobre que ele não é vazio, apenas está coberto de camadas. Camadas de coisas que ficaram ali, acumuladas, sem pedir licença.

No entanto, aquele 31,3% me bateu depois, quando a reflexão já tinha esfriado. Doeu. Porque, de repente, a minha cozinha com cheiro de goiabada queimada e lembranças de infância soou como um enorme privilégio. Para quem não tem o que comer, não tem um teto garantido, não tem a quem recorrer quando a febre aperta, a solidão não é existencial nem poética; ela é material, física, encostada na parede. É o corpo sem amparo, a barriga vazia roncando num canto, a certeza nua de que amanhã pode ser ainda pior. Onde o dinheiro não chega, o abandono tem cheiro de mofo e conta de luz atrasada. A pesquisa mapeou isso com números frios, mas não anota o que fica na garganta de quem responde.

Voltei à mesa. Joguei o café frio fora, lavei a xícara, coloquei água no fogo. O bule demorou a chiar. Enquanto esperava, fiquei olhando o telefone escuro sobre o balcão. Lá dentro, no aplicativo de notícias, estavam os números, as causas, o retrato do mundo.

O cheiro do café novo subiu, misturado com o resquício da goiabada velha. Sentei na cadeira que range. Não havia ninguém além de mim, e a cadeira vazia ao lado não pareceu uma ausência. Pareceu um peso que eu mesmo trouxe para a mesa.

Fiquei ali, remoendo aquela diferença de 15,7 para 31,3. Fiquei pensando se, no fundo, todo aquele meu papo de “excesso de mim” não é só uma forma elegante de não encarar o vazio dos outros. Bebi um gole. A língua ardeu. O telefone continuou escuro. A pergunta ficou no ar, sem resposta. O café esfriou de novo, mas dessa vez nem levantei para fazer outro.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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