A casa impecável. Que desgraça. A gente lustra o móvel, ajeita o tapete que ninguém pisa, esconde a louça suja embaixo da pia. Tudo para que a campainha não vire um alarme. Ela, que devia anunciar o abraço, virou presságio de invasão. “Me avisa antes de vir.” E a gente avisa, claro. Avisa, arruma, esfrega, esconde. Depois fica esperando. O que temo? O julgamento do outro? Ou a prova de que minha solidão é uma escolha cômoda? Talvez as duas. Trocamos a paz do outro pela ausência de barulho. É uma troca que já podemos ter feito nesta vida. E chamo de organização.
Meu pai lia demais. Lia de tudo, da matéria mais singela até a mais complexa. Só não encostava o dedo naquelas revistas de fofoca e moda, que ele chamava de futilidades de consumo. Mas o que ele sabia de verdade não estava na página impressa. Estava num gesto banal: puxar a cadeira. A cadeira vazia, à espera de um corpo. Isso me marcou. E olha que eu demorei anos para entender o porquê.
Acho que era porque a cadeira esperava. Esperar, para ele, era uma fome. Não sei se passividade ou não, mas fome, sim. Fome do outro. Não de um outro específico, de qualquer outro. O estranho, o conhecido, o que chega atrasado. Dolores, minha mãe, estendia a toalha de algodão, remendada no canto, e alisava com as palmas abertas. Como quem reza sem palavras. Ou como quem espanta o mau-olhado. Eu ficava olhando. Não sabia se aquilo era sagrado ou só mania. Hoje ainda não sei. Mas os vincos ficaram em mim. Cada vinco, uma linha, como se fossem marcas de uma mão que não era minha, mas que de alguma forma me pertencia.
Mas a vida não é só toalha estendida e cadeira puxada. A vida é o mar que invade a sala, derruba as cadeiras, remexe as gavetas, molha tudo. Depois a onda passa, e a gente fica. Entre o estrondo e o silêncio do chão molhado, o que fazer? Bom, eu passei a desconfiar da minha própria vaidade. Percebi que compaixão não é martírio, que se dissolver no outro não é bondade; é quase uma exibição disfarçada. E olha que já me vi fazendo isso várias vezes. Já me vi carregando dores que não eram minhas só para parecer ou achar que era útil. Qual parte da dor que a gente carrega é nossa, de fato? E qual a gente tomou emprestado para parecer forte? Não sei. Cada um resolve isso de um jeito. A gente pode iluminar a mesa, oferecer o lápis, varrer o cisco. Mas não adianta se doer no lugar do outro. Isso eu aprendi na marra ou no dia-a-dia.
Depois vem o método mais impopular: esperar. Não filosofe com febre, sempre me disseram. Talvez eu esteja sendo injusto com a febre. Mas no escuro, a sentença mais bonita sai errada. O tempo não usa trombeta. Tem mãos de artesão, trabalha em silêncio, e enquanto a espera acontece, você pode praticar o possível. Lavar dois copos, arejar a casa, trocar a lâmpada que pisca há três semanas. Coisas miúdas. Às vezes você está ali, esfregando um copo, e percebe que, sem notar, aquele gesto pequeno segura a casa por dentro, impedindo que o desabamento vire rotina. O universo é um inquilino folgado, adora a desmedida, mas quem arca com a conta é sua coluna. Se você abraça o mundo inteiro, estala no meio. Não assine a escritura do mundo, já me disseram. Mas eu assinei. Várias vezes. E me arrependi.
A bagunça, hein? A louça acumulada, a correspondência espalhada. Às vezes arrumo demais, como quem constrói muralha. Mas a visita não vem fiscalizar o rejunte. Vem, quem diria, para nos salvar do nosso confinamento. O improviso assusta, mas é necessário. Uma gargalhada inesperada, uma confidência que alivia o peito. O herói é quase invisível. A dignidade mora no copo devolvido ao escorredor, no tênis amarrado antes de sair, no bilhete “volto às seis”. Não precisa de coreografia. E olha que eu já coreografei muito.
Cuidado com a madrugada. Ela pode não ser boa gestora, pode assinar contratos ruins, desses que a gente se arrepende ao amanhecer. Se você fica acordado até tarde resolvendo a vida, pode ter certeza: quase todas aquelas decisões vão parecer besteira na manhã seguinte. É o que sempre acontece com a maioria das pessoas. A onda vai voltar, claro. Não converta a ressaca em tese de doutorado. Maré alta não é tema acadêmico. É hora de balde, pano e chão seco. E às vezes você só quer deitar.
O que permanece, no fim? A onda passa, o barulho passa, a visita vai embora. Fica a possibilidade de oferecer a cadeira. Fica a recusa educada de resolver problemas que não são seus enquanto sua própria vida continua em aberto. Não afundar já é tarefa suficiente para hoje. E olha que não afundar já é muito.
Sigo puxando cadeiras. Não sei se compreendi meu Pai ou se apenas imito um ritual vazio. Minha mesa não é grande, mas está lá. Quem quiser, que venha. Se alguém vier, o que vou oferecer? Comida, silêncio, a pergunta que não cessa? Talvez a herança seja a pergunta, aquela que minha mãe Dolores fazia com as mãos sobre a toalha. Para que serve uma mesa? Para que serve abrir a porta? Às vezes penso que estou perguntando demais.
Se sobrar fôlego, olhe o mar com humor. Ele virá outra vez, e você também. O chão recebe o peso, sustenta os pés, devolve o passo. A onda ensina, limpa, às vezes rouba. O chão fica, e é nele que a vida recomeça.