A transcendência do afeto

Pessoas se abraçam
Escolher amar alguém não significa precisar amar o outro para ser feliz. Essa diferença entre preferir e precisar parece pequena nas palavras, mas é imensa dentro da alma. Foto: Pixabay

Passamos boa parte da vida esperando que alguém nos escolha, nos compreenda, nos reconheça, nos abrace do jeito que gostaríamos. Esperando que o outro confirme, com gestos e palavras, aquilo que secretamente ainda não conseguimos confirmar dentro de nós: que somos dignos de amor.

O que precisamos compreender é que esse amor não começa no outro, mas em nós mesmos. E que somos nós que temos a responsabilidade de nos amar. Amar por aquilo que somos antes de qualquer aplauso, antes de qualquer conquista e antes de qualquer pessoa chegar.
Há uma beleza imensa em compreendermos o amor pelo simples fato de sermos filhos amados do Criador. Não porque acertamos sempre, porque somos bons o tempo inteiro ou porque merecemos mais do que alguém. Mas porque o amor de Deus não funciona pela lógica das nossas performances. Ele existe antes mesmo da nossa existência.

Quando esse entendimento deixa de ser apenas uma frase bonita e passa a morar dentro da gente, alguma coisa muda. A gente para de mendigar afeto. Para de aceitar migalhas só para não ficar sozinho. Maturidade também é não ter medo de ficar “sozinho”. Porque quem se sabe amado não precisa transformar o outro em remédio para as próprias faltas, em band aid para tapar as feridas.

Escolher amar alguém não significa precisar amar o outro para ser feliz. Essa diferença entre preferir e precisar parece pequena nas palavras, mas é imensa dentro da alma. Quando precisamos, entregamos ao outro a chave da nossa felicidade. Ficamos com medo de perder, de desagradar, de sermos rejeitados. Quando escolhemos, porém, amamos a partir da liberdade e, sobretudo, da felicidade que já existe dentro de nós. Estamos inteiros em nós mesmos e, nessa inteireza, decidimos compartilhar a vida com alguém.

Enquanto o amor se traduz no sentimento profundo e duradouro de conexão, o afeto é a manifestação prática e diária desse sentimento por meio de gestos de cuidado. É o famoso “quem ama cuida”. E o amor que nasce dessa consciência mais profunda não precisa da reciprocidade para existir, embora precise de limites para não se transformar em abandono de si.

É interessante percebermos que as relações dependem de amor, mas o amor não depende das relações. Podemos, inclusive, amar sem sermos amado. Por sermos canal, transbordamos o amor do Divino que habita em nós. É como quem acende uma vela e não pergunta à escuridão se ela merece a luz.

Provavelmente seja por isso que o amor e a prosperidade caminhem juntos. Quando uma pessoa reconhece o próprio valor, ela deixa de viver na lógica da escassez e percebe que o amor que recebeu dela mesma torna-se um reservatório capaz de ser compartilhado e multiplicado na vida de outras pessoas. É como uma mãe que se sente valorosa, amada e próspera. Ela oferece aos filhos, através do exemplo, uma herança muito maior: a certeza de que a vida pode ser infinitamente abundante a partir da transcendência do afeto, por meio do amor e dos talentos.

O melhor disso tudo é descobrirmos que aquilo que procurávamos no mundo já havia sido colocado dentro de nós. Que não precisamos ser escolhidos para nos sentirmos valiosos, nem amados para sentir o amor. Quando reconhecemos e aceitamos ser a fonte que somos, deixamos de viver com as mãos estendidas, esperando receber, e começamos a viver com as mãos abertas, prontas para oferecer. Já que quem sabe que é amado não passa a vida procurando amor, mas vive a vida se tornando amor.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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