Antes de ser um número em uma pesquisa, a pobreza tem rosto. É aquela criança que acorda cedo, atravessa uma rua sem calçada e chega à escola depois de uma noite mal dormida. É a mãe que precisa escolher entre pagar o gás e comprar o remédio. É o adolescente que abandona os estudos não porque deixou de sonhar, mas porque a renda de casa exige que ele cresça depressa demais. É a família que trabalha, insiste, economiza, recomeça e, ainda assim, permanece praticamente no mesmo lugar durante décadas. Quando essa história se repete de pais para filhos, e depois para netos, já não estamos falando de uma dificuldade individual. Estamos diante de uma falha coletiva, construída, tolerada e transmitida de geração em geração.
O novo Atlas da Mobilidade Social escancara números nessa realidade que o Brasil insiste em normalizar. A plataforma acompanha aproximadamente sete milhões de brasileiros nascidos entre 1983 e 1990, relacionando a condição econômica de suas famílias durante a infância com a renda alcançada entre os 25 e os 29 anos. Para isso, combina dados da Receita Federal, do mercado formal de trabalho, do Cadastro Único, do Bolsa Família e de pesquisas domiciliares do IBGE. O resultado é um dos retratos mais amplos já produzidos sobre a influência do lugar de nascimento, da renda familiar, do gênero, da raça e da escolaridade dos pais sobre o futuro dos filhos.
Entre os brasileiros nascidos nas famílias que estavam entre os 25% mais pobres do país, 48% permaneceram nessa mesma faixa de renda na vida adulta. Apenas 8,32% conseguiram alcançar o grupo dos 25% mais ricos. Somente 1,28% chegaram aos 10% do topo. Do outro lado da pirâmide, 56,5% dos filhos das famílias mais ricas permaneceram entre os 25% mais ricos quando adultos. No Brasil, portanto, a pobreza não é apenas uma condição econômica. Ela funciona como uma herança. E a riqueza, muito mais do que uma recompensa pelo esforço individual, continua sendo transmitida como patrimônio, rede de contatos, acesso à educação, segurança, tempo, proteção e oportunidades.
A desigualdade se torna ainda mais brutal quando observada sob a perspectiva educacional. Entre os filhos das famílias que compõem os 25% mais pobres, apenas 1,58% conclui o ensino superior. Entre aqueles que nasceram no grupo dos 25% mais ricos, a proporção chega a 37,77%. A diferença é de quase 24 vezes. No ensino médio, 47,05% dos jovens da base da pirâmide conseguem concluir essa etapa, enquanto o índice entre os mais ricos supera 90%.
Diante desses números, como ainda há quem sustente que o Brasil é o país da meritocracia? O esforço existe. O talento existe. A disciplina importa. Mas nenhuma meritocracia é legítima quando as pessoas começam a corrida em pontos tão diferentes. Uma criança nasce em uma casa com livros, alimentação adequada, acompanhamento médico, escola de qualidade, internet, segurança e adultos disponíveis para ajudá-la. Outra cresce em uma moradia precária, convive com a insegurança alimentar, enfrenta violência no território, estuda em uma escola com dificuldades estruturais e precisa trabalhar antes de completar sua formação. Anos depois, o país compara as duas e chama o resultado de mérito. Isso não é meritocracia. É desigualdade fantasiada de justiça.
Seria injusto dizer que o Brasil nada fez nas últimas décadas. A Constituição de 1988 reconheceu educação, saúde, segurança, proteção à infância e assistência social como direitos. O país construiu o Sistema Único de Saúde, aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente, ampliou a escolarização, fortaleceu o financiamento da educação básica, estruturou a assistência social e criou programas de transferência de renda. Foram avanços civilizatórios que retiraram milhões de brasileiros da invisibilidade e estabeleceram uma rede mínima de proteção. A experiência do Bolsa Família, por exemplo, mostrou capacidade de reduzir pobreza e desigualdade monetária, especialmente quando associada à expansão do emprego e da renda.
Essas políticas, porém, foram muito mais eficientes para aliviar a pobreza imediata do que para desmontar os mecanismos que a reproduzem. Transferir renda é essencial para que uma família possa comer, comprar material escolar e atravessar momentos de vulnerabilidade. Mas a transferência, sozinha, não substitui uma escola capaz de ensinar, uma unidade de saúde que acompanhe a criança desde a gestação, um bairro seguro, uma casa com saneamento, uma política de qualificação profissional e um mercado de trabalho dinâmico. A proteção social impede que milhões caiam ainda mais. A mobilidade social exige que consigam subir.
O próprio Atlas mostra que as chances de ascensão variam profundamente conforme o território. Em estudo complementar, a probabilidade média de uma pessoa nascida na metade mais pobre alcançar o grupo dos 25% mais ricos ficou em 10,8% no país. Essa probabilidade foi de 18,1% no Sul, 16,6% no Centro-Oeste, 13% no Sudeste, 8,1% no Nordeste e 7,4% no Norte. Municípios com melhores níveis de mobilidade e inclusão produtiva tendem a apresentar maior cobertura educacional, melhores condições de trabalho e infraestrutura mais adequada de moradia e saneamento. Isso significa que não basta perguntar em qual família uma criança nasceu. É preciso perguntar em qual cidade, em qual bairro e sob a responsabilidade de qual poder público ela cresceu.
