Maria Elvira: a lucidez dos anjos

A ex-deputada Maria Elvira
Maria Elvira foi professora e parlamentar, dirigente e viajante, caminhante e colecionadora, mulher das instituições e mulher da casa. Lutou para que as mulheres entrassem nos lugares onde as decisões eram tomadas. Foto: Alexandre Coutinho

Entre Minas e o mundo, uma vida em que memória, política e afeto nunca deixaram de procurar futuro.

Nestes dias, dois anjos de pedra-sabão foram instalados à entrada da Casa dos Anjos, na Pampulha, um de cada lado do acesso principal. Em escala humana, de asas abertas, ladeiam a porta sob a placa que há décadas dá nome à residência de Maria Elvira Salles Ferreira. A pedra clara, a vegetação, a arquitetura da casa e a escada que se revela depois da entrada compõem uma cena de rara força. Os anjos não parecem estar ali apenas para ornamentar. Criam uma passagem.

Maria Elvira compreende os anjos como intermediários entre o céu e a terra. Foi dessa ideia que nasceu o nome da casa onde vive há quase quarenta anos, diante da Lagoa da Pampulha. Agora, aos 76, quando começa a preparar aquele lugar para se tornar também espaço de cultura e memória, os anjos que durante décadas existiram no nome ganharam corpo na entrada. São feitos de uma matéria profundamente vinculada à história de Minas, a pedra que nossas mãos transformaram em santos, profetas, ornamentos e símbolos. A imagem parece guardar, sem que tenha sido concebida para isso, alguma coisa da própria biografia de Maria Elvira.

Quando dizem que a Casa dos Anjos um dia será um museu, ela corrige o tempo da frase: “Eu estou preparando o museu. É isso. Agora. É uma casa viva da cultura.” A correção contém muito de sua maneira de estar no mundo. Maria Elvira não parece interessada em organizar a própria existência como quem fecha um inventário. Sua memória continua conjugada no presente porque sua vida ainda aceita futuro.

Em novembro de 2002, ao se despedir da Câmara dos Deputados depois de dezesseis anos de mandatos legislativos, disse que o coração lhe pedia “novos caminhos em direção a novas descobertas”. Naquele mesmo discurso deixou uma frase que atravessou as décadas: “Nascer em Minas já é um compromisso com o interesse público.” Mais de vinte anos depois, já sem desejar eleição, cargo ou emprego, formula a mesma ética em palavras ainda mais diretas: “Não se omitir. Não se omitir. Não se omitir.” Mudaram as circunstâncias. Permaneceu a recusa em assistir à vida de longe.

Essa disposição começou antes da política. Antes da parlamentar existiu a professora e, antes dela, uma família para a qual educação significava oportunidade, trabalho e transformação. Newton Paiva Ferreira, seu pai, fez do ensino o eixo de sua trajetória. No início da década de 1970, a família deu forma ao Instituto Cultural Newton Paiva Ferreira. O primeiro vestibular aconteceu em 1972 e, mais tarde, a instituição se tornaria Centro Universitário. Maria Elvira participou dessa construção e permaneceu por muitos anos ligada à educação e à gestão.

A professora nunca saiu inteiramente de cena. Maria Elvira observa as pessoas, percebe possibilidades, aproxima, recomenda, corrige, abre portas. Há uma dimensão pedagógica até em sua maneira de cuidar. Seu afeto não é complacente e, por isso mesmo, pode ser exigente. Em sua forma de compreender as relações existe uma convicção antiga de que ninguém cresce sozinho. Ela prefere dizer no feminino: “Ninguém cresce sozinha.”

Muito jovem, descobriu também que aprender exigia partir. Estudou Letras na PUC Minas, Comunicação Social na UFMG e seguiu formação ligada à comunicação e às relações públicas. Aos vinte anos decidiu fazer sua primeira grande viagem à Europa. Para financiá-la, vendeu ao irmão um lote que possuía nas proximidades da Pampulha. Quando se lembra da decisão, não hesita: “Não me arrependo nem um minuto. Essa viagem abriu o mundo para mim.”

Em 1972 voltou à Europa e passou nove meses em Portugal, estudando e circulando por Lisboa, Coimbra e Porto. Queria morar sozinha, experimentar independência, conhecer outras maneiras de viver. Houve também, na juventude, um período de estudos em Paris. Portugal, porém, permaneceu de maneira particular. “É como se fosse a minha terra”, diz. Em Ouro Preto, sua casa recebeu o nome de Morada de Óbidos, e a arquitetura guarda sinais dessa afeição. Bia, antiga professora portuguesa a quem chama de “mãe velha”, continuou presente tantos anos depois. Algumas geografias deixam de ser destinos e passam a pertencer à biografia.

Maria Elvira conheceu 103 países. O número impressiona, mas o que realmente interessa é aquilo que tantas viagens produziram. O mundo não a tornou menos mineira. Ao contrário, parece ter-lhe dado uma consciência mais nítida da própria origem. Viajar trouxe repertório, comparação, curiosidade, livros, porcelanas, máscaras, pinturas, imagens, conchas, pequenos objetos e amizades. Seu cosmopolitismo nunca exigiu desenraizamento. Quanto mais amplo se tornou o mundo, mais Minas adquiriu contorno dentro dela.

Ao recordar a infância, Maria Elvira fala também do tempo de Juscelino Kubitschek e de um Brasil em que, segundo sua lembrança, os adultos viviam com uma “alegria da esperança”. É uma memória pessoal e geracional. Sua formação aconteceu num tempo em que modernidade e futuro ganhavam forma em cidades, estradas, escolas, arquitetura, instituições e na convicção de que a ação humana podia interferir no destino coletivo. Essa confiança no futuro não desapareceria dela.

A política nasceu quando essa disposição encontrou uma ausência. Maria Elvira olhava para os espaços de decisão e quase não via mulheres. Quando procura explicar por que resolveu disputar eleições, não começa por partido ou carreira. Começa por três perguntas: “Por que não estamos lá? Por que a mulher não é ouvida? Por que a mulher não ocupa o espaço político?”

Em 1985 integrou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado no processo de redemocratização do país. Na mesma época tornou-se a primeira mulher a integrar a diretoria da Associação Comercial de Minas Gerais. Ao recordar aquele ambiente quase exclusivamente masculino, conta que esperavam dela pouco mais do que a presença de “um jarro para colocar flores”. A imagem diz muito sobre um tempo em que as mulheres começavam a entrar em determinadas salas, mas ainda podiam ser recebidas como ornamento.

Maria Elvira nunca parece ter acreditado que exercer autoridade significasse negar a própria feminilidade. Sua questão era outra: impedir que ser mulher fosse usado para diminuir sua inteligência, sua voz ou sua capacidade de decisão. Não queria entrar no mundo masculino para se tornar semelhante aos homens. Queria participar da transformação do mundo público para que nele coubessem também as mulheres.

A primeira campanha tornou essa resistência concreta. Perguntavam ao irmão de onde viriam os votos, quanto dinheiro a família pretendia gastar, qual base eleitoral sustentaria aquela candidatura. Enquanto alguns dispunham das estruturas tradicionais, Maria Elvira percorria cidades e conversava. Em São Gonçalo do Pará foi vista sob o sol do meio-dia, falando com motoristas de táxi. Seu slogan dizia “a vez e a voz da mulher”. Hoje as palavras podem soar evidentes. Naquele momento, eram uma declaração de presença.

Eleita deputada estadual em 1986, chegou a uma Assembleia em que as mulheres constituíam exceção. Durante os trabalhos constituintes, foi primeira vice-presidente da Mesa Executiva da Comissão Constitucional. Participou, assim, de um daqueles momentos raros em que uma sociedade precisa escrever juridicamente aquilo que deseja ser. A mulher que havia começado perguntando por que as mulheres estavam fora das decisões ocupava uma das posições centrais do processo que produziria a Constituição mineira de 1989.

Muitos anos depois, ao voltar à Assembleia, descreveu a mulher como alguém dotada da “capacidade de ser muitas em uma só”. A frase é quase autobiográfica. Em Maria Elvira convivem a educadora e a política, a dirigente e a feminista, a viajante e a caminhante, a mulher das instituições e a anfitriã, a colecionadora do mundo e a defensora de Minas. Não são personagens sucessivas. Muitas delas existem simultaneamente.

