O Brasil aprendeu a usar bem uma palavra: inclusão. Ela aparece com frequência em documentos oficiais, relatórios técnicos e planejamentos educacionais. E, em alguma medida, com razão. Os números indicam avanço. Hoje, o país registra mais de 2,4 milhões de estudantes na educação especial e cerca de 96% deles estão matriculados em classes comuns. É um dado relevante. Durante décadas, o desafio foi garantir acesso. Esse capítulo, ao que tudo indica, começou a ser superado.
Mas há uma diferença importante entre acesso e trajetória. O sistema educacional brasileiro consolidou a matrícula como métrica central. Ela organiza políticas, orienta metas e estrutura a percepção de sucesso. No entanto, como todo dado isolado, ele ilumina apenas uma parte do problema e deixa o restante na sombra.
Sabe-se quantos estudantes entram. Onde estão. Mas não se sabe, com a mesma precisão, o que acontece com eles ao longo do caminho. Não há, em escala nacional, indicadores consolidados sobre desenvolvimento de linguagem, ganho de autonomia, evolução na comunicação funcional ou progressão cognitiva desses alunos. A escola registra a presença, contudo, ainda mede pouco o percurso.
E é justamente no percurso que a educação acontece. Os dados mais amplos ajudam a dimensionar esse descompasso. Segundo o IBGE, cerca de 65% das pessoas com deficiência não concluem o ensino fundamental. Entre aquelas com deficiência intelectual, apenas 5,3% chegam ao ensino superior. Os números sugerem que o acesso, embora ampliado, não tem se traduzido, de forma consistente, em permanência qualificada e aprendizagem efetiva.
Trata-se menos de uma contradição e mais de um desalinhamento entre o que se mede e o que se pretende alcançar. No cotidiano das escolas, esse desalinhamento ganha forma concreta. Professores lidam com turmas heterogêneas, múltiplos perfis de aprendizagem e demandas crescentes por personalização do ensino. Pesquisa da Fundação Carlos Chagas indica que a formação continuada e o suporte pedagógico ainda não acompanham, na mesma velocidade, essa complexidade.
O resultado não é ausência de esforço. É presença de improviso. E o improviso, quando recorrente, revela a necessidade de método. Esse cenário também produz efeitos que ultrapassam o ambiente escolar. Em 2024, os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas com deficiência superaram R$ 100 bilhões, com projeções de crescimento nos próximos anos. O dado, por si só, não é um problema, afinal, o benefício cumpre um papel essencial de proteção social. Entretanto, ele convida a uma reflexão complementar. Qual tem sido a capacidade do sistema educacional de promover autonomia ao longo da vida?
A resposta passa, inevitavelmente, pela qualidade do desenvolvimento na infância. A inclusão educacional contemporânea exige um novo passo. Não basta garantir o acesso. É preciso acompanhar o desenvolvimento com a mesma seriedade com que se acompanha a matrícula. Isso implica construir indicadores mais sofisticados, incorporar evidências científicas, utilizar tecnologias educacionais e estruturar práticas pedagógicas que respondam à diversidade. A escola já conseguiu abrir a porta. O desafio agora é assegurar que cada estudante consiga, de fato, seguir adiante depois de atravessá-la.