Está surgindo o ‘Curysmo’?

Candidato do Avante pode ser uma onda passageira, mas é uma novidade grande demais para se desprezar
Augusto Cury durante o debate da Band
Augusto Cury, que concorre em chapa pura do Avante, tem o mineiro Júlio Delgado como vice. Foto: Renato Pizzutto/Band

Não sei se Augusto Cury acredita em milagres, mas, como escritor de autoajuda, imagino que pelo menos em pensamento positivo ele acredite. Pois pode começar a pensar com bastante força. A um mês da eleição presidencial, o autor de dezenas de livros sobre inteligência emocional, ansiedade e felicidade, que até outro dia parecia candidato apenas para cumprir tabela, aparece em terceiro lugar nas principais pesquisas eleitorais e começa a produzir um fenômeno que, se ainda está muito longe de ameaçar Lula e Flávio Bolsonaro, já merece ser observado com atenção.

Os números chamam a atenção não apenas pelo tamanho, mas sobretudo pela velocidade. No BTG/Nexus, Cury saltou de 2% para 11% em uma semana. Na Quaest, foi dos mesmos 2% para 10%. No Atlas/Bloomberg, avançou de 1,6% para 7,8%. E agora o Datafolha mostra o escritor com 8%, contra apenas 2% na rodada anterior. Lula aparece com 38%, Flávio Bolsonaro com 33% e Cury, portanto, ainda está a uma distância amazônica dos dois. Mas deixou para trás políticos muito mais conhecidos, experientes e estruturados, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, além de Renan Santos.

Mais curioso ainda é que Cury está fazendo isso sem partido relevante, máquina política, estrutura nacional ou qualquer experiência eleitoral anterior. Em compensação, tem uma gigantesca presença digital e um nome conhecido por milhões de brasileiros. Na última semana de agosto, enquanto seus números começavam a disparar, seu Instagram saltou de cerca de 8,4 milhões para 10,7 milhões de seguidores, com vídeos de apoio à sua candidatura alcançando milhões de visualizações. Pode ser uma onda passageira? Claro. Mas é uma novidade grande demais para se desprezar.

O terceiro polo

O interessante em Cury não é apenas seu crescimento, mas de onde ele parece vir. O lulopetismo e o bolsonarismo construíram, ao longo da última década, duas identidades políticas fortíssimas, quase impermeáveis aos fatos e movidas por uma mistura de ideologia, pertencimento, rejeição ao adversário e devoção ao líder de plantão. Ambos possuem linguagem própria, inimigos definidos, símbolos, militância, redes organizadas e, principalmente, uma extraordinária capacidade de transformar eleição em confronto moral entre o bem e o mal. Cury, ao menos até aqui, trafega por outra estrada.

Ele não oferece ao eleitor um inimigo para odiar, não promete salvar o Brasil dos comunistas ou dos fascistas, não se apresenta como representante de classe, religião ou corrente ideológica e muito menos dispõe de militância agressiva. Cury é um dos autores brasileiros mais lidos no mundo e passou décadas conversando diretamente com um público que jamais participou de uma reunião partidária, decorou número de partido ou discutiu a composição do Supremo. Sua candidatura começa a transformar a relação entre escritor e leitor em identificação, que, quando chega às urnas, vira voto.

Segundo o Datafolha, Cury encontra espaço principalmente entre eleitores independentes, com maior escolaridade e renda e entre jovens conectados às redes sociais. Está surgindo, assim, o “Curysmo”? Acho que não. Em vez de disputar com Lula e Bolsonaro quem interpreta melhor o Brasil, o escritor oferece ao brasileiro cansado de Lula e Bolsonaro a possibilidade de simplesmente não entrar na briga. Só isso. Não creio que alcançará muito mais que os 10 a 12% atuais. E isso, se é gigantesco, não o transforma automaticamente em linha ideológica ou bolha política como são o lulopertismo e o bolsonarismo.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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