Depois dos dois mandatos estaduais vieram dois mandatos na Câmara dos Deputados, de 1995 a 2003. Presidiu a Comissão de Educação, Cultura e Desporto e conduziu discussões que exigiam disposição para enfrentar os limites de seu tempo. Presidiu a comissão especial que debateu a união civil entre pessoas do mesmo sexo, num Brasil em que o reconhecimento jurídico das relações homoafetivas ainda parecia distante. O tempo costuma transformar em normalidade direitos cuja primeira formulação exigiu coragem política. Antes que uma sociedade reconheça determinada questão, alguém precisa aceitar colocá-la no centro da sala.

Sua atuação legislativa alcançou também questões concretas da vida. Em 1997 apresentou o projeto que resultaria na Lei nº 9.797, de 1999, assegurando pelo SUS a cirurgia plástica reconstrutiva da mama às mulheres submetidas à mutilação decorrente do tratamento do câncer. Outras iniciativas trataram da ampliação do acesso a preservativos, em meio à luta contra o HIV, e da investigação imediata nos casos de desaparecimento de crianças e adolescentes.

A reconstrução mamária tocava de perto sua própria história. O câncer atravessou sua família, levando o pai, a mãe, uma irmã muito jovem e uma sobrinha. Na Câmara, Maria Elvira recordou especialmente a irmã Maria Antonieta, morta ainda jovem em consequência de um tumor maligno da mama. Uma experiência pessoal não explica sozinha uma política pública, mas pode iluminar sua origem moral. Para quem conheceu a doença dentro de casa, reconstruir o corpo de uma mulher depois do câncer não poderia ser tratado como questão acessória. Havia ali dignidade, identidade e a possibilidade de continuar vivendo no próprio corpo depois de sobreviver.

A política também lhe ensinou o contrário da idealização. Maria Elvira conhece partidos, campanhas, acordos, dinheiro, disputas, vaidades, lealdades e rupturas. Chegou à secretaria-geral do PMDB, abriu mão de posições para permitir composições e viveu conflitos duros, inclusive com Itamar Franco. Ao recordar um deles, depois de contar mágoas e um longo período sem conversa, resume tudo sem heroísmo: “Política é muito estressante.”

Certa vez perguntou a Michel Temer por que havia tão poucas mulheres ministras. Ele respondeu que os partidos indicavam os nomes. A resposta lhe revelou a engrenagem. Se os lugares responsáveis pelas indicações continuam ocupados majoritariamente por homens, a igualdade prevista pelas normas não é suficiente para produzir igualdade na vida. Décadas depois de sua primeira candidatura, Maria Elvira ainda escuta mulheres relatarem dificuldades para obter recursos partidários, espaço eleitoral e reconhecimento. A paisagem mudou. Algumas estruturas resistem.

Existe, porém, outra política em sua biografia, menos visível nos registros oficiais. Durante anos, suas casas foram lugares de encontro. Nas quartas-feiras, pessoas que se enfrentavam no plenário sentavam-se à mesma mesa, comiam, conversavam, bebiam vinho. Numa dessas noites, Ronaldo Cunha Lima começou a recitar poemas e o jantar terminou em sarau. No dia seguinte, alguns voltariam a se enfrentar politicamente.

Para Maria Elvira, isso não constituía contradição. A divergência não precisava anular a convivência. Há algo de uma antiga civilidade mineira nessa cena, mas há sobretudo uma característica da anfitriã. Maria Elvira gosta de reunir. A mesa teve em sua vida quase a mesma força simbólica que a tribuna. Na tribuna, as ideias se confrontam. À mesa, o adversário recupera o rosto. Uma democracia talvez precise das duas coisas.

É pela casa que se chega novamente à Pampulha. Maria Elvira vive na Casa dos Anjos há quase quatro décadas. Sempre gostou da água, da lagoa, daquela paisagem. Com o tempo, o que via da janela deixou de ser apenas beleza e passou a implicar responsabilidade. “Eu, de uma certa forma, me transformei um pouco em uma protetora”, conta.

