Quando o diálogo levou luz ao campo mineiro

Foto: CNA

Entre 2005 e 2009, tive a honra de coordenar, em Minas Gerais, o Programa Luz para Todos, uma das mais importantes políticas públicas de inclusão social já implementadas no Brasil. Ao recordar essa experiência, a maior lição que permanece não está apenas nos resultados alcançados, mas na demonstração de que o diálogo e o trabalho coletivo são capazes de superar diferenças e transformar vidas. Fui convidado para essa missão pelo Coordenador da Região Sudeste do Programa, Paulo Tadeu Silva D’Arcadia.

Na ocasião, ele manifestava preocupação com o ritmo de execução das obras em Minas Gerais, especialmente na área de concessão da CEMIG, responsável pelo atendimento da grande maioria dos municípios mineiros. O cenário político era marcado pela polarização entre o Governo de Minas Gerais e o Governo Federal, circunstância que exigia a construção de pontes institucionais para que os interesses da população prevalecessem.

O primeiro passo foi buscar o entendimento. Apresentei-me à direção da CEMIG, naquele momento comandada pelo Engenheiro Djalma Bastos de Morais, convencido de que nenhuma divergência política poderia ser maior do que o direito das famílias rurais ao acesso à energia elétrica. Com respeito institucional, diálogo permanente e confiança mútua, fomos criando as condições necessárias para que o Programa avançasse. Esse resultado somente foi possível graças ao comprometimento de uma extraordinária equipe. Os agentes regionais percorreram milhares de quilômetros por estradas de terra, identificando domicílios ainda sem energia, orientando moradores e mobilizando lideranças locais.

O entusiasmo da equipe era alimentado pela certeza de que cada nova ligação significava muito mais do que um número: representava dignidade, inclusão e novas oportunidades para milhares de famílias. Outro fator decisivo foi a intensa mobilização social. Realizamos centenas de audiências públicas em todas as regiões de Minas Gerais para informar agricultores, associações comunitárias, sindicatos, prefeitos e vereadores sobre o Programa, seus critérios e os procedimentos para solicitar o benefício.

Essas reuniões aproximaram o poder público das comunidades rurais e permitiram que milhares de famílias conhecessem e reivindicassem um direito que lhes era assegurado. Ao longo daqueles quatro anos, aproximadamente 160 mil domicílios rurais foram ligados à rede elétrica em Minas Gerais. A energia chegou aos mais diversos rincões do Estado, levando muito mais do que iluminação. Levou melhores condições para a educação, a saúde, a produção agrícola, a geração de renda e a permanência das famílias no campo com mais qualidade de vida.

O Programa Luz para Todos demonstrou que grandes políticas públicas somente alcançam seus objetivos quando governos, empresas públicas, municípios, movimentos sociais e comunidades trabalham de forma cooperativa. Nenhuma conquista daquela dimensão pertence a uma pessoa ou a uma instituição. Ela é fruto da dedicação de centenas de profissionais e da confiança de milhares de cidadãos que acreditaram na força da ação coletiva. Passados esses anos, guardo a convicção de que o maior legado daquela experiência foi comprovar que o interesse público deve sempre prevalecer sobre as divergências políticas.

Quando o diálogo orienta as decisões e a população ocupa o centro das prioridades, os resultados aparecem e permanecem na vida das pessoas. Ter contribuído para levar energia elétrica a milhares de famílias mineiras foi, sem dúvida, uma das experiências mais gratificantes da minha vida pública. Mais do que ampliar a rede elétrica, o Programa ajudou a ampliar horizontes, reduzir desigualdades e reafirmar que a boa política é aquela que aproxima pessoas, constrói consensos e promove cidadania.

É advogado, assessor parlamentar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi Superintendente Federal do Ministério da Agricultura e Pecuária em Minas Gerais e Diretor-Geral do Instituto Mineiro de Agropecuária.

Leia também:

O que derrubou a candidatura de Cleitinho ao governo de Minas e o novo espaço pleiteado pelo Republicanos

Equatorial pede ao Cade a rejeição de recurso e diz que participação na Sabesp não contamina compra da Copasa

Quando o diálogo levou luz ao campo mineiro

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse