Burnout: um sintoma contemporâneo

Diante da angústia e do desamparo que atravessam o sujeito contemporâneo, o trabalho pode ser um desses lugares de refúgio, mas também de afogamento de si. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nos últimos anos, o burnout tornou-se um tema conhecido e discutido em diferentes frentes. Psicólogos, médicos, psicanalistas, advogados e gestores de empresas passaram a lidar com um assunto que, apesar de sua popularidade, continua complexo e de difícil compreensão.

Como advogado e psicanalista, essa mudança me chama particularmente a atenção. Até cerca de cinco anos atrás, atuei em diversos casos envolvendo funcionários que desenvolveram depressão, síndrome do pânico e outros transtornos emocionais em contextos marcados por exaustão ou aumento excessivo das tarefas. Na minha experiência, entretanto, dificilmente esses casos eram compreendidos como burnout. Uma das dificuldades estava justamente em estabelecer o nexo entre determinadas condições de trabalho e o adoecimento apresentado pelo trabalhador. Peritos judiciais e juízes exigiam — como ainda exigem — que fosse demonstrada uma relação de causalidade entre o trabalho e o transtorno diagnosticado. Na clínica psicanalítica, esse tema é cada vez mais presente.

De lá para cá, houve uma mudança importante na maneira como o tema passou a ser abordado.

A Organização Mundial da Saúde incluiu o burnout na CID-11 sob o código QD85, fazendo uma distinção fundamental: ele não é classificado como doença ou transtorno mental, mas como fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no local de trabalho que não foi adequadamente administrado. A definição contempla três dimensões: esgotamento ou perda de energia; distanciamento mental, negativismo ou cinismo em relação ao trabalho; e redução da eficácia profissional. A própria OMS ressalta que o conceito diz respeito especificamente ao contexto ocupacional.

Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Segundo o State of the Global Workplace 2026, da Gallup, 45% dos trabalhadores brasileiros afirmaram ter experimentado muito estresse no dia anterior à pesquisa. O dado mede estresse, não burnout, mas ajuda a enxergar o ambiente em que o fenômeno se desenvolve. Já um levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, com informações do INSS, apontou que os afastamentos associados ao burnout passaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025.

Também mudou a maneira de olhar para a relação entre trabalho e sofrimento psíquico. Durante muito tempo, a atenção esteve predominantemente sobre o trabalhador: sua capacidade de suportar pressão, administrar conflitos ou lidar com o estresse. Aos poucos, a própria organização do trabalho passou a ocupar um lugar mais importante nessa discussão.

No Brasil, essa mudança ganhou expressão normativa com a nova redação da NR-1, que incluiu os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Excesso de demandas, sobrecarga, assédio e falta de apoio passam a integrar, de maneira mais clara, aquilo que as organizações devem observar e prevenir.

Trata-se de um avanço importante. Já não basta perguntar o que aconteceu com o trabalhador que adoeceu. É preciso perguntar também o que estava acontecendo naquela relação de trabalho.

Ocorre que o burnout é um fenômeno complexo, e qualquer explicação apressada corre o risco de transformá-lo em algo que ele não é.
É justamente aqui que pretendo fazer um recorte, cujo principal objetivo é nos convocar a uma reflexão.

Se, de um lado, existem empresas que demandam excessivamente de seus funcionários e, de outro, encontramos sujeitos que se entregam sem limites a essas demandas, o que está em jogo nessa relação?

Existe, evidentemente, uma dimensão econômica e social que não pode ser ignorada. A precarização do trabalho assumiu novas formas nas últimas décadas. Salários baixos, jornadas excessivas, insegurança, metas inatingíveis, perda de autonomia e pressão permanente por produtividade são fatores que podem produzir sofrimento e adoecimento. Seria um equívoco transformar as consequências dessas condições numa questão exclusivamente individual.

Mas o burnout também aparece entre executivos, médicos, advogados, gestores e outros profissionais altamente qualificados, inclusive entre aqueles que recebem bons salários e, aparentemente, dispõem de maior proteção. As diferenças sociais não desaparecem por isso, mas o fenômeno nos obriga a olhar um pouco além da precarização.

Há outro protagonista nessa relação: o sujeito contemporâneo.

Não pretendo, com isso, responsabilizar aquele que adoeceu. Seria apenas trocar uma simplificação por outra. Interessa-me perguntar que sujeito é esse que encontra o mundo contemporâneo do trabalho e de que maneira responde às suas exigências.

Ao longo da segunda metade do século XX, diversos autores procuraram compreender as transformações desse sujeito. Christopher Lasch, Zygmunt Bauman, Christophe Dejours, entre tantos outros, examinaram, por caminhos diferentes, a fragilidade dos vínculos, as transformações do trabalho, a busca por reconhecimento e as mudanças produzidas pelo enfraquecimento das antigas referências.

Surge aqui uma hipótese: família, religião, comunidade, papéis sociais e tradição estabeleciam limites muitas vezes repressivos e injustos, mas também ofereciam certo horizonte de orientação.

Nascer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos, comprar uma casa, aposentar-se e morrer constituía, para boa parte da sociedade, uma espécie de plano de voo de uma vida considerada bem-sucedida. O camarada podia até não gostar do destino que lhe haviam reservado, mas sabia mais ou menos para onde deveria ir.

O barco civilizatório foi virando. As tradições perderam parte de sua força e deixaram de ocupar o lugar de uma verdade capaz de dizer ao sujeito como deveria viver. Ganhamos liberdade e ampliamos extraordinariamente nosso campo de possibilidades.

Essas conquistas, contudo, também produziram transformações em nossa subjetividade. A ampliação das possibilidades trouxe consigo o desafio de escolher entre elas e de responder pelas escolhas que fazemos.

Quando diminuem as determinações externas, aumenta a responsabilidade de escolher. Já não basta seguir um caminho: é preciso, em alguma medida, construí-lo. Jorge Forbes chamou de “homem desbussolado” esse sujeito que vive num mundo no qual já não existe uma bússola única capaz de indicar previamente para onde ir.

É aqui que me lembro de uma das passagens mais belas de Ser e Tempo. Heidegger fala do estranhamento, desse não-estar-em-casa que, na angústia, rompe a familiaridade cotidiana e entrega o ser existente “à responsabilidade de si mesmo”. O estranhamento pode abrir possibilidades, mas a angústia que acompanha essa abertura também pode levar o camarada a procurar algum lugar que novamente lhe ofereça segurança, em vez de assumir a responsabilidade por sua própria existência.

Diante da angústia e do desamparo que atravessam o sujeito contemporâneo, o trabalho pode ser um desses lugares de refúgio, mas também de afogamento de si.

Nesse sentido, ele pode distanciar o camarada de sua singularidade e reforçar uma espécie de esquecimento de si. Isso pode emergir como esvaziamento de sentido. Mas gostaria de fazer aqui uma distinção: o que pode surgir, nessa entrega desmedida ao trabalho, é uma espécie de sentido-vazio, um sentido que, em vez de permitir ao camarada apropriar-se de sua existência, o esvazia.

Esse sentido de devoção ao trabalho, orientado exclusivamente à performance, procura responder à severidade dos desafios contemporâneos que, em alguma medida, nos colocam de forma implacável numa vida excessivamente positivada, orientada pelo desempenho, sem espaço para criar, arriscar, refazer-se ou fracassar. Mas o que esquecemos é que justamente essas dimensões, que revelam nossa fragilidade, revelam também algo de nossa humanidade solidária e colaborativa. São experiências capazes de nos devolver ao mundo, apesar de todas as suas vicissitudes.

O contato com aquilo que revela nossa fragilidade também pode se apresentar como uma espécie de chamado à vida. Esse tipo de experiência existencial é transformador na medida em que nos leva ao entendimento de que há uma vida que vale a pena ser vivida, apesar de suas vicissitudes e atravessamentos. Portanto, ao evitarmos o contato com nossas fragilidades, de certo modo calamos o canto que nos convoca a habitar a existência.

Esquecemo-nos de que uma fábrica de vencedores também pode gerar camaradas desumanizados e fragilizados, uma vez que nos são incontornáveis — e, sobretudo, originárias — as situações de desabrigo, impotência e indeterminação. É justamente o uso do trabalho como uma maneira de escapar daquilo que nos é mais originário que o torna e o qualifica como um sintoma de nossa época.

Decerto, a perda das antigas referências pode produzir também uma fragilização das bordas. Se ninguém mais diz com clareza onde parar, até onde ir ou o que é suficiente, o próprio sujeito terá de construir seus limites.

E isso não nos parece uma tarefa simples.

Nesses tempos, diante da incerteza que nos ronda, podemos nos entregar sem medida àquilo que promete novamente identidade e pertencimento. Pode ser uma ideologia, uma droga, um grupo. E o trabalho também pode ocupar esse lugar de preenchimento.

O trabalho oferece identidade, reconhecimento, posição social e alguma estabilidade. O camarada deixa de apenas trabalhar e começa a retirar do trabalho uma confirmação de quem ele é.

Trabalho, logo existo.

O trabalho pode surgir como uma espécie de prova da existência.

Surge então um paradoxo. Exatamente quando ele se torna mais instável — novas tecnologias, disponibilidade permanente, competição, mudanças rápidas e incerteza em relação ao futuro —, pode ser convocado a oferecer ao sujeito cada vez mais segurança.

Quanto mais esperamos encontrar nele identidade, reconhecimento, sentido e estabilidade, mais podemos nos entregar sem medida. Reside aí uma das armadilhas do nosso tempo: acreditar que sempre é possível produzir mais, chegar mais longe e superar novamente o próprio desempenho, como se existisse algum ponto no qual finalmente pudéssemos dizer: agora é suficiente.

Lembro-me aqui de uma dessas frases motivacionais repetidas à exaustão: “não sabia que era impossível; foi lá e fez”.

Nós, psicanalistas, podemos desconfiar um pouco desse axioma. Há nele algo verdadeiro: muitas vezes fazemos justamente porque ainda não sabemos aquilo que somos capazes de fazer. Mas a frase também esconde um perigo. Quando o impossível é transformado apenas em mais uma barreira a ser superada, perdemos sua outra dimensão: a de limite.