Participou da criação da Associação Ecológica Pró-Lagoa da Pampulha e esteve entre as pessoas que procuraram em Brasília apoio para enfrentar os problemas ambientais da lagoa. Uma audiência com Fernando Henrique Cardoso abriu interlocuções importantes e ajudou a mobilizar recursos para aquele território. Quando recorda a iniciativa, Maria Elvira não constrói uma epopeia: “Nem nós sabíamos o que a gente estava fazendo. Nós fomos lá para botar a mão, para dizer: olha, olhem para a Pampulha. A Pampulha está precisando de ajuda.”

A frase revela uma disposição recorrente em sua vida. Nem sempre é necessário conhecer todos os caminhos para reconhecer que alguma coisa precisa ser feita.

Com o tempo, a Casa dos Anjos começou a receber reuniões, fotografias, diagnósticos, dirigentes e políticos. Célio de Castro esteve ali. Itamar Franco também. A residência particular adquiriu uma função pública muito antes de qualquer projeto museológico. Quando Belo Horizonte retomou, em 2012, a candidatura do Conjunto Moderno da Pampulha ao reconhecimento como Patrimônio Mundial, Maria Elvira esteve entre as pessoas que acompanharam e sustentaram socialmente aquela construção. Em julho de 2016, a Unesco reconheceu o conjunto.

Há uma particular beleza nisso. A paisagem vista diariamente da janela de uma casa tornou-se patrimônio da humanidade. O valor universal não anulou a experiência íntima; acrescentou-lhe outra camada. Existem lugares que pertencem simultaneamente à história coletiva e à memória daqueles que aprenderam a amá-los.

Minas continuou a ocupá-la por outros caminhos. Como secretária de Estado de Turismo e depois em diferentes iniciativas, permaneceu ligada à divulgação do território. Nas Caminhantes da Estrada Real encontrou uma experiência em que amizade, paisagem, corpo e pertencimento se misturavam. Tornou-se uma de suas principais lideranças e presidiu a associação durante anos. As caminhantes percorreram estradas históricas, divulgaram localidades e participaram de ações ambientais que, segundo a memória do grupo, chegaram ao plantio de cerca de 300 mil árvores.

A imagem encerra um belo paradoxo. Depois de conhecer 103 países, Maria Elvira continuava descobrindo Minas a pé. Caminhar altera nossa relação com a geografia. A montanha deixa de ser linha no horizonte e passa a ser esforço do corpo. A igreja deixa de ser apenas monumento e recupera a praça, o sino e a comunidade que a cerca. A cozinha deixa de ser uma abstração gastronômica e reencontra o fogo, o cheiro, a pessoa, a mesa. A velocidade permite atravessar o mundo. A lentidão, algumas vezes, permite compreendê-lo.

Dentro da Casa dos Anjos existe outra geografia. Mais de três mil corujas estão sendo catalogadas. Há porcelanas, pesos de papel, pequenas cadeiras, ovelhas, sapos, touros, máscaras africanas, imagens religiosas, livros, fotografias, conchas e objetos vindos de diferentes lugares. O Vale do Jequitinhonha aparece nas bonecas e cerâmicas. Carlos Bracher e Yara Tupynambá convivem com peças anônimas compradas numa feira ou encontradas à margem de uma estrada.

Quando lhe perguntam de onde nasceu tamanho desejo de colecionar, Maria Elvira responde primeiro com humor: “Todo colecionador é acumulador.” Logo depois encontra uma definição mais precisa: “O objeto te remete à memória.” Fala então em “memória temporal” e “memória do afeto”.

Um objeto não conserva o passado intacto. Atravessa o tempo conosco e muda de significado à medida que também mudamos. Pode guardar a pessoa que o ofereceu, uma viagem, uma cidade, uma ausência, uma amizade, um momento de felicidade. Há objetos praticamente sem valor no mercado capazes de conter uma parte enorme da vida de alguém. Carlos Bracher percebeu a singularidade desse universo ao sugerir que Maria Elvira transformasse suas casas e coleções em livro. Assim nasceu O Prazer de Colecionar.

