O ex-banqueiro Daniel Vorcaro pagou o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por meio de uma empresa sediada na região Oeste de Belo Horizonte.
A holding Viking Participações, com endereço na Avenida Raja Gabaglia, 2.000, no bairro Alpes, firmou com a Barci de Moraes Sociedade de Advogados um contrato de R$ 50 milhões. Desse total, R$ 40 milhões seriam quitados por meio da entrega de ações de duas empresas donas de um jato e de um helicóptero, vinculadas à operadora Prime You.
As ações eram das empresas Fraction 024 e Fraction 053, ambas com sede em Alphaville, em Barueri (SP), e de titularidade da Viking. A Fraction 024 é proprietária de um jato modelo Embraer Legacy 650, de prefixo PP-NLR, enquanto a Fraction 053 estava em processo de aquisição de um helicóptero Airbus EC 155 B.
De acordo com a brochura da Prime You enviada à advogada, as cotas das aeronaves estavam avaliadas em US$ 5,5 milhões e US$ 1,33 milhão, respectivamente. Pela cotação desta terça-feira (1º), os valores equivalem a cerca de R$ 29,6 milhões e R$ 7,2 milhões, totalizando aproximadamente R$ 36,8 milhões.
Segundo a análise da investigação da Polícia Federal (PF), poucos dias antes do fechamento do acordo, em 9 de maio de 2025, Vorcaro conversou por telefone com seu sócio na operadora, salvo como “Marcos Prime” (Marcus Vinicius da Mata), e pediu que fosse enviada a Viviane de Moraes a brochura institucional detalhando as duas aeronaves
O termo foi assinado em 19 de maio de 2025 e estabeleceu que a entrega das ações teria caráter irrevogável e irretratável. Os R$ 10 milhões restantes seriam quitados pela Viking mediante o reembolso trimestral das despesas geradas pela utilização das aeronaves e pelo pagamento do saldo de aquisição delas.
A investigação aponta ainda que a minuta do contrato de prestação de serviços enviada por Viviane de Moraes a Vorcaro, em janeiro de 2024, tem nos metadados o advogado Guilherme Benazzi como autor e um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação.
Contrato de honorários
Diferente deste termo societário de dação de jatos, as parcelas mensais de honorários pertenciam ao primeiro contrato, assinado em janeiro de 2024 diretamente entre o Banco Master S.A. e o escritório Barci de Moraes.
A investigação identificou que, em 15 de março de 2024, após ser cobrado por intermediários sob o aviso de que “o careca não pode atrasar”, o ex-banqueiro ordenou pagamentos urgentes de R$ 3,4 milhões.
Por meio de mensagens, ele instruiu sua equipe financeira a liquidar o compromisso “sempre, sem nota” e “do jeito que for”, por considerá-lo o contrato mais importante do grupo. Posteriormente, o empresário ordenou a proibição de transferências via PIX ao escritório por considerar o método inadequado.
Os documentos apontam ainda que a proposta preliminar do contrato de prestação de serviços enviada por Viviane de Moraes a Vorcaro, em 11 de janeiro de 2024, apresentou em seus metadados eletrônicos o advogado Guilherme Benazzi como autor.
O usuário registrado como responsável pela “Última Modificação”, contudo, foi “Ministro Alexandre de Moraes”, que alterou o arquivo eletrônico às 16:30 daquela mesma tarde. O mesmo padrão ocorreu na versão finalizada do documento, modificada por último pelo mesmo perfil de usuário na noite de 15 de janeiro de 2024, às 23:04.
As negociações
A perícia policial também recuperou as conversas que antecederam o fechamento do segundo negócio. O advogado de Vorcaro, Leonardo Palhares, enviou duas minutas para o empresário escolher o formato da transação.
Em uma delas, Vorcaro poderia recomprar as ações das SPEs das aeronaves pelo valor simbólico de R$ 1,00 caso o contrato não fosse cumprido. O banqueiro recusou a opção e afirmou que os ativos já pertenciam ao escritório.
Em 19 de maio de 2025, Palhares enviou o documento final ao banqueiro e explicou que o escritório Barci de Moraes preferia ser dono direto das cotas de uso das aeronaves, sem figurar como sócia das empresas.
No dia seguinte, o advogado chegou a sugerir uma alternativa de arrendamento operacional com opção de compra, mas Vorcaro recusou de pronto e mandou o advogado resolver a questão pessoalmente no banco
Cerca de dois meses depois, em 16 de julho de 2025, Vorcaro cobrou de Mata a solução de pendências operacionais nas cotas e questionou se o escritório de advocacia não estava de fato utilizando os bens.
O sócio respondeu que as aeronaves já estavam liberadas, que os beneficiários do escritório “já usaram aviões e helicópteros” e que o contrato societário das aeronaves seria alterado para passar da banca de advocacia para outra empresa deles denominada Lux.
Leonardo Palhares confirmou mais tarde que os advogados do escritório exigiram a transferência dos ativos para a Lux porque demonstravam receio de figurar diretamente em empresas onde os sócios estavam “muito visíveis”, o que geraria um “risco reputacional grande”.
Para comprovar a utilização regular dos bens, Da Mata encaminhou a Vorcaro o print de uma conversa mantida com Viviane de Moraes em que ela afirmava: “Sim, estamos gostando muito, todos que nos atenderam sempre foram muito educados e atenciosos”.
Em agosto de 2025, a equipe de Vorcaro monitorou novos voos agendados para o escritório no Legacy PP-NLR e recebeu do empresário a instrução expressa de prioridade máxima: “Não deixe de atender barci”.
Quebra de sigilo
O sigilo dos autos da Operação Compliance Zero, liderada pela Polícia Federal (PF), foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (1º). O ministro determinou que as informações sejam levadas ao plenário da Corte, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
O laudo tem 218 páginas e foi produzido a partir da extração dos dados do aparelho apreendido com Vorcaro. Ele integra a investigação sobre fraudes no Banco Master, que levaram à liquidação da instituição em novembro de 2025 e a prejuízos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e ao Banco Regional de Brasília (BRB).