O nome que não sei — O peso de assinar o que se sente

Caderno e caneta
Escrevo com meu nome verdadeiro. E isso, ironicamente, é o que mais me assusta. Foto: Pixabay

Os dedos repousam sobre o teclado e o frio do plástico é um aviso. Escrever no computador tem essa estranheza: a tela branca, o cursor piscando, a ausência de peso físico. Não há a caneta que pressiona o papel, nem o cheiro de tinta. Mas há um gesto, um movimento de quem se prepara para dizer algo que talvez devesse ficar calado. Quando iniciei meus devaneios nestas crônicas, pedi ao amigo Ricardo Kertzmann que me emprestasse um heterônimo. Um nome fictício, uma pele falsa para vestir minhas palavras. Lembrei de Fernando Pessoa, com sua multidão de nomes, cada um vivendo uma vida que ele nunca viveu. Em pesquisas mais recentes e exaustivas, como a do biógrafo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho (autor de Fernando Pessoa: uma Quase Autobiografia), identificaram mais de 127 (chegando a ultrapassar 130). Talvez, pensei, fosse essa a distração necessária para habitar tantas realidades sonhadas sem enlouquecer. Mas Ricardo não aceitou. E eu, Jorge Berg, fiquei com os dedos sobre as teclas e o nome na ponta da língua.

Agora escrevo com meu nome verdadeiro. E isso, ironicamente, é o que mais me assusta.

Em tempos de severos antagonismos, o simples pertencer a qualquer corrente já é um obstáculo. Política, religião, raça, visão de mundo. Cada palavra que escrevo, antes mesmo de ser lida, já passa pelo crivo da minha biografia. Se eu falo de amor, perguntam de que partido é esse amor. Se falo de dor, investigam a cor da minha pele para saber se a dor é legítima. O nome virou uma etiqueta, um selo que precede o texto e, muitas vezes, o anula. É como se não houvesse mais o que é dito, apenas quem diz. E quem diz, hoje, já não tem o direito de ser ouvido sem ser julgado pelo que não disse.

Por isso, o anonimato me pareceu uma porta. Não por covardia, mas por uma urgência quase física. O ato de escrever com pureza de alma, com o coração exposto, deveria ser um gesto livre. Mas a liberdade morreu no instante em que o nome próprio foi colocado ao pé da página. Na rua, na mesa de jantar, nas redes, todos os campos da vida estão minados. Qualquer opinião divergente é um atentado ao ideário da caminhada vivencial do outro. E o outro, armado com suas certezas, não lê mais o texto. Ele lê o inimigo.

Assentei na cadeira comum, diante da mesa, e senti o frio das teclas sob os dedos. Cada clique tem um ruído seco, um eco metálico que me lembra que estou traduzindo pensamento em código. O silêncio do quarto era cortado apenas por esse som. Respirei fundo. Se Ricardo não aceitou o heterônimo, eu teria que aceitar o desafio de escrever sem escudo. Mas como?

Pensar na figura de Pessoa me confortava. Ele tinha dezenas de nomes, próximo de uma centena, para não precisar ser um só. Dezenas de realidades que não precisavam se justificar umas às outras. Cada uma vivia em seu próprio mundo, com sua própria fé, sua própria política, sua própria raça. E ele, o homem de carne e osso, ficava ali, no meio, observando. Sem precisar escolher um lado. Sem precisar ser julgado por um único ângulo.

Tenho a impressão de que hoje há pouca paciência para quem demora a concluir. Quem hesita parece incomodar. As pessoas querem uma única resposta, um único nome, uma única bandeira. E quem ousa ter mais de uma, ou nenhuma, vira um pária.

Talvez o que eu realmente queira não seja me esconder, mas me proteger. Proteger o texto da própria sombra que o autor projeta sobre ele. Uma vez, publiquei uma crônica sobre o Universo 25, e alguém me perguntou, com seriedade, qual era o meu posicionamento político sobre aquela ideia. Outra vez, escrevi sobre a perda de um amigo, e leram nas entrelinhas uma crítica a uma corrente política partidária. É assim. Tudo virou um campo de batalha. E eu, com meu nome gravado na certidão, sou um soldado involuntário.

Escrever, então, exige uma coragem que eu ainda estou aprendendo a ter. Coragem de dizer que sim, sou Jorge Berg, tenho minhas convicções, minhas dúvidas e minhas contradições. E ainda assim, quero que minhas palavras sejam lidas pelo que são, não pelo que representam.

O ruído das teclas é o único som que me parece honesto. Não há travessões que interrompam o fluxo, nem hifens que cortem o pensamento pela metade. Há apenas o movimento contínuo de uma consciência que se recusa a ser resumida por uma categoria. As palavras que saem daqui não pedem permissão para existir. Elas existem como podem, carregando meu sobrenome, meu endereço, tudo o que sou. Mas o que vale a pena ser construído ou reconstruído é o que pulsa para além do rótulo.

Sei que esta crônica não vai curar o mundo. Sei que, ao final dela, meu nome ainda estará lá, exposto, vulnerável. Mas também sei que ela foi escrita. A verdade incômoda que tento revelar aqui é que todos nós temos medo de ser lidos. Medo de que o que escrevemos, com pureza de alma, seja distorcido pelo ruído do que somos. E talvez, nessa consciência, haja uma espécie de resgate. Não do nome, mas da palavra.

Publicar com o nome verdadeiro é um ato de fé. É acreditar que, mesmo sabendo que haverá quem leia apenas para discordar, ainda existe quem leia para compreender. Cada clique é uma aposta silenciosa de que a palavra certa, dita na hora certa, encontra seu destino sem precisar de disfarces. E se o texto for bom, se ele tocar o outro em algum ponto secreto, o nome será apenas um detalhe. O que fica é o que foi sentido, não o que foi assinado.

O quarto continua silencioso. O cursor ainda pisca na tela, esperando. As teclas, agora, parecem mais leves sob meus dedos. Talvez porque eu não precise mais fugir. Só preciso ter a certeza de que o que escrevo, com ou sem nome, ainda vale a pena. Pois o que vale a pena, mesmo em tempos de ódio, sempre encontra um leitor que não precisa saber quem sou. Apenas sentir o que eu senti.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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