As conchas também possuem sua pequena biografia. Em Búzios, na casa da Praia da Ferradura conhecida pelos amigos como “Embaixada de Minas”, Maria Elvira decorou um banheiro com exemplares reunidos em diferentes lugares. Quando deixou aquela casa, a coleção se dispersou em parte. Mais tarde, já na Pampulha, refez aquele universo com outras conchas, viagens e lembranças. Não procurou reproduzir exatamente o que havia perdido. Recomeçou. A memória raramente nos devolve uma cópia do passado. Ela cria novas formas de relação com aquilo que passou.

Maria Elvira se define como uma alma “barroca por excelência”. A expressão ajuda a compreender sua relação com as coisas, desde que o barroco não seja confundido apenas com abundância ou excesso. Em Minas, o barroco encontrou na matéria uma possibilidade de transcendência. A pedra-sabão continua pedra quando se torna profeta, mas já não é somente pedra. A madeira continua madeira sob o ouro e a policromia, embora passe a significar além de sua natureza física. A arte sacra faz do visível uma passagem para aquilo que os olhos não alcançam inteiramente.

A casa de Maria Elvira possui algo dessa lógica. Uma boneca do Jequitinhonha é cerâmica e também território, mão, autoria e lembrança. Uma concha contém matéria e viagem. Uma imagem religiosa carrega forma, devoção e tempo. A arte e os objetos não precisam abandonar o mundo concreto para alcançar outra dimensão. É a própria matéria que permite à memória, à beleza, à crença e ao afeto tornarem-se perceptíveis.

Daí sua preocupação com aquilo que acontecerá à coleção. Maria Elvira conhece o destino comum de muitas casas depois que seus habitantes desaparecem. Os objetos são separados, vendidos, conduzidos a depósitos, antiquários ou outras famílias. Não se perde apenas cada peça. Pode desaparecer a relação que existia entre elas, e é essa relação que constitui uma narrativa. “Eu não quero que isso aconteça com tudo que está aqui. Porque isso aqui é uma vida de viagens, pelo mundo, pelo interior, com a vida política.”

Então formula a síntese mais exata de sua maneira de colecionar: “Tem preço e tem valor. Eu gosto do valor.”

O Museu Casa dos Anjos nasce dessa distinção. Não como monumento funerário dedicado à própria biografia, mas como tentativa de transmitir relações, histórias, pessoas e experiências. Maria Elvira não se apresenta como especialista em museologia. Diz estar “aberta a aprender, a ouvir, a captar”. Em determinado momento chama o projeto de “essa casa de luz”. A expressão surge com naturalidade e lhe cai bem. Dar forma pública à memória é também iluminar aquilo que, de outro modo, poderia desaparecer.

Os primeiros núcleos que imagina confirmam que a instituição não será apenas sobre ela. Maria Elvira quer uma linha do tempo das mulheres de Minas. “Tem que ter mulheres”, insiste. Quer preservar a história das Caminhantes da Estrada Real e deseja que Yara Tupynambá tenha presença importante na casa. Quando fala da artista, abandona qualquer conceito e diz simplesmente: “Eu tenho muito medo da Yara sumir. Eu não quero que isso aconteça.”

A frase revela o centro da questão. Maria Elvira teme uma forma específica de desaparecimento, aquela que ocorre quando uma pessoa deixa de existir na memória coletiva. A mulher que entrou na política perguntando por que as mulheres não estavam nos lugares de decisão chega aos 76 anos preocupada com outro lugar que elas precisam ocupar: a história. Depois da vez e da voz, existe a memória.

É nesse ponto que já não consigo escrever sobre Maria Elvira apenas à distância. Ela conheceu minha mãe e me conhece para além dos cargos e das aparências inevitáveis da vida pública. Depois que perdi minha mãe, passou a ocupar um lugar singular de cuidado, sem qualquer pretensão de substituir aquilo que não se substitui. Maria Elvira chama essa relação de maternagem e acrescenta, com a franqueza que lhe pertence: “A minha maternagem é uma maternagem muito sincera.”

Posso confirmar. Seu cuidado inclui dizer coisas que nem sempre queremos ouvir. Minha chegada à presidência da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte teve nela uma força decisiva. Havia uma trajetória profissional, circunstâncias políticas, instituições e outras pessoas envolvidas. Mas os registros oficiais raramente guardam o instante anterior às nomeações, quando alguém reconhece uma possibilidade em nós e resolve abrir um caminho. Maria Elvira acreditou em mim.