Uma criança não aprende adequadamente quando está com fome, doente, assustada ou submetida à violência dentro de casa. Também não consegue desenvolver todo o seu potencial quando falta saneamento, transporte, acesso à cultura, esporte e convivência comunitária. Por isso, políticas para a infância precisam integrar educação, saúde, segurança, assistência social, habitação e geração de renda. O acompanhamento deve começar ainda na gestação, passar pela primeira infância, seguir durante a alfabetização, a adolescência e a entrada no mercado de trabalho. Não se combate uma pobreza transmitida por gerações com projetos de seis meses, ações isoladas ou programas criados apenas para produzir cerimônias, fotografias e peças de propaganda.
É nesse ponto que a gestão pública brasileira revela uma de suas maiores fragilidades. Falamos muito sobre programas e pouco sobre resultados. Anunciamos as vagas escolares, mas raramente acompanhamos quantas crianças aprenderam. Contamos atendimentos, mas nem sempre medimos quantas doenças foram prevenidas. Inauguramos equipamentos, mas não garantimos profissionais, manutenção ou qualidade permanente. Criamos cursos profissionalizantes sem verificar se existe demanda por aquela formação. Mantemos bases de dados que não conversam entre si. Mudamos nomes, logotipos e prioridades a cada mandato. Quando uma gestão termina, projetos promissores são abandonados não porque fracassaram, mas porque pertencem politicamente ao governo anterior.
Essa incapacidade de construir políticas de Estado se agravou com a polarização. O debate público foi capturado por uma lógica na qual quase tudo precisa ser classificado como vitória de um lado ou derrota do outro. Uma parcela enorme da sociedade deixou de avaliar ideias pelo conteúdo e passou a julgá-las pela identidade de quem as apresenta. Se o programa foi criado pelo campo adversário, precisa ser destruído. Se o dado contraria a narrativa do grupo, passa a ser tratado como manipulação. Se uma crítica é feita ao líder preferido, ela é recebida como ofensa pessoal. A política deixa de ser instrumento de transformação e se converte em torcida organizada.
Pesquisas sobre o comportamento político brasileiro indicam que a polarização no país é predominantemente afetiva e se organiza mais em torno de lideranças do que de divergências consistentes sobre políticas públicas. Isso ajuda a explicar por que pessoas que concordam sobre problemas concretos, como a necessidade de melhorar escolas, hospitais e segurança, tornam-se incapazes de dialogar quando o assunto recebe uma “etiqueta” partidária. O adversário já não é alguém com quem se discorda. Ele passa a ser percebido como inimigo, alguém cuja derrota parece mais importante do que a solução do problema.
Enquanto o país discute quem venceu uma narrativa ou uma postagem, uma criança perde mais um dia de aula sem aprender. Enquanto políticos e militantes comemoram a humilhação do adversário, famílias aguardam atendimento médico, jovens abandonam a escola e comunidades continuam expostas à violência. A polarização sequestra o debate, reduz a capacidade de cooperação e inviabiliza pactos de longo prazo. Combater a pobreza geracional exige vinte ou trinta anos de políticas coerentes. A guerra política brasileira, ao contrário, reinicia o país a cada eleição.
O mais doloroso no Atlas da Mobilidade Social não é descobrir que quase metade das pessoas nascidas entre os mais pobres permanece na pobreza. É perceber que essa realidade não nos surpreende. Nós a vemos todos os dias e, ainda assim, seguimos permitindo que se repita. Naturalizamos famílias inteiras vivendo durante gerações sem acesso às condições mínimas para mudar de vida. Ao mesmo tempo, celebramos histórias excepcionais de superação como se fossem prova de que o sistema funciona, quando, na verdade, são justamente a demonstração de quanto ele é desigual. Quando vencer depende de ser uma exceção, o problema não está em quem ficou para trás. Está no caminho.
Um país justo não é aquele em que ninguém nasce pobre. É aquele em que nascer pobre não determina onde alguém chegará. O Brasil fracassará enquanto o sobrenome, o CEP, a renda dos pais, a cor da pele e o gênero continuarem pesando mais do que o esforço, a inteligência e os sonhos de uma criança. Não nos falta conhecimento sobre o que precisa ser feito. Faltam continuidade, integração, coragem política e responsabilidade pública.
E este é um ano de eleição. Mais uma vez, teremos a oportunidade de avaliar o que realmente importa. Precisamos ouvir cada candidato, compreender suas propostas, conhecer seus projetos e observar quem já demonstrou capacidade para transformar ideias em resultados concretos para a sociedade. É hora de condenar projetos de poder e começar a valorizar projetos de Estado, capazes de atravessar governos, superar disputas partidárias e transformar realidades. Não podemos continuar reféns de uma polarização desenfreada que empobrece o debate, distorce prioridades e nos impede de discutir soluções.
O voto precisa ser menos sobre paixão política e mais sobre responsabilidade. Menos sobre discursos que dividem e mais sobre propostas capazes de enfrentar a desigualdade, ampliar oportunidades e melhorar a vida das pessoas. Neste ano, cabe a cada um de nós decidir se continuaremos alimentando conflitos ou se começaremos, finalmente, a escolher quem apresenta capacidade, experiência e disposição para construir um país mais justo.