Enlaçar-se ao impossível como se todo limite existisse apenas para ser ultrapassado pode levar o sujeito a atentar contra si mesmo, numa entrega desmedida e até mortífera. O impossível não é apenas aquilo que ainda não conseguimos realizar. Há impossíveis que nos confrontam com a própria condição humana e que, por isso, precisam ser reconhecidos, e não derrotados.

É nesse sentido, e sem qualquer pretensão diagnóstica, que proponho pensar o burnout também como uma espécie de sintoma contemporâneo. Um sintoma de uma relação na qual empresas exigem cada vez mais e sujeitos, por sua vez, passaram a devotar-se ao trabalho de forma desmedida.

Já me detive sobre essa questão no texto Trabalho como sintoma, trabalho como criação. Ali procurei pensar como o trabalho pode deixar de funcionar apenas como repetição, defesa ou forma de aplacar a angústia e recuperar sua dimensão criativa.

Retomo essa ideia porque ela me parece especialmente importante diante do burnout.

Não acredito que a saída esteja em condenar o trabalho ou simplesmente retirar-lhe importância. Talvez seja necessário deslocá-lo do lugar que passou a ocupar.

O trabalho não precisa responder por toda a nossa identidade. Não precisa oferecer a resposta definitiva sobre quem somos. Pode voltar a ser uma das maneiras pelas quais encontramos o mundo.

Quando deixa de ser apenas desempenho, o trabalho pode recuperar algo de criação. Criar não é privilégio do artista. Há criação quando alguém consegue imprimir alguma singularidade ao que faz, quando o fazer não está inteiramente submetido à repetição e quando ainda existe a possibilidade de ser surpreendido por aquilo que se produz.

Foi nesse sentido que, naquele texto, propus pensar o trabalho como uma forma de habitar e transformar o mundo e, nesse mesmo movimento, transformar-se.

O burnout pode então ser escutado também como sinal de uma relação que perdeu sua medida. Cabe às organizações reconhecer que há limites humanos que não podem ser tratados como defeitos de produtividade. Mas cabe também a nós desconfiar da promessa de que o trabalho será capaz de nos proteger da incerteza de existir.

O sujeito desbussolado não precisa encontrar desesperadamente outra boia de salvação, nem escapar para uma existência imprópria apenas para não enfrentar a incerteza. Isso não significa desconsiderar o quanto é difícil suportar um mundo em que tantas referências perderam sua estabilidade. Mas talvez seja justamente essa abertura, apesar da angústia que comporta, que permita a construção de novos caminhos.
E o trabalho pode fazer parte disso.

Não mais como refúgio ou salvação, mas como um lugar de criação. Como uma forma de esculpir algo no mundo e também de deixar-se esculpir pelo que fazemos. A possibilidade de o trabalho funcionar como uma espécie de ponte para o mundo não pode ser descartada.

Pode parecer utópico ou romantizado demais, mas talvez precisemos reconhecer que estamos diante de uma transformação importante na própria ideia de trabalho. Num mundo cada vez mais atravessado pela tecnologia e, sobretudo, pelo avanço da inteligência artificial, é importante nos perguntarmos até onde o trabalho precisa recuperar também sua dimensão relacional: a possibilidade de nos inserir em redes solidárias e comunitárias que, em grande medida, fomos perdendo.

Quero insistir nesse ponto. O trabalho solidário, os mutirões, a capacidade de criar juntos novas possibilidades e as experiências ligadas à economia criativa já fazem parte da nossa realidade. Não se trata de idealizar essas formas de trabalho, mas de reconhecer nelas outras maneiras de produzir, compartilhar conhecimento e construir vínculos.

Reaprender a trabalhar surge, então, como horizonte.

Essa questão não diz respeito apenas à inteligência artificial. Está ligada também à sustentabilidade, ao aumento da expectativa de vida e à própria transformação das nossas trajetórias profissionais. Viveremos mais, provavelmente exerceremos diferentes atividades ao longo da vida e seremos convocados muitas vezes a rever aquilo que sabemos fazer e o lugar que ocupamos no mundo.

A urgência de nosso tempo está na capacidade de nos reinventarmos e de inventar novas possibilidades de habitar o mundo.

Mas reinventar-se não precisa significar apenas tornar-se mais produtivo, mais eficiente ou mais adaptável. Pode significar também recuperar uma dimensão esquecida do trabalho: fazer com o outro, criar com o outro, produzir algo que nos devolva ao mundo em vez de nos afastar dele.
Ao reinventarmos a maneira de trabalhar, podemos retirar do trabalho a obrigação de nos salvar e, justamente por isso, devolver a ele sua potência criativa.

Não para dominar o mundo.

Mas para voltar a se encantar com ele.

É psicanalista pelo Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo (CEP) e advogado. Atua como conselheiro de empresas e desenvolve pesquisas independentes nas interfaces entre filosofia, psicanálise, literatura e arte. É autor de poemas e ensaios dedicados à investigação da linguagem, da subjetividade e dos modos de constituição da existência contemporânea.

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