Anos depois, há alguma justiça afetiva em participar das conversas sobre o futuro da Casa dos Anjos. Não me interessa reivindicar autoria sobre uma instituição que nasce da vida e das escolhas de Maria Elvira. Interessa-me outra coisa, mais humana: a circularidade do gesto. Quem abriu tantas portas durante a vida encontra agora pessoas dispostas a ajudá-la a manter aberta a sua.

A casa vive também uma nova etapa afetiva ao lado de Marcelo Abi-Saber, cuja trajetória igualmente passa pela política e pela vida pública de Belo Horizonte. Aqui, porém, interessam menos os cargos do que a presença. Justamente quando Maria Elvira começa a organizar aquilo que deseja transmitir, sua casa continua aberta à companhia, à intimidade e ao imprevisto. Não se prepara a memória expulsando a vida dos cômodos.

Por isso os dois anjos instalados à entrada parecem conter, sem saber, alguma coisa de toda essa história. Maria Elvira os compreende como intermediários entre o céu e a terra. Agora estão ali, em escala humana, feitos de pedra-sabão, guardando uma porta que passa a ter dois sentidos. Continua sendo a entrada de uma casa particular e começa a ser também a entrada de um lugar de memória.

Na arte sacra, o anjo anuncia uma passagem. Não precisa explicar aquilo que existe dos dois lados. Basta indicar que há algo a atravessar.

Será assim também na Casa dos Anjos. Quem passar por aquelas figuras poderá encontrar as mulheres que Maria Elvira não deseja ver esquecidas, as caminhantes, Yara, o Jequitinhonha, os livros, as viagens, a política, a Pampulha e milhares de objetos reunidos durante uma vida. Encontrará, sobretudo, uma casa ainda habitada por quem reuniu tudo aquilo.

Essa condição é uma das belezas do projeto. O museu começa antes que sua personagem principal se transforme em passado. Maria Elvira poderá continuar alterando a casa, recebendo amigos, discordando, escolhendo peças, fazendo planos, descobrindo artistas e acrescentando presente ao próprio acervo.

Depois de recordar perdas muito duras de sua família, ela pronuncia uma frase que à primeira vista poderia parecer contraditória: “Que vida maravilhosa. É uma vida de celebração.” Não há ingenuidade nisso. Uma frase assim só adquire verdade quando pronunciada por alguém que conhece também a sombra. Sua lucidez não nasce de uma existência protegida da dor, mas da capacidade de reconhecer a finitude sem transformá-la em desistência.

Colecionar pode ser uma forma de resistência ao desaparecimento. Fazer política também. Educar alguém, aprovar uma lei, proteger uma paisagem, guardar uma obra, defender uma artista, reunir adversários em torno da mesma mesa ou preservar a história das mulheres são gestos muito diferentes, mas todos enfrentam, à sua maneira, a dispersão produzida pelo tempo.

“Nascer em Minas já é um compromisso com o interesse público”, disse Maria Elvira há mais de vinte anos. Vista agora da Casa dos Anjos, a frase ganha outra espessura. Diante da janela está a Pampulha. Dentro da casa, fragmentos de 103 países convivem com o Vale do Jequitinhonha, a política mineira, os amigos, as mulheres e as memórias familiares. O mundo encontrou ali uma maneira de caber em Minas.

Maria Elvira foi professora e parlamentar, dirigente e viajante, caminhante e colecionadora, mulher das instituições e mulher da casa. Lutou para que as mulheres entrassem nos lugares onde as decisões eram tomadas. Agora prepara outro lugar para que elas não desapareçam quando o tempo passar.

À entrada, os dois anjos de pedra-sabão guardam uma passagem ainda em construção. A Pampulha continua diante da janela. Dentro da casa, entre objetos, livros, amigos, projetos e histórias que ainda não aconteceram, Maria Elvira segue fazendo aquilo que explica toda a sua biografia: vivendo antes que a memória consiga transformá-la em passado.

Este artigo contou com a colaboração de Igor Arci Gomes e Rodrigo Giovanni de Almeida Domingos Jorge.

Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da PUC Minas.

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